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Mercado de capitais recua 16% em agosto, mas FIDCs saltam 146% no ano
Enquanto o volume total de captações perde força, fundos ligados a recebíveis avançam e redesenham o mapa do financiamento corporativo brasileiro.

Em agosto de 2026, as empresas brasileiras captaram R$ 48,8 bilhões em ofertas públicas no mercado de capitais, volume 16% menor que o registrado em agosto de 2025 (R$ 58 bilhões), segundo dados da Anbima (Associação Brasileira das Entidades dos Mercados Financeiro e de Capitais). Apesar da retração mensal, o acumulado do ano segue positivo, e o dado que mais chama a atenção do investidor institucional está em outro lugar: os FIDCs (Fundos de Investimento em Direitos Creditórios) cresceram 146,3% em doze meses e se firmaram como o segundo instrumento mais relevante do mês.
Um ano de contrastes no mercado de capitaisO recuo de agosto não apaga o desempenho robusto do ano. No acumulado de janeiro a agosto de 2026, o mercado de capitais brasileiro somou R$ 485 bilhões em ofertas, alta de 7,1% em relação ao mesmo período de 2025. O primeiro semestre, isoladamente, já havia fechado com R$ 361,8 bilhões, o melhor resultado para um primeiro semestre desde que a Anbima começou a acompanhar a série histórica, em 2012, com aumento de 9,8% na comparação anual e 1.513 operações (13% a mais que no ano anterior).
A renda fixa segue como a espinha dorsal dessas captações, com R$ 288,8 bilhões no semestre. Mas o mercado de ações também voltou a respirar: as ofertas subsequentes (follow-ons) somaram R$ 22,2 bilhões, e o primeiro IPO depois de um longo período de seca já fez o volume total de ações superar em 62,5% todo o registrado em 2025.
O que mudou: recebíveis ganham protagonismoAs debêntures continuam sendo o principal instrumento de captação, com R$ 21,5 bilhões em agosto e 44,1% de participação no total do mês. Ainda assim, o volume caiu 35,2% na comparação com julho, quando somou R$ 33,2 bilhões.
É nos instrumentos ligados a recebíveis que está o destaque do mês. Os FIDCs captaram R$ 14,5 bilhões em agosto, alta de 116% frente aos R$ 6,7 bilhões de julho e de 146,3% frente aos R$ 5,9 bilhões de agosto de 2025. No acumulado do ano, o volume em FIDCs já ultrapassa R$ 74 bilhões, superando o próprio recorde semestral de R$ 53,1 bilhões distribuídos em 559 operações.
Outros instrumentos de recebíveis também avançaram: os CRIs (Certificados de Recebíveis Imobiliários) somaram R$ 2,4 bilhões, alta de 32,5% sobre julho, e os CRAs (Certificados de Recebíveis do Agronegócio) chegaram a R$ 2,2 bilhões, quase três vezes os R$ 776,8 milhões do mês anterior. Entre os instrumentos híbridos, os FIIs (Fundos de Investimento Imobiliário) recuaram para R$ 5,1 bilhões, ante R$ 11,7 bilhões em julho, enquanto os Fiagros (fundos voltados às cadeias produtivas do agronegócio) somaram R$ 1,4 bilhão, volume 26 vezes maior que o de agosto de 2025.
Análise: seletividade bancária impulsiona alternativas de créditoGuilherme Maranhão, presidente do Fórum de Estruturação de Mercado de Capitais da Anbima, resumiu a mudança de composição observada no mês. "O mês mostrou uma mudança na composição das captações, com instrumentos vinculados a recebíveis ganhando participação", avaliou. Para ele, o crescimento dos FIDCs reflete a "utilização desses instrumentos como alternativa de financiamento em um ambiente de maior seletividade no crédito".
O movimento não é recente nem isolado. Segundo estimativa da agência de classificação de risco Fitch Ratings, há uma década, para cada R$ 1 emprestado pelos bancos, cerca de R$ 0,20 eram captados no mercado de capitais. Hoje, essa proporção já se aproxima de R$ 1 emprestado pelos bancos para cada R$ 0,50 vindos do mercado de capitais, segundo a analista Carolina Yaginuma. Bancos mais seletivos na concessão de crédito e empresas mais endividadas, sobretudo no varejo, têm buscado nos FIDCs uma rota alternativa de financiamento, num processo que já elevou o patrimônio líquido desses fundos de R$ 639,79 bilhões em maio de 2025 para R$ 791,42 bilhões em julho de 2026.
Esse mesmo crescimento acelerado, porém, já chamou a atenção de analistas para o outro lado do risco. Reportagens recentes têm alertado gestores e cotistas para a necessidade de reforçar a due diligence sobre a qualidade dos recebíveis e a saúde financeira dos cedentes, especialmente em fundos ligados a varejistas em situação de maior alavancagem, como demonstra o caso de uma rede de varejo em recuperação judicial com cerca de R$ 3,95 bilhões distribuídos em 12 fundos distintos.
Perspectivas: o que monitorar até o fim do anoPara o gestor de FIDC, o cenário traz dois sinais que precisam ser lidos em conjunto. De um lado, a expansão continuada da classe como alternativa de crédito reforça a tese estrutural de crescimento do setor, com o mercado de recebíveis ganhando espaço tanto no atacado quanto no varejo. De outro, o ritmo de expansão exige atenção redobrada a critérios de elegibilidade de carteira, concentração por cedente e níveis de inadimplência, sobretudo em operações vinculadas a setores mais pressionados por dívida.
Nos próximos meses, o mercado deve observar de perto a trajetória da Selic, o apetite de investidores institucionais e de varejo por cotas subordinada e sênior, e eventuais sinalizações da CVM (Comissão de Valores Mobiliários) sobre regras de estruturação e transparência para FIDCs, à medida que o produto ganha relevância crescente na captação corporativa brasileira.
Fontes: InfoMoney
FIDC NEWS
O .fidcnews é um veículo digital focado em notícias e análises sobre Fundos de Investimento em Direitos Creditórios (FIDCs), com o propósito de tornar acessíveis os dados e tendências do mercado de crédito estruturado.
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