Duplicata Escritural Pode Redefinir a Infraestrutura do Crédito Corporativo no Brasil

O mercado financeiro brasileiro se prepara para uma das transformações mais relevantes dos últimos anos no segmento de crédito corporativo. A duplicata escritural, instrumento que moderniza a emissão e o registro de duplicatas em formato digital e padronizado, começa a ganhar força operacional entre bancos, cooperativas e empresas, segundo dados da Pesquisa de Duplicatas 2026, realizada pela Núclea em parceria com o Instituto Brasileiro de Pesquisa e Análise de Dados (IBPad) e a Môre Consultoria.

O estudo aponta que a expectativa do setor vai além da conformidade regulatória: a duplicata escritural é vista, crescentemente, como vetor de crescimento, modernização e ampliação da competitividade no mercado de crédito empresarial.

O que é a Duplicata Escritural e por que ela importa

A duplicata escritural é a versão digital e estruturada da duplicata mercantil, título de crédito utilizado há décadas no Brasil para representar operações de compra e venda ou prestação de serviços. No modelo tradicional, esses títulos circulam de forma fragmentada, com baixa padronização e significativa assimetria de informações entre os participantes do sistema financeiro.

Com a nova infraestrutura, as duplicatas passam a ser emitidas, registradas e negociadas em ambiente digital, por meio de registradoras habilitadas, com dados estruturados e interoperáveis. O resultado esperado é um mercado de recebíveis mais transparente, eficiente e acessível.

O escopo do mercado impactado é relevante: segundo Rodrigo Furiato, vice-presidente de Negócios da Núclea, o universo em transformação envolve aproximadamente 1,5 milhão de empresas emissoras e mais de 18 mil grandes empresas sacadoras. “Com a duplicata escritural, o mercado de recebíveis como garantia pode ser destravado, gerando a oportunidade de muitos títulos que hoje estão fora serem efetivamente negociados”, afirma Furiato.

A Interoperabilidade como Camada Central do Novo Modelo

Um dos achados mais expressivos da pesquisa é o papel central atribuído à interoperabilidade na viabilidade do novo modelo. O conceito refere-se à capacidade de sistemas, registradoras e participantes distintos trocarem informações de forma padronizada e confiável, sem fricções operacionais relevantes.

Mais de 60% dos entrevistados apontam a coordenação entre players e a integração tecnológica como os principais fatores para o sucesso da implementação. A avaliação é unânime quanto ao papel estruturante da interoperabilidade: sem ela, os benefícios do novo modelo ficam comprometidos.

“A interoperabilidade passa a ser uma camada central da nova infraestrutura do crédito corporativo. O mercado entende que o sucesso da duplicata escritural dependerá diretamente da capacidade de integração entre sistemas, registradoras, participantes e fluxos operacionais”, reforça Furiato.

O novo ambiente permitirá que informações antes dispersas circulem de forma padronizada entre todos os agentes da cadeia, ampliando eficiência operacional e reduzindo a assimetria de informações que historicamente penalizou empresas menores no acesso ao crédito.

Instituições Financeiras já se Movimentam

O dado mais expressivo sobre o grau de preparo do setor está na adesão estratégica das instituições financeiras. Segundo a pesquisa, 82% dos bancos, cooperativas de crédito e empresas de varejo financeiro entrevistados já tratam a duplicata escritural como tema estratégico e possuem um roadmap estruturado ou em parte estruturado para implementação, com estratégias, investimentos e cronogramas definidos.

O número sinaliza uma mudança qualitativa na percepção do mercado: a duplicata escritural deixou de ser encarada apenas como exigência regulatória e passou a ocupar espaço relevante nos planos de negócio das instituições. O novo modelo é percebido como oportunidade de expansão de carteira, modernização de processos e ganho competitivo.

Para os gestores de FIDC (Fundo de Investimento em Direitos Creditórios) e operadores de fundos de recebíveis, o movimento tem implicação direta na qualidade e volume dos ativos disponíveis para cessão e estruturação. A padronização das informações reduz o risco de fraude, facilita a precificação e pode ampliar o universo de originadores elegíveis para estruturas de securitização.

Fricções Esperadas e Aprendizados do Passado

A pesquisa não ignora os desafios. Entre os entrevistados que mencionaram preocupações com a interoperabilidade, as principais fricções esperadas estão associadas à liquidação, conciliação e testes operacionais. São etapas que exigem coordenação precisa entre múltiplos agentes e sistemas com arquiteturas distintas.

A memória do mercado sobre experiências anteriores também pesa. O modelo de recebíveis de cartões, referência mais próxima em termos de infraestrutura digitalizada de recebíveis, ainda influencia a percepção de risco de parte dos participantes. Eventuais dificuldades naquele processo de implementação criam cautela sobre os prazos e a qualidade da execução no novo modelo.

Analistas do setor avaliam que a governança do processo e o papel das registradoras serão determinantes para o ritmo de adoção. A capacidade de resolver conflitos de padronização entre sistemas legados e o novo ambiente regulatório pode definir se a transição será gradual e ordenada ou sujeita a descontinuidades operacionais relevantes.

Perspectivas para o Mercado de FIDC e Crédito Privado

Para o segmento de FIDC, a consolidação da duplicata escritural representa um ponto de inflexão. A maior rastreabilidade dos recebíveis, combinada com dados estruturados e interoperáveis, tende a ampliar a confiança dos investidores institucionais nos ativos subjacentes das estruturas e a facilitar processos de due diligence e monitoramento de carteiras.

A expectativa do setor, conforme consolidada pela pesquisa da Núclea, é que a combinação entre tecnologia, interoperabilidade e dados estruturados amplie eficiência, aumente a competitividade e modernize o mercado de crédito corporativo brasileiro. A evolução deve acontecer de forma gradual, acompanhando o amadurecimento operacional dos participantes.

O cenário é favorável: a combinação de alta adesão estratégica das instituições financeiras, massa crítica relevante de emissores e sacadores e suporte regulatório cria as condições para que a duplicata escritural cumpra seu potencial transformador no crédito corporativo brasileiro. O que se monitora agora é a velocidade e a qualidade da execução.


Fonte: Portal do Fomento, com base na Pesquisa de Duplicatas 2026 realizada pela Núclea, IBPad e Môre Consultoria

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