Gastos do governo somam R$ 284 bilhões em ano eleitoral e acendem alerta no mercado
Ano eleitoral turbina despesas públicas e reacende debate sobre uso da máquina para reeleição.

Levantamento do Gastômetro, do Estadão, mostra que o governo federal já mobilizou R$ 278,3 bilhões em gastos, benefícios, subsídios e renúncias fiscais até 17 de agosto de 2026. Com o reajuste de 15% do Bolsa Família anunciado em 17 de setembro, a 17 dias do primeiro turno, o total de medidas do ano eleitoral chega a R$ 284,1 bilhões, valor que reacende a discussão sobre os limites entre política pública e campanha eleitoral, e sobre o espaço fiscal que resta para o próximo governo, seja qual for o resultado das urnas.
O FIDC (Fundo de Investimento em Direitos Creditórios) opera num ambiente sensível ao humor fiscal do país, já que o apetite por crédito privado, o custo de captação e o prêmio de risco cobrado pelo mercado reagem a sinais de deterioração das contas públicas. É nesse cenário que o Gastômetro do Estadão ganha relevância para o investidor institucional: o indicador soma gastos, benefícios, subsídios e renúncias fiscais lançados ou ampliados em 2026, ano em que Lula concorre à reeleição contra nomes ainda em definição no campo de oposição.
Até 17 de agosto, o Gastômetro contabilizava R$ 278,3 bilhões. Ao valor soma se o reajuste de 15% do Bolsa Família, que eleva o piso do benefício e deve custar R$ 5,8 bilhões adicionais em 2026 e cerca de R$ 22 bilhões em 2027, com os primeiros pagamentos reajustados chegando poucos dias antes de um eventual segundo turno.
Entre as medidas que críticos da gestão apontam como merecedoras de apuração está o Move Brasil, programa que disponibiliza R$ 30 bilhões em crédito subsidiado para veículos, dos quais R$ 5,1 bilhões já haviam sido desembolsados, e que o Congresso tornou permanente em setembro. Some se a isso a cerimônia no Palácio do Planalto em que Lula anunciou a redução da fila do INSS, de cerca de 3 milhões para 1,25 milhão de pedidos, e a viagem presidencial à sonda da Petrobras na Foz do Amazonas, na qual o presidente celebrou a descoberta do poço Morpho e associou o achado a soberania e investimento em educação. Os custos de logística, segurança e produção desses eventos não foram detalhados pelo governo.
No campo de combustíveis, o governo prorrogou medidas de contenção de preço e desonerações a gasolina, etanol e diesel, com valores acumulados citados por autoridades em torno de R$ 6,6 bilhões apenas na rodada mais recente de subvenção, dentro de um total estimado de R$ 37,5 bilhões em subsídios e renúncias ao longo de 2026 segundo o levantamento original. Somados ao reajuste do Bolsa Família, esses números, de naturezas distintas e em parte já contabilizados no próprio Gastômetro, formam o pano de fundo dos R$ 284,1 bilhões citados por opositores do governo.
Para críticos da gestão, a combinação de anúncios de programas sociais, crédito subsidiado e eventos institucionais a poucos dias da votação configura uso da estrutura pública em benefício da candidatura à reeleição, e o caso deve ser levado ao Ministério Público Eleitoral para apuração de eventuais condutas vedadas, promoção pessoal e abuso de poder político e econômico. É importante frisar que essas são acusações, não decisões judiciais ou eleitorais transitadas em julgado.
O governo rebateu publicamente a apuração do Estadão, classificando o Gastômetro como uma matéria enviesada e distorcida, e argumenta que os programas citados, caso do Bolsa Família e da redução da fila do INSS, são políticas de direito garantidas por lei e não criações do ano eleitoral. Para analistas de mercado consultados informalmente sobre o tema, o ponto mais sensível para o investidor de crédito privado não é a disputa política em si, mas o efeito fiscal cumulativo: expansão de gasto em ano eleitoral tende a pressionar a taxa de juros neutra e o prêmio de risco soberano, o que se transmite ao custo de captação dos FIDCs e à precificação de cotas seniores no mercado secundário.
Com o primeiro turno previsto para os próximos dias, o mercado de crédito deve acompanhar de perto três frentes: o desfecho de eventual representação no Ministério Público Eleitoral, o ritmo de desembolso do Move Brasil e seu efeito sobre o crédito privado para veículos, hoje parcialmente securitizado via FIDCs, e o espaço fiscal remanescente para o orçamento de 2027, ano em que o custo do reajuste do Bolsa Família soma R$ 22 bilhões. Gestores e estruturadores devem monitorar também eventuais sinalizações do TSE sobre o uso de programas sociais em período eleitoral, tema que tende a ganhar força nas próximas semanas independentemente do resultado da eleição.
FIDC NEWS
O .fidcnews é um veículo digital focado em notícias e análises sobre Fundos de Investimento em Direitos Creditórios (FIDCs), com o propósito de tornar acessíveis os dados e tendências do mercado de crédito estruturado.
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