90 gestoras perdem metade do patrimônio sob gestão em cinco anos
Fluxo de recursos migra para crédito privado e títulos isentos, redesenhando o mapa da gestão de ativos no Brasil.

Um levantamento da Associação Brasileira das Entidades dos Mercados Financeiro e de Capitais (Anbima) mostra que pelo menos 90 gestoras de fundos de investimento reduziram seu patrimônio sob gestão em 50% ou mais nos últimos cinco anos. O número representa 8,37% do total de 1.075 gestoras ativas no País em junho e escancara os efeitos de um ciclo de juros elevados combinado à ascensão dos títulos isentos de Imposto de Renda (IR) e dos fundos de índice (ETFs).
A indústria brasileira de fundos convive, há cinco anos, com uma combinação pouco favorável de fatores. De um lado, os juros permaneceram elevados por período prolongado, o que tornou a renda fixa tradicional mais atrativa e reduziu o apetite por produtos de maior risco, como os fundos multimercados e de ações. De outro, cresceu a concorrência de títulos isentos de IR para pessoas físicas, que passaram a drenar recursos que antes chegariam à indústria de fundos.
Some desse cenário o avanço dos ETFs, fundos de índice que oferecem exposição diversificada a custo mais baixo, e a robotização crescente dos processos de investimento, que alterou o comportamento dos fluxos de capital no mercado brasileiro. O resultado é uma reconfiguração de peso: das cerca de mil gestoras que operam no País, quase uma em cada dez viu seu patrimônio sob gestão de fundos encolher pela metade ou mais desde julho de 2021.
Entre as 25 maiores gestoras do ranking Anbima, os casos mais expressivos aparecem justamente entre as casas de multimercados e ações. A Verde Asset, de Luís Stuhlberger, viu seu patrimônio cair de R$ 59,3 bilhões em julho de 2021 para R$ 12,7 bilhões em julho de 2026, uma retração de 78,6%. A Truxt saiu de R$ 21,2 bilhões para R$ 2,6 bilhões no período, queda de 87,9%. Já a AdamCapital, de Márcio Appel, passou de R$ 17,4 bilhões para R$ 2,9 bilhões, recuo de 83,5%.
Gestoras do Leblon, no Rio de Janeiro, tradicionalmente associadas a fundos multimercados, também aparecem na lista. A Bahia Asset reduziu seu patrimônio de R$ 15,8 bilhões para R$ 5,1 bilhões (queda de 67,8%), enquanto a Leblon Equities passou de R$ 3,6 bilhões para R$ 700 milhões (queda de 78,6%). A Gávea, do ex-presidente do Banco Central Arminio Fraga, que recentemente vendeu sua gestão de fundos para a Bradesco Asset, viu o patrimônio cair de R$ 14,7 bilhões para R$ 4,9 bilhões, retração de 67%.
No segmento de ações, que soma 61 meses consecutivos de resgates líquidos, o quadro se repete. A IP Gestão de Recursos caiu de R$ 5,1 bilhões para R$ 2,4 bilhões (queda de 53,1%), a Constellation, do gestor Florian Bartunek, foi de R$ 8,3 bilhões para R$ 1,3 bilhão (recuo de 84,8%), a Dahlia passou de R$ 12,2 bilhões para R$ 2,8 bilhões (queda de 77%) e a Absoluto saiu de R$ 14,4 bilhões para R$ 3,8 bilhões (perda de 73,3%).
Nem toda queda de patrimônio, porém, significa crise. Parte das gestoras pode ter optado por enxugar custos mantendo a qualidade da operação, migrado o foco para carteiras administradas (que não entram no ranking Anbima) ou fortalecido operações no exterior. É o caso da Truxt, que afirma ter ampliado sua fatia offshore desde 2021 e recebido aporte de R$ 600 milhões em dois fundos de ações mais protegidos apenas em julho e agosto, meses fora do recorte do ranking, com rentabilidade entre 17% e 20% no ano. A Navi, por sua vez, vendeu seu núcleo de fundos imobiliários (FIIs) para a Vinci Compass.
Para gestores e analistas do mercado financeiro, a retração observada nos multimercados e fundos de ações tem origem na queda dos juros a 2% ao ano durante a pandemia, quando o apetite por risco impulsionou o surgimento de diversas gestoras especializadas. Com a alta subsequente da Selic, o fluxo se inverteu: o investidor migrou para a renda fixa, movimento que se traduziu em forte crescimento da indústria de fundos de crédito privado, entre os quais estão os FIDCs (Fundos de Investimento em Direitos Creditórios).
Na avaliação de analistas do setor, esse deslocamento de capital não é apenas uma fuga de risco, mas uma realocação estrutural que fortalece a base de investidores institucionais e qualificados em produtos de crédito, justamente o segmento em que os FIDCs vêm ganhando espaço como alternativa de rentabilidade e diversificação frente à renda fixa tradicional.
A Resolução 175, que modernizou e flexibilizou a indústria de fundos no Brasil, sofisticou o mercado, mas também elevou o custo de gestão para os investidores, fator que tende a acelerar a consolidação entre gestoras menores ou menos eficientes. Para o mercado de FIDCs e crédito privado, o cenário reforça uma tendência já observada: enquanto multimercados e fundos de ações enfrentam resgates recorrentes, o apetite por estruturas de crédito segue como um dos poucos vetores de crescimento líquido da indústria. Resta acompanhar se a manutenção de juros elevados e a permanência dos títulos isentos continuarão pressionando as gestoras tradicionais, e se essa migração de capital vai se consolidar como uma mudança permanente no perfil de alocação do investidor brasileiro.
FIDC NEWS
O .fidcnews é um veículo digital focado em notícias e análises sobre Fundos de Investimento em Direitos Creditórios (FIDCs), com o propósito de tornar acessíveis os dados e tendências do mercado de crédito estruturado.
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