Crédito sob estresse atinge R$ 171 bi no agro e impulsiona novas formas de financiamento privado
Há contraste entre o recorde histórico do mercado de capitais brasileiro e a escassez de recursos no setor rural; especialista André Rocha aponta alternativas como Sale & Leaseback Rural e novas estruturas de garantias.

O financiamento do agronegócio brasileiro vive um momento de forte transição e desafios estruturais. Enquanto o mercado de capitais no Brasil atingiu um volume recorde histórico de R$ 361,8 bilhões no primeiro semestre de 2026, impulsionado principalmente pela renda fixa (80% do total), as emissões de Certificados de Recebíveis do Agronegócio (CRAs) registraram uma queda expressiva de 50,4% em relação ao ano anterior, fechando o período em R$ 7,1 bilhões.
Ao mesmo tempo, o volume de crédito rural problemático (que inclui atrasos, inadimplência, operações prorrogadas e renegociadas) saltou de 5,5% para 19,6% em apenas dois anos, somando R$ 171,2 bilhões no início de 2026. Os indicadores foram apresentados durante o VIII Congresso Nacional de Direito Agrário, realizado no Taiwan Centro de Eventos, em Ribeirão Preto (SP) há alguns dias. O cenário evidencia um descompasso: a abundância de liquidez no mercado financeiro geral contrasta com a retração do crédito privado tradicional voltado ao campo, gerando forte pressão sobre o patrimônio dos produtores rurais.
*Novas estruturas jurídicas e patrimoniais*
André Rocha, especialista em reestruturação empresarial, turnaround, gestão de crises, melhoria de performance e estratégia, esteve como mediador do painel de debates “Financiamento Privado: novos cenários e oportunidades” do terceiro dia do evento. Para os especialistas, ficou evidente que, para contornar o cenário de juros elevados e a maior seletividade das concedentes de crédito, o setor agropecuário vem recorrendo a novos arranjos de financiamento corporativo e de gestão de ativos.
Entre as saídas em expansão no mercado está o Sale & Leaseback Rural (venda e arrendamento da propriedade). A operação permite que o produtor venda a terra para obter liquidez imediata e manter a continuidade da produção mediante pagamento de arrendamento, mantendo, em muitos casos, a opção de recompra futura do imóvel.
Segundo André Rocha, a migração para estruturas mais refinadas de governança e garantias é irreversível. "A volatilidade das margens no campo e a elevação das taxas de juros exigem que o produtor e as empresas do setor olhem além do crédito rural subsidiado e dos modelos bancários tradicionais. O dinheiro está disponível no mercado de capitais, mas exige segurança jurídica, transparência e modelos estruturados que protejam ambas as pontas. A engenharia financeira aliada às novas ferramentas do Direito Agrário, como as operações de Sale & Leaseback e os Fundos de Investimento nas Cadeias Produtivas Agroindustriais (Fiagros), é o que vai garantir a liquidez para as próximas safras", avalia André Rocha.
FIDC NEWS
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