O grupo KWA apresentou três versões da própria contabilidade em poucos dias. O Safra emprestou. Itaú e Santander contestaram. A Justiça ainda investiga. O caso, quase restrito ao mundo jurídico, levanta uma questão que vale para qualquer um que empresta, investe ou entra de sócio em um negócio.
O contexto: quando o balanço vira argumento de venda
No mercado de crédito, o balanço patrimonial é o passaporte do tomador. É a peça que diz, em números, se a empresa pode pagar o que pede emprestado. Credores de todos os tamanhos, de bancos de primeira linha a fundos de investimento em direitos creditórios (FIDCs), baseiam suas decisões de crédito nesse documento.
O que o caso KWA, em curso num tribunal de Alagoas, coloca em evidência é algo que analistas experientes já sabem mas raramente verbalizam: dentro do que a lei permite, um balanço pode ser construído para contar histórias diferentes, dependendo de quem está sentado do outro lado da mesa.
A assimetria de informação entre quem vende e quem compra, ou entre quem toma crédito e quem empresta, foi objeto de estudo de George Akerlof, que ganhou o Prêmio Nobel de Economia em 2001 por demonstrar, entre outros exemplos, como o vendedor de um carro usado sabe muito mais sobre o veículo do que o comprador. O caso KWA é um capítulo brasileiro desse mesmo fenômeno, com R$ 150 milhões de diferença entre dois retratos da mesma empresa, na mesma semana.
O fato central: três contabilidades, uma empresa, sete dias
O grupo KWA atua no segmento de reciclagem de metal: compra sucata, derrete e reaprovecha o material. Um negócio de galpão e caminhão, como descreveu Rodrigo Valverde, advogado e analista de negócios que trouxe o caso a público em suas redes sociais.
Em junho, o grupo procurou o Banco Safra para obter um empréstimo e apresentou seus números: somando ativos e descontando passivos, o patrimônio líquido da empresa era de R$ 125 milhões. Uma empresa sólida, sem sinal de risco relevante. O Safra analisou a documentação e liberou o crédito.
Sete dias depois, o mesmo grupo KWA ingressou na Justiça com um pedido de recuperação judicial. Para quem não é familiarizado com o termo: recuperação judicial é o mecanismo pelo qual uma empresa endividada solicita ao juiz um período de proteção para renegociar suas dívidas sem ser forçada ao encerramento imediato das atividades. Para conseguir esse benefício, é preciso demonstrar ao juízo que a empresa está em dificuldade financeira real.
Os números apresentados ao juiz contradiziam completamente os que tinham ido ao banco. Em vez de R$ 125 milhões positivos, a empresa agora mostrava R$ 25 milhões negativos. A mesma empresa, no mesmo período, descrita de formas que se excluem: entre um retrato e outro, mais de R$ 150 milhões de diferença.
Quando a Justiça determinou que um profissional examinasse a papelada do grupo, veio à tona um terceiro número: uma versão contábil diferente das outras duas, entregue meses antes à Receita Federal. Três retratos. Da mesma empresa. No mesmo período.
A reação do mercado: Safra, Itaú e Santander vão à Justiça
O Banco Safra, que havia liberado o crédito confiando nos R$ 125 milhões positivos, levou o caso à Justiça alegando fraude, papel maquiado e crise inventada para não pagar. Outros dois grandes credores, Itaú e Santander, também contestaram o pedido de recuperação judicial e se juntaram à disputa.
O caso chegou à mesa dos desembargadores do tribunal de Alagoas.
A defesa da KWA sustenta que não houve fraude alguma, apenas formas diferentes de apurar o patrimônio. O argumento tem alguma consistência técnica: numa empresa de sucata, o estoque muda diariamente, com metal entrando e saindo a todo momento, de pequenos catadores a grandes fornecedores. Atribuir um valor exato a esse tipo de ativo é genuinamente complexo, e a legislação contábil brasileira oferece margem para diferentes critérios de avaliação.
A juíza responsável pelo caso entendeu que não havia elementos suficientes para afirmar que a recuperação judicial em si constituía uma fraude, e separou a dúvida sobre o empréstimo para ser investigada em outro processo. Até o momento, ninguém foi condenado.
Um dos desembargadores resumiu o impasse de forma que circulou entre profissionais do setor: ali só cabiam duas explicações, e as duas eram ruins para a empresa. Ou o retrato positivo, o do banco, era mentira, feito para arrancar o empréstimo. Ou o retrato negativo, o do juiz, é que era mentira, feito para se esconder atrás da recuperação judicial e empurrar os credores. Não tinha como os dois serem verdade ao mesmo tempo.
A lição para o mercado de crédito e para os FIDCs
O caso KWA não é sobre recuperação judicial. A recuperação judicial, como instrumento, salva empresas viáveis e preserva empregos, e o país seria mais frágil sem ela. O problema nunca é a ferramenta. É quem a usa como esconderijo em vez de abri-la honestamente.
Para gestores de FIDCs, o caso oferece um ensinamento operacional direto. Fundos de investimento em direitos creditórios dependem da qualidade dos cedentes e dos originadores: a saúde financeira dessas empresas é, em última instância, o que garante que os recebíveis cedidos ao fundo serão honrados. Um cedente que apresenta balanços diferentes para públicos diferentes é exatamente o tipo de risco que os processos de due diligence precisam capturar, e raramente capturam quando se limitam ao número entregue.
O mecanismo de defesa não é desconfiar de todo documento apresentado. É perguntar de onde o número veio e cruzá-lo com outras fontes. A pergunta que mais revela, segundo Valverde, é simples: a mesma empresa conta a mesma história para o banco, para o sócio e para a Receita Federal, ou muda a versão conforme quem senta na frente dela?
Foi exatamente essa comparação que expôs o grupo KWA. Não foi uma investigação sofisticada. Foi alguém que colocou dois documentos lado a lado e percebeu que não batiam. A verdade, nesse caso como em tantos outros, não gritou de dentro de um papel. Apareceu quando dois papéis foram confrontados.
O que se espera a seguir
O processo segue em curso no tribunal de Alagoas, com a investigação sobre o empréstimo tramitando em separado. A KWA nega as acusações. Os bancos credores aguardam o desfecho judicial.
Para além deste caso específico, o episódio reforça a pressão crescente por maior rigor nos processos de análise de crédito, especialmente em operações estruturadas, como as que alimentam FIDCs de médio e grande porte. A CVM, que regula os fundos de direitos creditórios desde a Resolução 175/2022, já exige relatórios de auditoria e processos de controle mais robustos dos gestores. Mas a norma, por si só, não substitui o ceticismo analítico de quem assina uma operação de crédito.
O mercado de crédito privado brasileiro cresceu de forma expressiva nos últimos anos. O patrimônio total dos FIDCs ultrapassou R$ 400 bilhões em 2024. Quanto maior o volume, maior o incentivo para que tomadores apresentem o melhor retrato possível de si mesmos. O caso KWA é um lembrete de que retrato e realidade podem ser coisas bem diferentes.
Fontes: Postagem de Rodrigo Valverde (@rod_valverde) no Instagram, junho de 2026













