Avelloz cria braço financeiro com FIDC e infraestrutura da QI Tech
Montadora de motos passa a financiar os próprios clientes por meio de um FIDC e fica com a margem de juros que antes ia para os bancos parceiros.

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A Avelloz, quinta marca em emplacamentos de motos no Brasil segundo a Fenabrave, lançou a Avelloz Finance, sua própria operação de financiamento. A operação não depende de licença bancária: o crédito é cedido a um FIDC (Fundo de Investimento em Direitos Creditórios) estruturado e administrado pela QI Tech, do qual a própria montadora é cotista. Para o mercado de crédito estruturado, é um caso concreto do FIDC como peça central do chamado banco de montadora “as a service”, modelo que a reportagem do Brazil Journal descreve como o primeiro do país.
Um mercado em expansão puxado pelo crédito
O mercado de motos vive um ciclo forte. O Brasil emplacou cerca de 2,2 milhões de motos novas em 2025, recorde histórico e alta de 17,1% sobre 2024. No primeiro semestre de 2026 foram cerca de 1,2 milhão de unidades, avanço de 14,1% na comparação anual, e a Fenabrave já projeta mais de 2,4 milhões de emplacamentos até dezembro.
Boa parte desse crescimento é sustentada pelo crédito. Só que o financiamento direto de veículos segue concentrado nos grandes bancos, e isso ajudou os consórcios a ganhar espaço como alternativa de acesso ao bem. Para fabricantes de médio porte, depender de bancos parceiros para fechar a venda tem um custo comercial claro: quando o crédito não é aprovado, ou demora, a venda se perde.
Os bancos de montadora tradicionais resolvem esse problema, mas exigem licença, capital regulatório e estrutura própria de crédito, uma barreira alta para marcas fora do topo do mercado. A Avelloz contorna essa barreira com outro desenho.
Como funciona a operação
A Avelloz Finance estará disponível nos mais de 460 pontos de venda da montadora, fundada em 2008. Nas lojas, os vendedores conseguem simular o financiamento, enviar a proposta e fechar a venda, com liberação dos recursos em minutos.
Por trás da operação, a QI Tech cuida de todo o ciclo do crédito: originação, motor de crédito automatizado, emissão da CCB (Cédula de Crédito Bancário), registro da garantia, antifraude, onboarding digital, assinatura eletrônica e, por fim, a cessão do crédito ao FIDC. A QI Tech atua como SCD (Sociedade de Crédito Direto) autorizada pelo Banco Central e tem licença de CTVM (Corretora de Títulos e Valores Mobiliários), o que permite que ela também estruture e administre o fundo.
O ponto central do modelo está na cessão. Cada CCB emitida vai para o FIDC, e a Avelloz participa do fundo como cotista. Com isso, o spread que antes ficava com os bancos parceiros passa a ser receita da própria montadora. A venda da moto deixa de ser o único resultado da operação, e a carteira de financiamentos vira uma nova fonte de receita recorrente.
A meta divulgada é vender 500 motos por mês por meio da Avelloz Finance.
O que dizem os executivos
O CEO da Avelloz, Jayme Siqueira, afirmou ao Brazil Journal que a empresa sempre vendeu motos, mas dependia de parceiros para fechar o financiamento, o que às vezes significava perder o cliente. Pedro Mac Dowell, fundador e CEO da QI Tech, disse que a empresa entrega o fluxo de crédito regulado enquanto a Avelloz mantém o relacionamento com o cliente.
As duas falas resumem a divisão de papéis que torna o modelo viável. A montadora controla a ponta comercial e o cliente. A infraestrutura regulada e o veículo de funding, o FIDC, ficam com um especialista.
O que isso significa para o mercado de FIDC
Para quem acompanha o mercado de FIDC, o caso mostra o fundo atuando como funding cativo de uma operação comercial e não só como instrumento de antecipação de recebíveis. É o mesmo raciocínio que vem levando varejistas, plataformas digitais e empresas de serviços a estruturar seus próprios fundos: transformar a carteira de clientes em ativo financeiro e capturar a margem de crédito que antes ia para terceiros.
A estrutura também traz pontos que o mercado vai monitorar. Ao ser cotista, a Avelloz passa a ter exposição direta ao desempenho da carteira. Inadimplência, recuperação de garantias e qualidade da originação nas lojas passam a afetar o resultado da montadora, e não apenas o de um banco parceiro. Em crédito de motos, um segmento com público de menor renda e uso profissional intenso, como entregadores, a calibragem do motor de crédito e a gestão da garantia são decisivas para a saúde do fundo.
Para investidores, operações desse tipo podem abrir espaço para novas emissões lastreadas em CCBs de veículos, com originação pulverizada e garantia real. O apetite dependerá do histórico de performance da carteira, ainda inexistente numa operação que acaba de começar.
Perspectivas
A Avelloz combina o lançamento da financeira com um plano de expansão mais amplo. A empresa apresentou nova identidade visual, anunciou o modelo AZ170 Bravo, que entra em um novo segmento no segundo semestre, fechou acordo para produzir 40 mil motos em uma nova fábrica em Manaus e investiu R$ 8,3 milhões em estoque de peças e pós-venda. O plano é sair da base no Nordeste e avançar para o Sul e o Sudeste.
Os próximos indicadores a observar são o ritmo de adesão da rede à Avelloz Finance, a distância entre o volume real e a meta de 500 motos por mês e o comportamento da carteira cedida ao FIDC nos primeiros ciclos de pagamento. Se o modelo funcionar, a tendência é que outras montadoras de médio porte, e fabricantes de outros bens financiáveis, sigam o mesmo caminho, ampliando a originação de recebíveis para a indústria de FIDCs.
Fontes: Brazil Journal, “Avelloz lança operação de financiamento de motos com infraestrutura da QI Tech” (8/10/2026): https://braziljournal.com/brands/avelloz-lanca-operacao-de-financiamento-de-motos-com-infraestrutura-da-qi-tech
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