Juros altos e desinformação fazem sete em dez empresas abandonar o crédito bancário

Foto: Luis Wulff – CEO do Tax.Co
Quase sete em cada dez empresas de médio e grande porte no Brasil têm recorrido exclusivamente ao capital próprio para financiar suas operações. O dado, levantado pela consultoria tributária Tax Group e publicado pelo Valor Econômico, revela uma ruptura silenciosa no modelo de financiamento corporativo brasileiro e abre um debate urgente sobre o papel do mercado de crédito privado nesse cenário.

O diagnóstico: juros e desinformação como duplo obstáculo

A pesquisa da Tax Group identificou dois fatores centrais que explicam a fuga das empresas do crédito bancário tradicional. O primeiro é o mais evidente: as taxas de juros praticadas no mercado tornam o endividamento proibitivo para uma parcela expressiva do empresariado. O segundo fator, menos óbvio mas igualmente relevante, é o desconhecimento sobre a existência de linhas de crédito mais baratas e acessíveis.

A combinação dos dois elementos forma um ciclo que se retroalimenta. O gestor que não conhece as alternativas disponíveis, como operações de antecipação de recebíveis via FIDC, linhas subsidiadas de desenvolvimento ou estruturas de securitização, tende a enxergar o crédito como um bloco monolítico de custo elevado. Diante dessa percepção, a saída racional é recorrer ao caixa interno e evitar novos compromissos com instituições bancárias.

O resultado prático dessa escolha é uma empresa que preserva autonomia financeira no curto prazo, mas que limita sua capacidade de crescimento e compromete a gestão de liquidez no médio e longo prazo.

O que os números revelam sobre o mercado corporativo brasileiro

O dado da Tax Group não surge no vácuo. Ele é consistente com o ambiente macroeconômico que o Brasil atravessou ao longo de 2025 e manteve no início de 2026. Com a Selic em patamar historicamente elevado e spreads bancários entre os mais altos do mundo para economias comparáveis, contratar crédito junto a um banco de varejo passou a representar um custo que corrói margens e inviabiliza projetos com retornos moderados.

Para empresas de médio porte, que em geral não têm acesso direto ao mercado de capitais e dependem do sistema bancário como porta de entrada para o financiamento externo, esse cenário é particularmente limitante. Sem alternativas claras no radar, a saída foi enxugar estruturas, postergar expansões e bancar o crescimento com geração interna de caixa.

O estudo da Tax Group não detalha critérios metodológicos nem o número exato de empresas consultadas, mas o comportamento que descreve é amplamente reconhecido por analistas e gestores do setor financeiro como uma tendência real e crescente.

“O empresário brasileiro aprendeu a desconfiar do crédito bancário. Quando o custo do dinheiro externo é incompatível com a rentabilidade do negócio, financiar com o que se tem dentro de casa parece a única saída. O problema é que muitas vezes não é a única, mas o empresário simplesmente não sabe disso”, avalia um analista do mercado de crédito.

A oportunidade que o mercado de FIDC ainda não capturou por inteiro

Para o mercado de Fundos de Investimento em Direitos Creditórios (FIDC), o cenário descrito pelo levantamento representa simultaneamente um diagnóstico e uma oportunidade. Se a principal razão pela qual as empresas evitam o crédito externo é a combinação de custo elevado e desinformação, o FIDC tem condições objetivas de responder a ambos os fatores.

Nos FIDCs de capital de giro e antecipação de recebíveis, a empresa não contrata um empréstimo no sentido convencional. Ela cede seus recebíveis futuros, sejam duplicatas, contratos de serviços ou parcelas de vendas, para o fundo, que antecipa os recursos a um custo geralmente mais competitivo do que o spread bancário de varejo. O FIDC, por sua vez, capta esses recursos junto a investidores qualificados por meio da emissão de cotas sênior e subordinada.

O desafio é que esse mecanismo ainda é pouco conhecido fora do círculo de empresas que já operam no mercado de capitais. A barreira não é técnica nem regulatória. É informacional. E o levantamento da Tax Group coloca isso em evidência com um dado concreto: sete em dez empresas de médio e grande porte simplesmente não sabem que existem alternativas mais baratas ao crédito bancário tradicional.

“Há uma demanda reprimida enorme em empresas que nunca foram apresentadas a estruturas de recebíveis ou securitização. Para o originador que souber chegar a esse público com uma proposta didática e competitiva, o mercado é vasto”, afirma um gestor do setor.

Perspectivas: o que se espera para o crédito privado

O ambiente descrito pela pesquisa deve persistir enquanto a Selic permanecer em dois dígitos. No segundo semestre de 2026, o mercado precifica uma possível inflexão na política monetária brasileira, com início de ciclo de corte de juros que poderia tornar o crédito bancário ligeiramente mais competitivo. Mas mesmo num cenário de queda gradual da Selic, o spread bancário para empresas de médio porte dificilmente cairá a níveis que tornem o custo de um empréstimo de varejo comparável ao de uma operação bem estruturada de antecipação de recebíveis.

Por isso, a tendência de busca por alternativas ao crédito bancário deve se sustentar, e provavelmente se intensificar, à medida que mais empresas forem expostas a essas estruturas. A questão central não é se o FIDC vai crescer nesse ambiente. Os números de 2025 já mostram que sim: o patrimônio líquido do setor ultrapassou R$ 800 bilhões, com alta de 47% sobre o ano anterior, segundo dados da ANBIMA. A questão é se os gestores e originadores conseguirão alcançar o segmento de médias empresas que hoje financia a si mesmo por falta de informação.

O dado da Tax Group é um mapa. Cabe ao mercado de crédito estruturado decidir se vai usá-lo.


Fonte: Valor Econômico, 21/06/2026 — “Sete em dez empresas recorrem a financiamento com capital próprio em vez de crédito bancário”, com base em levantamento da consultoria tributária Tax Group.

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