A Heineken escolheu um executivo brasileiro para liderar sua virada operacional. Rafael Oliveira, 51 anos, com dupla nacionalidade brasileira e britânica, foi anunciado como novo presidente executivo da cervejaria holandesa no dia 23 de junho de 2026. Ele assume formalmente em 1º de outubro, após aprovação prevista em assembleia extraordinária marcada para 5 de agosto.
A nomeação quebra um padrão histórico da companhia: pela primeira vez, a Heineken busca fora de seus próprios quadros um nome para o cargo máximo. E o perfil escolhido revela o diagnóstico interno da empresa sobre seus próprios problemas.
O cenário que motivou a escolha
A Heineken encerrou 2025 sob pressão. O volume global de cerveja vendida recuou 1,2% em relação ao ano anterior. Na Europa, a queda foi de 3,4%. Nas Américas, 2,8%. No Brasil, um dos mercados mais relevantes da companhia, a retração pode ter chegado a 3%, segundo dados da própria empresa.
Em janeiro de 2026, o CEO Dolf van den Brink, que ocupava o posto há seis anos, anunciou sua saída. Nos bastidores, o diagnóstico era direto: a Heineken havia ficado para trás em eficiência de custos e retorno ao acionista quando comparada a rivais como AB InBev e Carlsberg. A situação foi agravada por uma disputa com varejistas europeus em 2025, que chegou a retirar temporariamente as marcas da cervejaria das prateleiras de alguns países.
Em fevereiro, a companhia anunciou uma reestruturação com corte de 6 mil funcionários. O recado era claro: a Heineken precisava de uma liderança voltada para transformação operacional, não para gestão de continuidade.
O perfil: de Goldman Sachs ao mundo do consumo
Rafael Oliveira não tem origem no setor cervejeiro. Sua trajetória começou no mercado financeiro brasileiro, com passagens pelo Banco Icatu e pelo Banco BBA Creditanstalt como analista de equity research. Em seguida, passou dez anos no Goldman Sachs, incluindo o posto de diretor executivo para mercados emergentes na Ásia, com base em Hong Kong.
A virada para o consumo veio em 2014, com a entrada na Kraft Heinz, empresa criada a partir da fusão arquitetada pelo fundo brasileiro 3G Capital em parceria com a Berkshire Hathaway, de Warren Buffett. A Kraft Heinz pertence ao mesmo ecossistema de gestão da 3G Capital que também moldou a AB InBev, a principal concorrente direta da Heineken no mercado global. Ambas as companhias são conhecidas pela cultura de austeridade com custos, metas de eficiência agressivas e foco implacável em retorno ao acionista.
Ao longo de uma década na Kraft Heinz, Oliveira ocupou posições progressivamente maiores: diretor-geral para Austrália, Nova Zelândia e Papua Nova Guiné; presidente para Europa, Reino Unido, Oriente Médio, Rússia e África; e, por fim, EVP e presidente de Mercados Internacionais, supervisionando um portfólio acima de US$ 7 bilhões em quatro continentes.
Em março de 2024, deixou a companhia discretamente. Passou meses no Quênia como voluntário na Pharo Foundation, trabalhando em projetos de educação para crianças em situação de vulnerabilidade. Sete meses depois, estava de volta ao topo corporativo.
O teste na JDE Peet’s
Quando a JDE Peet’s, maior empresa global especializada em café e chá, contratou Oliveira em novembro de 2024, a situação era crítica. Dois CEOs haviam deixado o cargo em menos de oito meses. As ações acumulavam anos de queda. A alta histórica dos preços do café verde comprimia margens.
Em menos de um ano à frente da companhia, Oliveira reorganizou a estratégia. Batizou o plano de “Reignite the Amazing” e enxugou o portfólio de mais de 50 marcas para três frentes principais: Peet’s, L’OR e dez marcas locais de destaque, lideradas pela Jacobs. Prometeu 500 milhões de euros em economias de produtividade até 2027. Os resultados de 2024 foram considerados sólidos pelo mercado: lucro bruto de 8,84 bilhões de euros, alta de 7,9% em relação ao ano anterior.
Quando a Keurig Dr Pepper concluiu a aquisição da JDE Peet’s em abril de 2026, nomeou Oliveira para liderar a nova Global Coffee Co., que reuniria as operações de café das duas companhias, com receita anual estimada em cerca de US$ 16 bilhões. Foi diretamente dessa posição que a Heineken o recrutou.
O que o mercado espera
A escolha de Oliveira sinaliza uma mudança de postura clara na Heineken. Peter Wennink, presidente do conselho da cervejaria, destacou que o executivo combina visão estratégica com rigor operacional, qualidades consideradas essenciais para acelerar a agenda EverGreen 2030, o plano de longo prazo da empresa que prevê crescimento equilibrado e sustentável até o fim da década.
Charlene de Carvalho-Heineken, principal acionista do grupo e representante da família controladora, também se manifestou favoravelmente. Para ela, a capacidade comprovada de Oliveira de transformar estratégia em execução disciplinada foi o fator decisivo na escolha.
“A medida representa uma aposta consciente em um perfil que a Heineken não costumava buscar internamente”, avalia um especialista do setor de bens de consumo. “Trazer alguém com DNA da escola da 3G para a concorrente direta da AB InBev é, ao mesmo tempo, uma declaração de urgência e uma mudança de cultura.”
Perspectivas para os próximos meses
Oliveira assume com agenda conhecida e pressão imediata. A reestruturação de 6 mil vagas ainda estará em curso quando ele sentar na cadeira em outubro. O mercado aguarda sinalização sobre como ele combinará o plano EverGreen 2030 com a disciplina financeira que carrega na bagagem.
Alguns analistas apontam que a experiência de Oliveira com portfólios diversificados pode ser útil para a Heineken no Brasil, onde a empresa ainda disputa espaço com a Ambev em um mercado que mostrou retração em 2025. A questão central será saber se a receita aplicada no café, enxugar para crescer, funcionará também no complexo ecossistema cervejeiro global.
O mandato previsto é de quatro anos. Tempo suficiente para provar que a Heineken escolheu o perfil certo para um momento que não admite meio-termo.
Fontes: Exame INSIGHT (23/06/2026) Categoria sugerida: Empresas Tags sugeridas: Heineken, Rafael Oliveira, CEO, Kraft Heinz, AB InBev, 3G Capital, mercado de bebidas, gestão













