Nima: ex-Ibiuna lança gestora de crédito estruturado para capturar a revolução da duplicata escritural

Lee: um dos primeiros fundos da Nima deve ser FIDC em parceria com Yunus — Foto: Gabriel Reis/Valor

Com passagens por Itaú, Santander e Ibiuna, Vivian Lee se une a Mario de Barros para fundar a Nima, asset dedicada a FIDCs de recebíveis comerciais. A gestora já nasce com o olho na janela que a modernização do sistema de recebíveis no Brasil deve abrir para investidores institucionais.


O cenário: mercado de recebíveis em transformação estrutural

O mercado brasileiro de crédito estruturado vive um momento raro: uma mudança de infraestrutura que tem potencial de redefinir as regras do jogo para gestores, originadores e investidores institucionais. A implementação da duplicata escritural, instrumento que digitaliza e confere rastreabilidade jurídica às operações de desconto de recebíveis comerciais, caminha para sua fase final antes da obrigatoriedade.

Segundo as informações disponíveis no mercado, a expectativa é que o período de produção controlada, última etapa antes da implementação concreta, seja iniciado entre junho e julho de 2026, após autorização formal do Banco Central. A partir daí, um ano de operação assistida marca o prazo para que empresas de grande porte passem a adotar o novo formato de forma compulsória, com avanço escalonado para médias e pequenas companhias na sequência.

É nesse contexto de transição que nasce a Nima, nova gestora de ativos de crédito estruturado fundada por profissionais com trajetória sólida nas maiores mesas de crédito privado do Brasil.


O fato central: Nima chega ao mercado com equipe de peso

A Nima foi criada por Vivian Lee, ex-sócia da Ibiuna Investimentos onde foi responsável pela estratégia de crédito da casa por cinco anos, e Mario de Barros, ex-Jaguar e ex-Pátria Investimentos e atual presidente do conselho da Opea. Lee ainda acumula passagens por Itaú e Santander, experiências que moldaram sua visão sobre o funcionamento das operações de crédito estruturado tanto pelo ângulo bancário quanto pelo institucional.

A estratégia central da Nima é investir em ativos de crédito privado de curto e médio prazo, com foco em dois eixos: recebíveis comerciais B2B, como duplicatas, e estruturas de risco sacado. Nessa modalidade, a obrigação de pagamento recai sobre o comprador (sacado) em vez do fornecedor, o que reduz significativamente o risco de crédito da operação ao ancorar o pagamento em empresas com histórico e capacidade financeira comprovados.

A chegada de uma nova gestora com esse perfil é relevante não apenas pela qualidade dos fundadores, mas pelo timing: a Nima surge precisamente quando o mercado de recebíveis começa a ganhar as ferramentas de segurança jurídica e rastreabilidade que os investidores institucionais historicamente demandavam para ampliar alocação nessa classe de ativo.

“A duplicata escritural deve aumentar a segurança jurídica das operações de desconto dos recebíveis e, com isso, ampliar o interesse dos investidores institucionais em financiar uma cadeia que movimenta trilhões de reais por ano”, afirma Lee.


Análise: transparência e tecnologia como diferencial competitivo

A tese de posicionamento da Nima nasce de uma lacuna observada por Lee quando ainda atuava como investidora institucional. Segundo ela, o mercado de crédito estruturado oferecia razoável transparência na fase de alocação, mas o monitoramento pós-investimento era deficiente, deixando o investidor com visibilidade limitada sobre a qualidade e evolução da carteira ao longo do tempo.

“Antes, quando estava com o chapéu de investidor institucional, investia em créditos estruturados. Na época, percebi que havia bastante transparência até o momento de alocar, mas que o monitoramento a partir dali era pouco eficiente”, afirma Lee. “A ideia agora é entregar para o mercado, por meio de uso intensivo da tecnologia, mais monitoramento e transparência, dando ao investidor a segurança de que ele não está investindo em uma caixa-preta.”

O diagnóstico é preciso. Um dos principais freios à alocação de recursos institucionais em FIDCs de recebíveis, especialmente os de menor porte ou com originadores menos conhecidos, é exatamente a assimetria de informação pós-estruturação. A promessa de monitoramento contínuo com uso intensivo de tecnologia como proposta de valor central diferencia a Nima das gestoras que competem apenas em originação ou estruturação.

Essa abordagem ressoa com a direção que o próprio mercado regulatório tem sinalizado: a Resolução CVM 175, em vigor desde 2023, aumentou as exigências de transparência e governança para FIDCs, criando um ambiente propício para gestoras que colocam o monitoramento como competência central e não como obrigação acessória.


Perspectivas: FIDC de impacto com a Yunus abre a carteira

O primeiro fundo da Nima já tem parceiro definido: a Yunus Negócios Sociais, referência global em finanças de impacto fundada pelo prêmio Nobel Muhammad Yunus. O produto previsto é um FIDC estruturado para financiar cadeias produtivas com viés socioambiental por meio da antecipação de recebíveis.

A mecânica é sofisticada: a Nima identifica grandes sacados, compradores com capacidade financeira robusta, e mapeia seus fornecedores com base em critérios de impacto que a Yunus ainda definirá, podendo incluir recortes de gênero, raça ou teses de descarbonização. A gestora entra com a inteligência tecnológica e a estruturação institucional do crédito; a Yunus assume a curadoria do impacto e a capacitação da cadeia de valor.

“Vamos mapear grandes sacados e, a partir deles, buscar fornecedores a partir de um recorte que a Yunus ainda irá definir, como gênero, raça ou tese de descarbonização”, explica Lee. “A gestora entra com a inteligência tecnológica e estruturação de crédito institucional, e a Yunus assume a curadoria do impacto e a capacitação da cadeia de valor.”

A combinação de risco sacado com critério de impacto ESG é uma das mais promissoras do mercado de recebíveis: o retorno é ancorado na solidez de grandes corporações, enquanto o benefício social é distribuído para fornecedores menores que historicamente têm acesso restrito a crédito de qualidade.

O que se espera monitorar nos próximos meses: a obtenção do registro da Nima na CVM, o tamanho-alvo do primeiro FIDC em parceria com a Yunus, e a estratégia de distribuição das cotas para investidores institucionais. Com a duplicata escritural na reta final de implementação e o PL dos FIDCs crescendo quase 28% em apenas 12 meses, o timing de entrada da gestora parece alinhado com uma janela de crescimento estrutural do setor.


Fonte: Valor Econômico, 10 de junho de 2026 — https://valor.globo.com/financas/noticia/2026/06/10/ex-ibiuna-vivian-lee-cria-gestora-de-ativos-de-credito-estruturado.ghtml

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