Franklin Templeton zera infraestrutura, evita crédito agro e amplia aposta em FIDCs
Maior prêmio pelo risco e juros altos levam a Franklin Templeton a reforçar os FIDCs e sair de infraestrutura e agro.

Com R$ 49 bilhões sob gestão, a Franklin Templeton vendeu cerca de R$ 200 milhões em papéis de infraestrutura, está fora do crédito rural desde 2023 e elevou de 8% para perto de 13% a fatia média dos FIDCs (Fundos de Investimento em Direitos Creditórios) em suas carteiras de crédito privado. A troca mostra o que mudou na forma de uma grande gestora medir risco num ambiente de juros reais altos e incerteza fiscal.
O mercado de crédito privado brasileiro passa por um momento de reprecificação. Os investidores estão cobrando mais pelo risco, os juros seguem altos e os títulos públicos pagam bem com risco quase nulo. Por isso, cada papel corporativo na carteira precisa justificar o spread (prêmio pago acima de um título de referência) que oferece.
É nesse contexto que a Franklin Templeton, com mais de 200 fundos e carteiras de estratégias diferentes, adotou uma postura mais conservadora. A gestora cortou com força sua exposição a crédito corporativo tradicional. Em um dos produtos, a participação média de empresas caiu de cerca de 80% para menos de 50%.
A lógica, segundo o gestor Adriano Casarotto, é de disciplina com o preço. Quando os spreads ficam comprimidos demais, é hora de sair. "Foi o que a gente fez", afirmou ao Estadão/E-Investidor.
No quarto trimestre de 2025 e no primeiro trimestre de 2026, a gestora vendeu a maior parte dos ativos de infraestrutura nos produtos em que tinha liberdade para reduzir essa exposição. Foram cerca de R$ 200 milhões. Nos fundos para o público geral que permitiam alocação estratégica na classe, a posição foi zerada. A gestora só mantém esses ativos onde o regulamento obriga, como em fundos exclusivos de inflação ou de infraestrutura. Mesmo com a recuperação posterior dos spreads, a casa ainda não voltou para o segmento.
O motivo está no prazo. Os papéis de infraestrutura costumam ser vistos como defensivos dentro do crédito privado, mas têm vencimentos longos. Quando os juros reais sobem, esses ativos podem perder valor mesmo que o risco de crédito do emissor continue o mesmo. Segundo Casarotto, foi o que aconteceu neste ano, com alta da taxa real e abertura de spreads ao mesmo tempo.
No agronegócio, a decisão é mais antiga. Em 2023, a gestora identificou o que considerou uma euforia no lançamento de produtos ligados ao setor e decidiu não entrar. Hoje, a Franklin Templeton investe em empresas com negócios ligados ao agro, mas não em crédito rural, e não tem nenhum CRA (Certificado de Recebíveis do Agronegócio) nas carteiras.
Para a gestora, o crédito agro exige outro tipo de análise. Uma indústria tem produção e geração de caixa que podem ser acompanhadas com frequência. No campo, o resultado depende de clima, produtividade e preço das commodities. A isso se soma a insegurança jurídica: ainda há discussões sobre a validade e o alcance de algumas garantias usadas nas operações, e as decisões de primeira instância variam muito. Enquanto os grandes centros têm juízes e advogados especializados em recuperação judicial e mercado de capitais, casos com produtores rurais podem parar em comarcas do interior com pouca experiência nesse tipo de processo. Na visão da casa, isso aumenta o risco para o investidor.
Com os FIDCs, o argumento é o contrário: a estrutura protege o investidor. O gestor cita o caso da Light (LIGT3), que entrou em recuperação judicial, mas continuou pagando os FIDCs. Para ele, o episódio mostra a diferença entre algumas estruturas securitizadas e o crédito corporativo comum. Num FIDC, o investidor não depende só do balanço de uma empresa. Ele olha para a carteira de recebíveis, as garantias, a ordem de pagamentos e os participantes da operação, como originador, custodiante e administrador.
Entre os segmentos preferidos estão o crédito consignado e o de veículos. No consignado, a gestora prefere operações com órgãos públicos e com o INSS (Instituto Nacional do Seguro Social). Os spreads são menores, mas a proteção é mais robusta, já que o desconto em folha reduz o risco de inadimplência.
O avanço sobre os FIDCs tem limite. Segundo Casarotto, a alocação na classe nunca deveria passar de 20% de um fundo, por causa da menor liquidez no mercado secundário. É um ponto importante para gestores que montam fundos abertos com resgate frequente: a proteção de estrutura do FIDC não resolve o problema de vender a cota rapidamente.
Para os próximos meses, a Franklin Templeton vê espaço para queda dos juros futuros em 2027, mas acredita que isso depende de um ajuste fiscal. Até que o cenário fique mais claro, a gestora deve manter a cautela, também de olho numa possível desaceleração da economia em 2027.
Para o mercado de FIDC, o recado é claro. Grandes gestoras estão tirando dinheiro de classes que ficaram caras ou juridicamente incertas e levando para estruturas com lastro bem definido e garantias testadas na prática. A tendência favorece os FIDCs com originação de qualidade, subordinação adequada e histórico de desempenho, e deve tornar a análise de estrutura ainda mais exigente.
FIDC NEWS
O .fidcnews é um veículo digital focado em notícias e análises sobre Fundos de Investimento em Direitos Creditórios (FIDCs), com o propósito de tornar acessíveis os dados e tendências do mercado de crédito estruturado.
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