Ex-presidente da CVM propõe repositório de FIDCs após alta de fundos inadimplentes
Levantamento da Anbima mostra que 46 fundos deixaram de prestar contas em julho, no mesmo mês em que um ex-presidente da CVM defende, publicamente, um repositório único de dados para o setor.

O mercado de crédito privado brasileiro vive um paradoxo. Nunca captou tanto dinheiro nem teve tanta relevância na economia real, mas também nunca acumulou tantos sinais de que a fiscalização não acompanha o ritmo do crescimento. Foi nesse cenário que o advogado João Pedro Nascimento, ex-presidente da Comissão de Valores Mobiliários (CVM), defendeu na abertura do I Congresso Brasileiro de Crédito Privado, em São Paulo, a criação de um repositório público de dados sobre Fundos de Investimento em Direitos Creditórios (FIDCs) e a identificação obrigatória do beneficiário final por trás das estruturas de investimento.
O FIDC é o veículo que compra direitos creditórios (duplicatas, recebíveis de cartão, contratos de financiamento) de empresas ou instituições financeiras, os chamados originadores, e os transforma em cotas negociadas por investidores institucionais e qualificados. Ele virou a espinha dorsal da securitização de crédito no país e, segundo dados apresentados no congresso, o Brasil já responde por cerca de 75% a 80% do mercado de capitais latino-americano.
O ponto de inflexão veio entre 2024 e 2025: pela primeira vez, o mercado de capitais superou o sistema bancário tradicional como principal fonte de financiamento de crédito no país. Fundos estruturados (FIDCs, fundos de investimento em participações e fundos imobiliários somados) já concentram R$ 2,17 trilhões em patrimônio, e só os FIDCs somavam R$ 802,7 bilhões em ativos em 20 de agosto, com captação de R$ 61,7 bilhões no acumulado do ano.
O problema é que esse crescimento não veio acompanhado, na mesma proporção, de investimento em controles e transparência. Em março, 122 fundos apresentaram atraso no envio de informes mensais obrigatórios à CVM, afetando R$ 66,35 bilhões em ativos, e 54 fundos registraram lacunas em seus históricos de dados. Em julho, o quadro piorou: 46 FIDCs, administrados por 12 instituições, deixaram de entregar as informações do mês à Anbima, o maior número do ano e um salto expressivo frente aos oito casos de janeiro.
Foi contra esse pano de fundo que Nascimento defendeu suas duas propostas centrais. A primeira é a identificação do beneficiário final, ou seja, a pessoa física que está de fato por trás de uma estrutura de investimento, ainda que ela seja formalmente detida por outras pessoas jurídicas ou veículos intermediários. Para o ex-presidente da CVM, essa exigência deveria alcançar não apenas os fundos, mas toda a infraestrutura de crédito. "Quando isso é feito de forma adequada, você traz previsibilidade para o setor como um todo", afirmou.
A segunda proposta é a criação de um banco de dados público com a composição das carteiras dos FIDCs, permitindo acompanhar, em tempo mais próximo do real, alterações e remarcações de ativos, especialmente em momentos de estresse financeiro. "Isso nos colocaria agora em um outro nível", disse Nascimento, ao tratar do salto de maturidade que a medida representaria para o mercado.
Ele também relacionou as duas propostas a um objetivo mais amplo de prevenção. "São esses os pontos de atenção que deveriam ser atendidos para evitar surpresas, desvios de conduta e ilícitos de mercado", declarou, em referência direta ao tipo de episódio que abalou a confiança de investidores no sistema financeiro nos últimos meses, caso da liquidação extrajudicial do Banco Master pelo Banco Central, decretada em novembro de 2025 após sinais de fragilidade e inconsistências contábeis, hoje sob apuração da Polícia Federal.
Os números divulgados pela Anbima e por gestoras do setor nas últimas semanas reforçam o argumento de Nascimento. Alfredo Marrucho, sócio da Uqbar, avaliou publicamente que o aumento de fundos sem prestação de contas em dia "representa um retrocesso na transparência do mercado", já que a ausência de dados dificulta tanto a supervisão quanto a avaliação de risco pelo investidor. A própria Anbima ampliou o escopo de fiscalização e já questionou 120 classes de cotas em um universo de mais de 4 mil, olhando não só para atrasos, mas para a qualidade e a consistência das informações enviadas, incluindo provisões para devedores duvidosos (PDD) e critérios de marcação a mercado.
O quadro de inadimplência ajuda a entender por que o tema ganhou urgência. Em março, o indicador de atraso normalizado (créditos vencidos sobre o total da carteira) do setor chegou a 11,30%, com o estoque de créditos em atraso crescendo 32,2% em doze meses, ritmo bem acima da expansão do patrimônio dos fundos. Ao menos oito FIDCs registraram retorno de 100% negativo no período, ou seja, perda total do valor investido pelas cotas mais expostas ao risco.
Para analistas do setor, a combinação de captação recorde com infraestrutura de controle defasada é o tipo de descompasso que normalmente precede episódios de crise de confiança. Um repositório centralizado, nesse sentido, funcionaria como um contrapeso: obrigaria a padronização de dados que hoje chegam de forma fragmentada, quando chegam, e reduziria o espaço para remarcações tardias de ativos problemáticos.
Nascimento também tocou em temas que devem influenciar a régua regulatória dos FIDCs nos próximos meses. Ele alertou para o risco de distorção causado pelos produtos incentivados, isto é, títulos que oferecem isenção fiscal ao investidor pessoa física. "Em relação à granularidade dos produtos, a gente tem uma influência muito grande dos produtos incentivados, que geram, em alguma medida, uma distorção na escolha do investidor", disse, sugerindo que o benefício fiscal pode pesar mais na decisão de alocação do que a análise de risco de crédito propriamente dita.
O ex-presidente da CVM também citou o Regime Fácil, mecanismo em vigor desde março para simplificar o acesso ao mercado de capitais por empresas com receita anual inferior a R$ 500 milhões, e a possibilidade de o BNDES atuar de forma integrada com instituições privadas no financiamento de pequenas e médias empresas, movimento que tende a aumentar ainda mais o volume de operações securitizadas via FIDC.
Nenhuma das duas propostas de Nascimento, beneficiário final identificado e repositório público de carteiras, tem até o momento um cronograma formal de regulamentação pela CVM. Mas o diagnóstico já é compartilhado por parte do mercado, e o histórico recente de atrasos, lacunas de dados e fundos com perda total de patrimônio deve manter o tema no radar da autarquia e da Anbima nos próximos meses. Para gestores e investidores institucionais, a recomendação prática é a mesma de sempre em ciclos de maior escrutínio regulatório: antecipar os padrões de transparência que tendem a se tornar obrigatórios, em vez de esperar por eles.
Fontes: Crédito Privado 360
FIDC NEWS
O .fidcnews é um veículo digital focado em notícias e análises sobre Fundos de Investimento em Direitos Creditórios (FIDCs), com o propósito de tornar acessíveis os dados e tendências do mercado de crédito estruturado.
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