A Administração Nacional Oceânica e Atmosférica (NOAA), agência climática dos Estados Unidos, informou nesta quinta-feira (9/7) que o El Niño tem 81% de chance de atingir a categoria “muito forte” entre outubro e dezembro de 2026. Caso a previsão se confirme, o fenômeno pode ser o mais intenso desde 1950, ano em que as medições começaram a ser feitas, com efeitos diretos sobre a safra brasileira e, por consequência, sobre a qualidade dos recebíveis que lastreiam fundos de investimento em direitos creditórios (FIDC) ligados ao agronegócio.
Contexto: um fenômeno que já mexe com o calendário do crédito rural
O El Niño é um padrão climático caracterizado pelo aquecimento anormal das águas do oceano Pacífico e historicamente altera o regime de chuvas no Brasil. Segundo a NOAA, o fenômeno tende a aumentar a incidência de chuvas no Centro-Sul do país e provocar secas no Norte e no Nordeste.
Para o mercado de FIDC, esse tipo de sinal climático não é apenas um dado meteorológico. Fundos que compram recebíveis originados por cooperativas, tradings e produtores rurais dependem diretamente da capacidade de pagamento do produtor, que por sua vez está atrelada ao resultado da safra. Um El Niño fora do padrão histórico eleva a incerteza sobre produtividade, custo de frete, formação de preços e, no limite, sobre o índice de inadimplência dessas carteiras.
O que mudou: dados da NOAA reforçam cenário de intensidade recorde
O boletim divulgado pela NOAA nesta quinta-feira (9/7) trouxe uma atualização relevante em relação a previsões anteriores. Segundo o gráfico de probabilidade de força do El Niño publicado pela agência, a chance do fenômeno atingir a categoria “muito forte” (média igual ou superior a 2,0°C) sobe progressivamente ao longo do segundo semestre de 2026, chegando a 81% no trimestre de setembro a novembro e se mantendo em patamar elevado (75%) entre outubro e dezembro.
Além da intensidade, a NOAA estima em 97% a probabilidade de o El Niño permanecer ativo até junho de 2027, o que amplia a janela de exposição ao risco climático para praticamente todo o próximo ciclo de plantio e colheita no Brasil. A agência pondera, no entanto, que mesmo em anos de El Niño mais intensos os impactos típicos do fenômeno não se manifestam de forma uniforme em todas as regiões, mas eventos mais fortes aumentam significativamente a probabilidade de ocorrência dos efeitos esperados.
Análise: por que isso importa para quem estrutura e compra cotas de FIDC agro
Na prática, a leitura para gestores e cotistas de FIDC com exposição ao agronegócio se divide em dois vetores regionais opostos. No Centro-Sul, região que concentra parte relevante da produção de soja, milho e café, o excesso de chuvas pode atrasar colheita, prejudicar logística de escoamento e pressionar a qualidade do grão, afetando o valor de liquidação dos recebíveis usados como lastro. Já no Norte e no Nordeste, a tendência de seca eleva o risco de quebra de safra e de inadimplência em operações de crédito rural com garantia sobre a produção.
Para analistas de fundos de recebíveis do agronegócio, o cenário reforça a importância de mecanismos de proteção já presentes na estrutura desses FIDC, como a subordinação de cotas (em que a cota subordinada absorve perdas antes da cota sênior) e a provisão para devedores duvidosos (PDD). “Um evento climático dessa magnitude testa a robustez dos critérios de elegibilidade dos recebíveis e da diversificação geográfica da carteira”, avalia um gestor de fundos de crédito ligados ao agronegócio consultado pela reportagem. Fundos concentrados em poucas regiões ou culturas tendem a sentir o impacto de forma mais direta do que carteiras pulverizadas entre diferentes praças e safras.
Perspectivas: o que monitorar até o fim do ano
Com o El Niño em trajetória de intensificação e previsão de permanência prolongada, o mercado de crédito privado ligado ao agro deve acompanhar de perto três frentes nos próximos meses. A primeira é a evolução do próprio boletim climático, já que a NOAA deve atualizar as probabilidades mensalmente, permitindo ajustes de rota em originação e precificação de risco. A segunda é o comportamento da inadimplência em operações de crédito rural concentradas no Norte e no Nordeste, onde o risco de seca é maior. A terceira é o custo logístico e de armazenagem no Centro-Sul, região mais exposta ao excesso de chuvas durante a janela de colheita.
Gestores de FIDC com lastro agrícola tendem a reforçar, nos próximos meses, a análise de concentração geográfica e de cultura dentro das carteiras, além de revisar premissas de PDD à luz do novo cenário climático. Para o investidor institucional e qualificado que acompanha o setor, o episódio é um lembrete de que risco climático deixou de ser uma variável de fundo e passou a ser parte central da análise de crédito em operações estruturadas com lastro no agronegócio.
Fonte: Globo Rural, com dados da NOAA (Administração Nacional Oceânica e Atmosférica), publicado em 09/07/2026













