Safra 2026/27: custos, dívidas e clima testam recebíveis do agro
Custos em alta, dívida recorde no radar da CMN e risco climático elevado pressionam a qualidade dos recebíveis que sustentam FIDCs e Fiagros do agronegócio.

O ciclo 2026/27 chega ao produtor rural brasileiro com uma combinação rara de pressões simultâneas: custo de produção em alta, dívida acumulada em níveis recordes e risco climático elevado por conta de um possível super El Niño. Para o mercado de crédito privado, o cenário não é apenas uma pauta agrícola. É um teste direto de qualidade para a carteira de FIDCs, Fiagros e demais veículos que financiam o setor via CPR (Cédula de Produto Rural), CRA e operações estruturadas de recebíveis.
Contexto: um agro mais endividado com menos crédito bancário disponível
O crédito rural e agroindustrial encolheu 17% em 2025, somando R$ 179 bilhões, uma retração de R$ 36,8 bilhões em relação a 2024, segundo levantamento da Serasa Experian. O ticket médio por contrato caiu 17,8%, de R$ 150 mil para R$ 123 mil, sinal de que o produtor está tomando menos crédito por operação, mesmo com o volume de contratos praticamente estável.
Esse aperto no funding bancário tradicional é parte do que explica o avanço de estruturas alternativas. Segundo levantamento do InfoMoney, os bancos ainda respondem por 75% a 85% do financiamento ao agronegócio, mas a fatia vem sendo disputada por FIDCs e Fiagros à medida que o crédito bancário fica mais restrito. "O crédito bancário está, de fato, mais restrito para as empresas do setor", afirma Leandro Andrade, da Orram Investimentos, gestora que administra cerca de R$ 1 bilhão em FIDCs agrícolas. Para José Daronco, da Suno Asset, o momento reúne "muita demanda e pouca oferta de recursos" no segmento de Fiagros.
O problema é que esse espaço maior para o crédito privado vem acompanhado de um histórico recente de estresse. Os pedidos de recuperação judicial no agro somaram 1.990 em 2025, alta de 56,4% sobre 2024, segundo a Serasa Experian, distribuídos principalmente entre Mato Grosso (332), Goiás (296) e Paraná (248).
O que muda na safra 2026/27: custo maior, calote em alta e clima incerto
Os custos de produção voltaram a subir. Em Mato Grosso, maior polo produtor do país, o custo por hectare da soja chegou a R$ 4.286,89, alta de 1,88% ante março, enquanto o milho teve avanço de 2,32% no mesmo período, puxado por fertilizantes e defensivos agrícolas, segundo dados do Imea reunidos pela CNA Brasil. O algodão, cultura de maior valor agregado na região, atingiu R$ 10.642,28 por hectare.
Do lado do crédito, a inadimplência rural saltou de 2,7% em 2024 para 6,5% ao fim de 2025 e chegou a 7,3% em janeiro de 2026, considerando operações com atraso superior a 90 dias, segundo dados compilados pela Traive. No universo mais amplo do agronegócio, incluindo arrendamentos e recebíveis, o FIDCNEWS já havia identificado R$ 54 bilhões em dívidas negativadas ao final de 2025, com taxa geral de inadimplência de 8,2% no setor agropecuário, chegando a 9,9% entre arrendatários rurais e 12,5% na região Norte, ante 5,7% no Sul.
Some-se a isso o risco climático. A Aon estima 95% de probabilidade de um super El Niño atingir o pico entre outubro e dezembro de 2026, com efeitos até abril de 2027. O trigo do Sul, responsável por cerca de 80% da produção nacional do grão (7,54 milhões de toneladas), é apontado como o ponto de maior exposição, com a colheita coincidindo com o auge do fenômeno e risco de germinação pré-colheita e doenças fúngicas por excesso de umidade. No Sudeste, ondas de calor e chuva irregular ameaçam o café, cultura que já registrou quedas de produção entre 20% e 30% em episódios anteriores, com perdas de receita superiores a R$ 1 bilhão. "Os impactos climáticos hoje vão além da porteira da fazenda e afetam liquidez e capacidade de financiamento em toda a cadeia", avalia Beatriz Protásio, da Aon.
Para tentar conter o efeito da dívida acumulada, o governo regulamentou em julho, via CMN, a MP 1.376/2026, que permite a produtores com perdas em ao menos duas safras entre 2019 e 2025 renegociar débitos antigos por linhas com prazo mais longo e juros reduzidos. Os limites vão de R$ 400 mil, a 6% ao ano, para beneficiários do Pronaf, até R$ 8 milhões, a 11% ao ano, para produtores com perdas em três ou mais safras. O prazo de adesão termina em 12 de novembro e a medida pode alcançar cerca de R$ 100 bilhões em dívidas rurais, segundo o Ministério da Fazenda.
Análise: o que isso significa para quem estrutura recebíveis do agro
Para gestores e estruturadores de FIDCs e Fiagros, a combinação de custo mais alto, calote em alta e clima incerto eleva diretamente o risco de crédito embutido em CPRs e CRAs usados como lastro. A advogada Paulina Caiado, especialista em direito agrário, alerta que arrendamentos e contratos mal documentados amplificam o risco de perda em securitizações: "o que transforma um atraso em prejuízo irreversível é a ausência de multa em contrato, redação confusa e falta de documentação de inadimplemento". Segundo ela, a tendência de deterioração "está vinculada à economia atual" e deve continuar.
Do lado da oferta de capital, o cenário tende a favorecer gestoras com processo de crédito mais rigoroso. Para Edgar Araújo, da Azumi Investimentos, o momento deve "diferenciar os bons gestores e fortalecer veículos com base técnica". Aloísio Teles, da 18ib, resume o movimento de forma direta: "o mercado está sendo mais rigoroso e separando com mais clareza as boas estruturas das ruins". Na prática, isso deve se traduzir em spreads maiores para operações de crédito agrícola, PDD mais conservadora e seleção mais criteriosa de originador e safra financiada, ainda que, como pondera Andrade, nem todo aumento de spread represente necessariamente um bom negócio para o cotista.
Perspectivas: o que monitorar até o fim de 2026
Três frentes devem concentrar a atenção de gestores de FIDCs e Fiagros ligados ao agro nos próximos meses. A primeira é a adesão à renegociação da MP 1.376/2026 até 12 de novembro, que pode aliviar parte do estoque de dívida vencida e reduzir pressão sobre carteiras de recebíveis. A segunda é a evolução do El Niño entre outubro e dezembro, período crítico para trigo no Sul e café no Sudeste, com efeito direto sobre a capacidade de pagamento de produtores financiados via CPR. A terceira é o ritmo de captação de novos FIDCs e Fiagros do agronegócio, que deve seguir crescendo enquanto o crédito bancário permanecer mais restrito, elevando a régua de due diligence sobre originadores e qualidade de garantias.
Fontes: Globo Rural
FIDC NEWS
O .fidcnews é um veículo digital focado em notícias e análises sobre Fundos de Investimento em Direitos Creditórios (FIDCs), com o propósito de tornar acessíveis os dados e tendências do mercado de crédito estruturado.
Ler todas as notíciasComentários
Ainda não há comentários. Seja o primeiro a comentar.
Deixe um comentário
Seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *








