Copom corta Selic a 13,75% e deixa portas abertas, enquanto Fed reforça juros altos nos EUA
Divergência entre Copom e Fed define o humor do mercado brasileiro nesta quinta-feira.

Nesta quinta-feira, o mercado brasileiro navega entre dois sinais opostos. De um lado, o Comitê de Política Monetária (Copom) cortou a Selic em 0,25 ponto percentual, para 13,75% ao ano, mantendo espaço para novos cortes. De outro, o Federal Reserve elevou os juros americanos em 0,25 ponto, para a faixa de 3,75% a 4% ao ano, com discurso duro contra a inflação. A disputa entre esses vetores deve orientar o comportamento do dólar, da bolsa e da curva de juros nos próximos pregões.
O Copom decidiu, na quarta-feira, reduzir a Selic pela quinta vez consecutiva, em votação unânime dos sete membros do comitê. A taxa básica de juros brasileira chegou a 13,75% ao ano. No comunicado, o Banco Central classificou o cenário como de incerteza elevada e pediu "serenidade e cautela" na condução da política monetária daqui para frente.
As projeções de inflação divulgadas pelo comitê seguem acima da meta: 4,9% para 2026 e 4,3% para 2027, com convergência para 3,2% apenas no primeiro trimestre de 2028, no cenário de referência. O IPCA acumulado em 12 meses está em 4,22%, sinalizando desaceleração da inflação cheia. Ainda assim, o próprio Copom reconhece riscos "elevados com assimetria altista", citando desancoragem de expectativas e pressões cambiais como fatores de atenção para gestores de crédito e renda fixa.
Do outro lado, o Fed elevou sua taxa básica em 0,25 ponto, para a faixa de 3,75% a 4% ao ano. O presidente Kevin Warsh reforçou a leitura de que os juros americanos devem permanecer elevados por mais tempo, movimento que analistas já chamam de "higher for longer".
A reação imediata do Ibovespa foi negativa: o índice fechou em queda de 0,51%, acelerando as perdas depois das declarações de Warsh sobre inflação, em linha com o ajuste observado nas bolsas americanas. Para esta quinta-feira, no entanto, analistas veem espaço para recuperação, à medida que o mercado volte a olhar para fatores domésticos, como pesquisas eleitorais e o próprio comunicado do Copom.
No câmbio, o dólar segue pressionado pelo tom hawkish do Fed em escala global, mas o diferencial de juros brasileiro ajuda a sustentar o real em patamar relativamente estável. Com a Selic ainda em 13,75%, o Brasil mantém um dos carry trades mais atrativos entre os emergentes, o que tende a limitar a depreciação da moeda mesmo em um cenário externo mais desafiador.
Já na curva de juros, o movimento tende a refletir a disputa entre os dois sinais. Segundo projeções da XP, a Selic deve fechar 2026 em 13,25% ao ano e recuar para 11,50% em meados de 2027, cenário que sustenta uma inclinação de fechamento adicional da curva. Há, contudo, um risco relevante de pausa nas próximas reuniões do Copom, caso a inflação de serviços não desacelere como esperado, o que manteria a curva mais volátil no curto prazo.
Para Vinicius Flores, da Stratton Capital, "o Fed com certeza começou o seu esforço máximo contra a inflação", o que sugere um novo ciclo de aperto monetário nos Estados Unidos com repercussões diretas sobre ativos de risco em todo o mundo, incluindo o crédito privado brasileiro.
Beto Saadia, da Nomos, destaca que o cenário de "higher for longer" volta a ganhar força e tende a pressionar ativos de risco de forma generalizada, o que pode elevar a demanda por proteção em carteiras de FIDC expostas a crédito mais sensível ao ciclo.
Já Gustavo Cruz, da Sincra, chama atenção para a leitura mais construtiva do Banco Central sobre a atividade econômica brasileira: o próprio Copom passou a reconhecer desaceleração "mostrada" pelos dados recentes, com a inflação cheia rodando abaixo do teto da meta. Essa combinação, na visão do analista, abre espaço para o comitê seguir cortando juros sem colocar em risco a credibilidade do regime de metas.
Para o mercado de FIDC, o recuo gradual da Selic reduz, de forma incremental, o custo de captação de fundos que dependem de CDI e outras referências de curto prazo, ao mesmo tempo em que sustenta o apetite por cotas seniores com spread sobre uma taxa básica ainda em dois dígitos. A cautela sinalizada pelo Copom, no entanto, recomenda que gestores monitorem de perto a inflação de serviços e o comportamento do câmbio antes de reprecificar risco em cessões de crédito mais longas.
O cenário-base para as próximas semanas depende de qual vetor vai prevalecer: o rigor do Fed no cenário global ou a postura de abertura do Copom no cenário doméstico. Investidores e gestores de FIDC devem acompanhar de perto o resultado das pesquisas eleitorais brasileiras, que podem mexer com o prêmio de risco local, além dos próximos dados de inflação de serviços, determinantes para saber se o Copom mantém o ritmo de cortes ou opta por uma pausa técnica.
Do lado americano, o discurso de Kevin Warsh já sinaliza que o Fed não pretende recuar rapidamente do tom duro contra a inflação, o que deve manter a pressão sobre moedas emergentes e ativos de risco global nas próximas reuniões do banco central americano. Para o mercado de crédito privado brasileiro, a combinação de Selic ainda elevada com sinalização de novos cortes tende a manter o cenário favorável para fundos que buscam carrego em cotas sênior, desde que a volatilidade externa não descarrile as expectativas de inflação doméstica.
Fontes: InfoMoney ("Dólar, Bolsa e juros: como mercado brasileiro deve reagir nesta 5ª após Copom e Fed?") ("BC corta Selic em 0,25 ponto, para 13,75% ao ano, e deixa próximos passos em aberto")
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