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MercadoCrédito privado

ARC Capital estreia na Europa com data center de 100 milhões de francos em Genebra

Crédito estruturado brasileiro ganha endereço na Europa.

FIDC NEWSFIDC NEWS 5 min de leituraSem comentários

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A gestora brasileira ARC Capital fez na Suíça a primeira operação da sua plataforma europeia. Comprou um data center de 100 milhões de francos suíços, cerca de R$ 609 milhões, e tem outras quatro aquisições em negociação avançada. Até meados de 2027, a ARC deve investir cerca de 500 milhões de euros no continente, divididos entre data centers, NAV finance e financiamento de recebíveis do setor de defesa. É uma vitrine para a capacidade de estruturação do crédito privado brasileiro fora do país.

O modelo brasileiro levado a Londres

A expansão europeia começou há quase dois anos, quando Vinícius Senger, sócio da ARC desde 2018, se mudou para Londres. Desde então, ele e um time local de sete pessoas analisaram mais de 450 negócios em 20 países do continente.

A gestora levou para a Europa o mesmo modelo que usa no Brasil: entra com capital próprio, chama coinvestidores e também atua como financiadora das operações. “Seguimos o modelo de atuação do Brasil, com capital proprietário e chamando coinvestidores, e também como financiadores”, diz Senger.

A operação de Genebra saiu de uma parceria fechada no início do ano com a Gira Power, plataforma de Wissam Anastas, ex-head de infraestrutura do Deutsche Bank. Anastas é minoritário no equity e cuida da prospecção de ativos e da captação de clientes.

O negócio em Genebra

O ativo comprado é um data center de 9,7 megawatts (MW), com licenças para chegar a 20 MW. Ele fica ao lado do aeroporto de Genebra, perto da Organização Europeia para a Investigação Nuclear (CERN). O prédio foi operado pela IBM e depois vendido a uma família suíça, que contratou a CBRE para a manutenção. “Não tinha nem poeira”, diz Senger, que está fechando o contrato com o novo ocupante.

A estrutura de capital mostra o peso da dívida. A ARC já desembolsou 65 milhões de francos: 10 milhões em equity e 55 milhões em dívida. Os 35 milhões restantes também virão de dívida. Depois de reunir coinvestidores, a gestora deve ficar com cerca de 40% do cheque final.

Outros quatro data centers estão em negociação avançada e vão ficar sob a mesma holding. A aquisição na Alemanha deve sair ainda este ano. As outras três, na Noruega, na França e na Suécia, estão previstas para o primeiro trimestre de 2027.

Quatro teses, todas com DNA de crédito estruturado

A plataforma europeia trabalha com quatro teses. A primeira é a de data centers de médio e grande porte. A segunda é o NAV finance, em que a ARC empresta a outras gestoras tendo como garantia os ativos dos fundos delas. NAV vem de net asset value, o valor patrimonial líquido. Na prática, a modalidade dá liquidez a um fundo sem obrigá-lo a vender ativos.

A terceira tese é a de defesa. A ARC financia empresas que têm contratos com governos de rating AAA, mas encontram dificuldade para conseguir capital de giro num momento de alta nos gastos do setor. O instrumento é o invoice finance, ou seja, a antecipação de faturas emitidas contra esses governos. A reportagem cita como exemplo um banco italiano, que não financia empresa fora da Itália. Nesse espaço a ARC entra. A lógica é parecida com a da cessão de direitos creditórios que serve de lastro aos FIDCs (Fundos de Investimento em Direitos Creditórios) no Brasil: o crédito se apoia na qualidade do devedor final, e não só no balanço de quem vende o recebível.

A quarta tese, batizada de sniper shot, reúne operações de prazo curto, com gatilho em eventos específicos, que não cabem nas outras teses mas se encaixam no perfil de estruturação da casa.

Dos cerca de 500 milhões de euros (R$ 2,8 bilhões) que devem ser investidos até meados de 2027, considerando as tratativas mais avançadas, cerca de 150 milhões de euros devem ir para defesa. O restante será dividido entre NAV finance e data centers.

O que o movimento significa para o crédito privado

O argumento da ARC para competir na Europa é a flexibilidade. Segundo Senger, os grandes grupos de operações estruturadas olham apenas para negócios bilionários, o que abre espaço para cheques menores e mais ágeis. “Não falta capital na Europa, mas falta flexibilidade. A gente consegue fazer um desembolso em quatro ou cinco dias”, diz.

Para o mercado de crédito privado brasileiro, a notícia é positiva. Ela mostra que o know-how de estruturação, coinvestimento e análise de garantias, construído num ambiente de juros altos e crédito bancário escasso, é exportável. Dois dos produtos que a ARC leva à Europa, o financiamento lastreado em ativos de fundos e a antecipação de recebíveis de devedores de alta qualidade, conversam diretamente com a lógica dos FIDCs. Para investidores, a operação também amplia a diversificação geográfica e setorial de quem participa como coinvestidor.

Há riscos de execução a acompanhar. A tese de Genebra depende de fechar o contrato com o novo ocupante. O fechamento das demais aquisições depende de cronogramas que se estendem até 2027, e a estrutura usa bastante dívida.

O que acompanhar

Os próximos marcos são a assinatura do contrato de ocupação em Genebra, a aquisição na Alemanha até o fim do ano e as três operações na Noruega, na França e na Suécia no primeiro trimestre de 2027. Também vale acompanhar quanto da tese de defesa vai sair do papel, já que ela soma 150 milhões de euros. E o movimento pode servir de referência para outras casas brasileiras de crédito estruturado que avaliem levar sua expertise ao exterior.


Fontes: Pipeline Valor, “ARC Capital compra data center em sua estreia na Europa”, 21/10/2026 (https://pipelinevalor.globo.com/negocios/noticia/arc-capital-compra-data-center-em-sua-estreia-na-europa.ghtml)

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