O mercado cobrou respostas do Nubank durante roadshow nos Estados Unidos e o recado foi claro: um ou dois trimestres positivos não bastam para reconquistar a confiança dos investidores
O cenário que preocupa o mercado
O Nubank (NYSE: NU) encerrou o primeiro trimestre de 2026 com uma carteira de crédito de US$ 37,2 bilhões, crescimento de 40% em relação ao mesmo período do ano anterior. Os números de crescimento impressionam, mas o mercado passou a olhar com lupa para o que está dentro dessa carteira e, principalmente, para o que pode acontecer com ela num ambiente de juros elevados.
A Selic encerrou o último ciclo de ajuste em 14,25% ao ano e, conforme o boletim Focus divulgado em 22 de junho de 2026, deve se manter próxima desse patamar até o fim do ano. Para uma fintech que cresceu exponencialmente oferecendo crédito pessoal sem garantia e cartões a uma base de clientes de menor renda, esse contexto representa um teste de resistência de longa duração.
É dentro desse quadro que a alta da inadimplência no intervalo de 15 a 90 dias, que passou de 4,1% para 5,0% no primeiro trimestre de 2026, ganhou uma dimensão que vai além de um número isolado. O lucro líquido ficou em US$ 871,4 milhões, bem abaixo da estimativa de analistas, que apontava para US$ 980 milhões. A receita, por outro lado, surpreendeu positivamente e somou US$ 5,3 bilhões ante expectativa de US$ 4,5 bilhões. Ainda assim, a combinação de lucro abaixo do esperado e inadimplência em alta acendeu o sinal de alerta.
O que os investidores querem saber
Segundo relatório do BTG divulgado em 19 de junho de 2026, o principal tema nas reuniões do roadshow realizado nos Estados Unidos não foi o ritmo de crescimento da base de clientes. Os investidores queriam entender se o modelo de crédito da fintech resiste a um período prolongado de juros altos. A pergunta central era direta: o que acontece com a receita do Nubank se o cenário macroeconômico piorar e a instituição precisar apertar a torneira do crédito?
“Investidores tentam entender o que aconteceria com o crescimento da receita se o cenário macroeconômico piorasse e o Nubank precisasse reduzir a concessão de crédito”, afirma o relatório do BTG. A frase resume um receio estrutural, não apenas pontual.
O impacto já aparece nas ações. De janeiro a junho de 2026, os papéis do Nubank acumularam queda de 22,83% na NYSE. Nos 30 dias anteriores à divulgação do relatório, a alta foi de apenas 0,75%, insuficiente para sinalizar uma virada de percepção.
Analistas do setor de crédito privado apontam que a desconfiança dos investidores estrangeiros segue uma lógica conhecida no mercado de FIDCs (Fundos de Investimento em Direitos Creditórios). Quando a inadimplência sobe em carteiras de crédito sem garantia, mesmo que os spreads ajustados ao risco ainda se mostrem confortáveis, a primeira reação dos alocadores institucionais é reduzir exposição até que o padrão se normalize por pelo menos dois ou três ciclos consecutivos. “Investidores geralmente não gostam de comprar ações de instituições financeiras quando a inadimplência sobe, mesmo quando as margens ajustadas ao risco seguem em níveis confortáveis”, registra o BTG no documento.
A resposta do Nubank e os limites do argumento
O então diretor financeiro Guilherme Lago apresentou uma linha de defesa em entrevista à Reuters: a queda no lucro foi consequência direta da velocidade do próprio crescimento da carteira, o que exigiu a constituição antecipada de provisões. O argumento é tecnicamente sólido e não deve ser descartado. A inadimplência acima de 90 dias, de fato, recuou de 6,6% para 6,5% no mesmo período, o que apoia parcialmente a tese de que a deterioração ainda não se instalou na faixa mais crítica da carteira.
Lago também atribuiu a alta da inadimplência de curto prazo à sazonalidade típica do início do ano, quando o pagamento de despesas como IPTU, IPVA e material escolar comprime a capacidade de pagamento dos tomadores de menor renda. Esse efeito é bem documentado no mercado de crédito ao consumidor no Brasil e não pode ser ignorado.
O problema é que esses argumentos, por mais válidos que sejam, não respondem à pergunta mais difícil: o que acontece se a sazonalidade e o ritmo de provisionamento não explicarem sozinhos a alta da inadimplência nos próximos trimestres?
Estímulos temporários e o risco de mascaramento
O BTG traz um ponto adicional que merece atenção de gestores de crédito privado. Segundo os analistas, muitos investidores estrangeiros acreditam que a economia brasileira está sendo sustentada por estímulos de curto prazo. Entre eles estão a proposta de isenção de Imposto de Renda para contribuintes de menor renda, o forte crescimento do crédito consignado privado e o programa Desenrola 2.0. Na visão desses investidores, esses fatores podem estar mascarando pressões subjacentes na qualidade dos ativos de crédito.
Para o mercado de crédito privado estruturado, a leitura é pertinente. Originadores que operam no segmento de crédito pessoal e consignado privado convivem com o mesmo risco: os programas de renegociação e os novos produtos de crédito com desconto em folha reduzem o inadimplente visível, mas não necessariamente o endividamento real das famílias. Quando os estímulos arrefecem, a qualidade dos ativos tende a se revelar com mais transparência.
Perspectivas: consistência é o único antídoto
O BTG deixou claro em seu relatório que “um ou dois trimestres de boa qualidade de crédito do Nubank podem não ser suficientes” para mudar a percepção do mercado. Os analistas indicam que os investidores querem ver consistência ao longo do tempo, e não resultados isolados.
Para o Nubank, esse é o horizonte mais concreto: provar, trimestre a trimestre, que a inadimplência voltou a cair e que o crescimento da carteira não veio à custa de uma seleção de risco mais frouxa. A instituição tem exposição relevante a tomadores de menor renda e opera predominantemente em crédito pessoal sem garantia, os segmentos mais sensíveis a qualquer deterioração do poder de compra das famílias.
O mercado vai cobrar essa prova em cada resultado. E os gestores de crédito privado que monitoram a qualidade das carteiras de instituições com perfil similar ao do Nubank já têm essa sinalização do BTG no radar: a confiança, quando quebrada, exige mais do que boas intenções para ser reconstruída.
Fonte: Finsiders Brasil, relatório BTG (19/06/2026)













