Inter conclui primeiro teste de duplicata escritural do mercado
Enquanto o país discute quem vai lucrar com a duplicata escritural, o Inter já rodou o primeiro teste real do título digital.

O Banco Inter emitiu e registrou eletronicamente sua primeira duplicata escritural, título digital regulado pelo Banco Central que deve substituir gradualmente o papel nas operações de recebíveis. O teste, feito em produção assistida com a Núclea como registradora, marca a entrada do banco em uma corrida que deve redesenhar o financiamento a empresas até 2027.
A duplicata é um dos instrumentos mais tradicionais do crédito corporativo brasileiro. Historicamente emitida em papel ou em versões digitais pouco padronizadas entre instituições, ela representa o valor de uma venda a prazo e serve de garantia para o fornecedor antecipar recursos junto a bancos, fintechs ou fundos de recebíveis (FIDCs).
A duplicata escritural é a versão totalmente eletrônica desse título: emitida, escriturada e registrada em ambiente digital, sob regulação do Banco Central. A proposta é dar mais rastreabilidade e padronização ao mercado, reduzindo fraudes e duplicidade de registro, dois problemas recorrentes na cessão de crédito ligada a duplicatas físicas. O tema tem ganhado peso no radar do setor de crédito privado justamente por afetar diretamente a origem dos ativos que abastecem fundos e securitizadoras.
Segundo apurado pelo Valor e confirmado em comunicado do próprio banco, o Inter concluiu no dia 16 de setembro sua primeira prova de conceito com duplicata escritural. A operação escolhida foi de risco sacado, arranjo em que o recebível de uma venda parcelada serve de lastro para antecipar dinheiro ao fornecedor. O teste envolveu um cliente do banco e teve a Núclea como registradora do título.
Para viabilizar o piloto, o Inter mobilizou times de tecnologia, crédito, operações, experiência do cliente e a frente comercial. A operação rodou dentro da chamada produção assistida, fase em que as instituições calibram processos e fluxos antes de ampliar volume, com as regras do Banco Central já em vigor. É uma espécie de ensaio geral antes da adesão obrigatória.
Alexandre Riccio, CEO do Inter no Brasil, resumiu o movimento: "Estamos nos antecipando a uma transformação importante do mercado de crédito e, por isso, estruturamos nossa operação para estar entre as primeiras instituições a colocar essa nova infraestrutura em prática."
O interesse dos bancos na duplicata escritural não é apenas regulatório. O setor cita com frequência a cifra de cerca de R$ 10 trilhões por ano em duplicatas emitidas no Brasil, valor tratado como referência do potencial do mercado e não como medição oficial de nenhuma instituição específica. É esse volume que explica a corrida das instituições para se posicionar cedo na nova infraestrutura.
Para o mercado de FIDCs e securitizadoras, a padronização digital dos recebíveis tende a facilitar a análise de risco e reduzir a assimetria de informação na hora de estruturar operações de cessão. Um título rastreável desde a emissão, com registro único, diminui o risco de duplicidade de garantia, um dos pontos de atenção clássicos em due diligence de carteiras de recebíveis.
A produção assistida deve durar cerca de um ano. Pelo calendário atual do Banco Central, a adesão obrigatória à duplicata escritural começa em julho de 2027 para as grandes empresas, com adesão gradual dos demais portes em fases seguintes, ainda sem datas fechadas. O próprio Inter faz a ressalva de que o regulador pode alterar esse cronograma.
Os pontos a monitorar daqui para frente são claros. Vale acompanhar quantas instituições concluem a produção assistida com processos maduros, se a promessa de mais concorrência entre financiadores realmente se traduz em custo menor de antecipação para as empresas, e como o Banco Central vai equacionar a adesão dos portes menores, cuja capacidade de integração tecnológica costuma ser o gargalo desse tipo de mudança de infraestrutura.
FIDC NEWS
O .fidcnews é um veículo digital focado em notícias e análises sobre Fundos de Investimento em Direitos Creditórios (FIDCs), com o propósito de tornar acessíveis os dados e tendências do mercado de crédito estruturado.
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