Aprovar o crédito mais rápido e mais fácil virou o produto principal
Para especialista em concessão de crédito, velocidade e segurança deixaram de ser opostos - o gargalo migrou da experiência do cliente para a camada que decide.

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Pedir um empréstimo no Brasil exigia, há dez anos, agência, senha, formulário, cópia autenticada, comprovante de renda e, em muitos casos, fiador. A resposta levava três dias. Hoje uma pessoa faz o pedido pelo celular na fila do supermercado e recebe a decisão antes de chegar ao caixa.
A mudança foi puxada em boa medida pelas fintechs de crédito, que demonstraram ser possível retirar a burocracia do processo sem inviabilizar a operação. Para Davi Pereira Vidoto, diretor de Operações da Sinc Finance, o movimento é irreversível e a reação do setor tradicional precisa ser outra. "O cliente percebeu, gostou e não vai voltar atrás", afirma. "Quem ainda pede três documentos para avaliar um pedido não está sendo prudente. Está sendo preterido", completa.
A avaliação contraria uma premissa consolidada no mercado de crédito, segundo a qual rapidez e segurança caminham em direções opostas: quanto mais veloz a aprovação, maior o risco assumido.
Vidoto sustenta que essa relação já foi verdadeira, mas por um motivo específico. "Isso valia quando analisar dependia de gente lendo papel. Com um analista conferindo documento à mão, cada minuto a mais de cuidado era um minuto a mais de espera, e o único jeito de acelerar era olhar menos. O que parecia um trade-off era uma limitação de ferramenta. E a ferramenta mudou", diz.
A percepção de que uma decisão tomada em segundos seria uma decisão superficial também é contestada pelo executivo. Nesse intervalo, explica, ocorrem dezenas de verificações simultâneas: confirmação de identidade contra base oficial, checagem antifraude, consulta a histórico de crédito, cruzamento de renda, aplicação de política interna, cálculo de limite e precificação.
Um motor de decisão executa em paralelo etapas que um analista cumpriria em sequência - e aplica o mesmo critério a todos os pedidos, sem variação por cansaço ou pressão comercial. "O clique é a ponta visível de uma engenharia pesada. A operação que aprova em três segundos costuma estar olhando mais coisa, e não menos, do que a que demora três dias", resume Vidoto.
A camada que ficou para trás
Se a tecnologia permite esse padrão, por que parte relevante do crédito no país ainda é concedida com formulário e espera? Para o executivo, porque o investimento se concentrou na camada visível ao cliente - aplicativo, abertura de conta, assinatura eletrônica, integração de pagamento.
A camada que decide evoluiu menos. Em muitas operações, segue apoiada em cadastro declarado, documento enviado pelo próprio cliente e regras escritas há anos que nunca foram revisadas. O resultado, na leitura dele, é uma assimetria: empresas com experiência digital moderna tomando decisões com a inteligência de uma década atrás.
Vidoto considera que há um mal-entendido na raiz dessa resistência. "Reduzir burocracia não é reduzir exigência, é trocar a exigência de lugar. Ao invés de pedir ao cliente que prove quem é com papel, o credor verifica por conta própria, em bases que já existem e com autorização dele. O cliente entrega menos, mas o credor sabe mais”, explica.
O executivo ainda aponta três caminhos para que a análise acompanhe a velocidade do produto, nenhum deles dependente de tecnologia inédita:
O primeiro é substituir dado declarado por dado verificado. Cada informação checada contra uma fonte representa um item a menos de incerteza embutido no preço final da operação.
O segundo é adotar motores de decisão efetivamente parametrizáveis, em que política, limite e preço possam ser testados e alterados em dias. "Operação que leva três meses para mudar uma regra não aprende, só repete", diz.
O terceiro é o uso de inteligência artificial nas tarefas em que ela tem vantagem clara: identificar padrões em volumes que nenhuma equipe humana conseguiria revisar, sinalizar casos fora do padrão e liberar o analista das conferências repetitivas. "A máquina não substitui julgamento, ela entrega o julgamento onde ele é necessário, ao invés de gastá-lo conferindo documento", afirma.
A velocidade que ainda falta
Para Vidoto, a oportunidade mais clara do mercado brasileiro hoje está em uma frente que permanece no ritmo anterior: o acompanhamento do cliente depois da aprovação. Na maior parte das operações, o credor só descobre que a situação do tomador mudou quando a parcela deixa de ser paga.
O tema ganha peso no cenário atual. A inadimplência do sistema financeiro nacional atingiu 4,9% em julho de 2026, segundo as Estatísticas Monetárias e de Crédito do Banco Central - o maior nível desde o início da série histórica, em março de 2011.
"A mesma engenharia que comprimiu a aprovação pode comprimir isso. Sinal de deterioração percebido no terceiro mês permite conversar e ajustar. Percebido no vencimento, só resta cobrar. É a diferença entre uma operação que se corrige e uma que se perde", analisa.
A conclusão do executivo é que o formato do crédito de varejo já está estabelecido e não será revertido. "Simples, rápido, sem papel, no celular. Essa é a forma final do produto, e ela já foi decidida pelo cliente, não pelo setor", afirma. Segundo ele, a pergunta que o mercado precisa responder é outra: se a capacidade de analisar está à altura da velocidade prometida. Onde está, diz, o efeito aparece em menos atrito, menos fraude, menos perda e preço melhor para quem paga em dia. "Não é o produto que precisa mudar, mas a forma de analisar", conclui Davi Pereira Vidoto.
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