Apex Partners pede recuperação judicial com dívida de R$ 986 milhões
Um grupo que prometia proteção total de capital em renda variável agora tenta se proteger da própria dívida na Justiça.

A gestora capixaba Apex Partners formalizou nesta segunda-feira (14) o pedido de recuperação judicial na Vara de Recuperação Judicial e Falência de Vitória (ES). O grupo, que chegou a administrar recursos de cerca de 1.600 investidores por meio de fundos com mecanismo de cashback, soma um passivo de aproximadamente R$ 986 milhões e agora depende da Justiça para decidir seu futuro.
Fundada em 2013 no Espírito Santo, a Apex Partners construiu sua operação em torno de gestão de recursos, distribuição de valores mobiliários, investment banking, private equity, venture capital e incorporação imobiliária. A expansão veio por meio de aquisições de empresas como Carbyne Investimentos, Stark Investment Banking, a butique Propósito e os multifamily offices Potenza e Redoma, ampliando a presença do grupo para Espírito Santo, Paraná e Santa Catarina.
Parte da captação de recursos se apoiava em fundos com promessa de cashback, mecanismo pelo qual o investidor recebia de volta parte do capital investido em datas predeterminadas, somado à valorização das cotas. Segundo levantamento do próprio grupo, essas obrigações de resgate somavam R$ 309,8 milhões em cerca de 1.600 posições no fim de junho, incluindo cotistas do fundo imobiliário Apex Malls, que detém participação minoritária de 15,82% no Shopping Vitória, empreendimento administrado pela BTG Pactual.
O endividamento consolidado do grupo saltou de aproximadamente R$ 413 milhões em janeiro de 2025 para R$ 975 milhões em junho de 2026. Somente no primeiro semestre deste ano, a Apex contraiu R$ 300 milhões em novas dívidas, das quais 58% não geraram ativos correspondentes, segundo dados apurados pela imprensa capixaba.
O processo tem origem em agosto, quando a Apex obteve uma medida protetiva com prazo de 60 dias para suspender execuções, protestos e bloqueios bancários enquanto organizava a documentação exigida pela Justiça. Em 14 de setembro, dentro do prazo estipulado, o grupo apresentou o pedido formal de recuperação judicial, informando dívida bruta de R$ 985,6 milhões.
A composição do passivo, segundo os documentos apresentados, inclui R$ 452,1 milhões em debêntures emitidas por meio da securitizadora Rhino, garantidas por ações da própria Apex Partners e da BRM Apex Investimentos; R$ 309,8 milhões relativos às obrigações de cashback com cotistas; e um passivo tributário próximo de R$ 92 milhões. O pedido abrange 178 empresas do grupo, sinal da complexidade societária construída ao longo dos últimos anos.
A crise se acelerou em agosto, quando a Apex deixou de honrar uma parcela de R$ 7,9 milhões devida ao grupo Gazin, episódio que antecipou o movimento de blindagem judicial. Na sequência, o fundador e então presidente Fernando Antonio Kulnig Cinelli e o diretor financeiro Eduardo Siqueira deixaram seus cargos, com o sócio sênior Marcelo Murad assumindo a presidência interina.
Para o economista Roberto Luis Troster, a saída dos executivos e a velocidade da deterioração financeira indicam falha de governança interna. Aparentemente o freio da Apex falhou, resumiu Troster ao avaliar o caso.
Já a advogada Maria Lucia Perez Ferres Zakia, em artigo publicado no Migalhas, aponta um problema estrutural na oferta de produtos que prometiam simultaneamente 100% do CDI ou a valorização integral das cotas. Na física e na finança, não existe risco zero em renda variável; alguém, em algum momento, teria que pagar a conta dessa proteção sintética, escreveu. A autora também questiona a natureza do mecanismo de cashback oferecido pela gestora: cashback pode ser benefício, mas o que ele não pode ser é um nome diferente para uma promessa de rentabilidade. Segundo ela, cobrir obrigações antigas com recursos captados de novos investidores reproduz dinâmica semelhante à de esquemas em cascata, além de configurar possível violação da Resolução CVM 175, que veda a gestores garantir rentabilidade a cotistas de fundos de investimento.
O caso ganhou um novo capítulo de risco na própria tramitação judicial. A administradora judicial Laspro identificou que 123 das 178 empresas incluídas no pedido carecem de documentos e informações essenciais, entre eles inventários de ativos e passivos, registro de transações entre empresas do grupo nos últimos 24 meses e definição jurídica das obrigações de cashback. Quatro SPEs adicionais, Aleixo Empreendimento Imobiliário, Facilita Camburi, Facilita Bento Ferreira e Spazio Moreira Lima, também estão sob análise, apesar de não constarem formalmente entre as requerentes da proteção judicial.
A Comissão de Valores Mobiliários formou grupo de trabalho para analisar informações relacionadas ao caso Apex em conjunto com os episódios dos grupos Master e Reag, movimento que sinaliza atenção regulatória mais ampla sobre gestoras e estruturas de captação no mercado de crédito privado.
Para investidores em cotas e debêntures ligadas à Apex, o calendário mais imediato prevê cerca de R$ 78,2 milhões em pedidos de resgate programados até 30 de setembro, dentro do período de proteção judicial. Enquanto isso, a pendência documental apontada pela Laspro pode travar o avanço formal do processo, já que a medida protetiva concedida em agosto condiciona a continuidade da recuperação judicial à entrega da documentação solicitada.
Para o mercado de crédito privado e securitização, o caso reforça um alerta que vem se repetindo em 2026: produtos que combinam promessa de retorno garantido com estruturas de resgate antecipado tendem a acumular descasamento de caixa até se tornarem insustentáveis. A atuação da Rhino Securitizadora como emissora das debêntures que agora compõem o passivo da Apex também deve atrair atenção de gestores de fundos estruturados, como os FIDCs (Fundos de Investimento em Direitos Creditórios), que avaliam contrapartes e originadores no segmento de gestão de patrimônio. O episódio reforça a importância de due diligence sobre a real natureza econômica de produtos com cashback ou promessa de proteção de capital.
Fontes: Folha Vitória
FIDC NEWS
O .fidcnews é um veículo digital focado em notícias e análises sobre Fundos de Investimento em Direitos Creditórios (FIDCs), com o propósito de tornar acessíveis os dados e tendências do mercado de crédito estruturado.
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