Crédito privado ainda vai piorar antes de melhorar, avalia co-CEO da Canal Securitizadora
Para a co-CEO da Canal Securitizadora, o ciclo de inadimplência ainda não chegou ao fundo, e isso muda a forma de estruturar e analisar risco em FIDCs.

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A combinação de mais pedidos de recuperação judicial, pressão sobre o agronegócio e vendas desiguais no mercado imobiliário indica que a deterioração do crédito privado não é pontual. Para gestores e investidores de FIDCs (Fundos de Investimento em Direitos Creditórios), a leitura reforça a necessidade de rever a capacidade de pagamento dos devedores, a qualidade das informações e a governança das operações antes de ampliar exposição.
Um ciclo que ainda não terminou
O mercado de crédito privado vive um período de pressão sobre a qualidade dos ativos, e a expectativa de quem está do lado da estruturação é que o cenário se agrave antes de se estabilizar. A avaliação é de Nathalia Machado, co-CEO da Canal Securitizadora, em entrevista ao portal Crédito Privado 360 publicada nesta quarta-feira (14).
“Eu brinco que, para a gente melhorar, ainda vai piorar bastante”, afirmou a executiva. Segundo ela, o aumento dos pedidos de recuperação judicial e as dificuldades enfrentadas pelo agronegócio e pelo mercado imobiliário mostram que os problemas não estão concentrados em casos isolados.
Para a indústria de FIDCs, o diagnóstico tem consequência direta. Fundos que carregam direitos creditórios de empresas em dificuldade tendem a sentir primeiro o efeito sobre a inadimplência da carteira, o que pressiona a PDD (provisão para devedores duvidosos) e consome o colchão das cotas subordinadas, que absorvem as primeiras perdas antes das cotas sênior.
Agro e imobiliário no centro da pressão
No imobiliário, a executiva destaca que o desempenho das vendas varia de região para região, o que torna generalizações arriscadas. Para quem analisa recebíveis do setor, a origem geográfica dos créditos passa a pesar tanto quanto o perfil do originador.
No agronegócio, o quadro é de mais dificuldade para acessar e gerir crédito. O setor, historicamente apoiado por subsídios, enfrenta um ambiente menos favorável, e isso afeta diretamente estruturas lastreadas em recebíveis rurais.
Diante desse cenário, Nathalia aponta três pontos de atenção: a capacidade de pagamento dos devedores, a qualidade das informações disponíveis e os mecanismos de governança das operações. Para gestores de FIDCs, os três se traduzem em diligência mais rigorosa na cessão de crédito, monitoramento mais frequente da carteira e cláusulas de proteção mais robustas nos regulamentos.
Restrição do CMN e a migração do risco
A entrevista também trata da restrição do CMN (Conselho Monetário Nacional) à aquisição, por FIDCs, de determinados ativos judiciais sem decisão definitiva. Na avaliação da executiva, a limitação levou o mercado a buscar outras estruturas, como certificados de recebíveis e debêntures securitizáveis.
O ponto central do argumento é que restringir um veículo não elimina o risco do ativo. Ele pode simplesmente migrar para instrumentos com menos controles. Para a indústria de FIDCs, isso significa perder parte de um mercado sem que o sistema como um todo fique mais seguro.
“Quanto menos a gente criar regras e mais a gente criar um enforcement, mais fiscalização, melhor a gente vai estar”, disse Nathalia. A prioridade, na visão dela, deveria ser fortalecer a supervisão e a aplicação das regras já existentes, além de coibir desvios de conduta, em vez de criar novas normas.
A executiva também chama atenção para o peso dos materiais publicitários de produtos financeiros. Segundo ela, essas peças podem influenciar mais os investidores do que documentos formais, como prospectos e lâminas, e por isso merecem atenção maior da supervisão.
SCR integrado como ferramenta de precificação
Outra frente defendida por Nathalia é a consolidação de informações de crédito no SCR (Sistema de Informações de Crédito do Banco Central). Hoje, as dívidas estão dispersas em diferentes fontes, o que dificulta medir o endividamento total de um tomador.
Com a integração, seria possível identificar compromissos, atrasos e obrigações em várias instituições ao mesmo tempo. A executiva vê benefício especial em dois segmentos: na identificação de dívidas de produtores rurais pessoas físicas e no endividamento de SPEs (sociedades de propósito específico) do setor imobiliário, justamente os dois mercados que concentram a pressão atual.
Para os FIDCs, um quadro mais completo do devedor tem efeito prático. Credores e estruturadores avaliariam melhor o risco e o custo de financiamento, e as análises jurídicas e financeiras que antecedem uma emissão ficariam mais ágeis. Em um mercado em que o retorno depende da precisão da análise de crédito, mais informação significa precificação mais justa e menos surpresa na carteira.
O que monitorar daqui em diante
A leitura da Canal Securitizadora sugere que os próximos meses devem exigir disciplina redobrada de quem origina, estrutura e investe em crédito privado. Os indicadores a acompanhar são o ritmo dos pedidos de recuperação judicial, a saúde financeira do agronegócio e o comportamento regional das vendas imobiliárias.
No campo regulatório, o debate entre criar novas regras ou reforçar a fiscalização das existentes tende a ganhar espaço, assim como a discussão sobre a integração de dados no SCR. Para a executiva, mais transparência sobre obrigações financeiras tornaria o mercado de capitais mais eficiente em um momento de maior pressão sobre o crédito. Para os FIDCs, que dependem da qualidade da informação sobre o devedor, essa pode ser a mudança de maior impacto no médio prazo.
VÍDEO COMPLETO: https://www.youtube.com/watch?v=tTzpyBrmowM
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