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Credores da Fictor adiam assembleia e plano passa a depender de FIDC ligado ao Master

Fictor quer pagar parte de dívida bilionária com cotas de um FIDC ligado ao ecossistema do Master.

FIDC NEWSFIDC NEWS 4 min de leituraSem comentários

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O Grupo Fictor ganhou mais tempo para reorganizar uma dívida declarada de cerca de R$ 4,3 bilhões. Na assembleia desta quarta-feira (14), os credores suspenderam a votação do plano de recuperação judicial. A empresa propôs usar recebíveis do Krispy, um FIDC (Fundo de Investimento em Direitos Creditórios) com origem ligada ao Banco Master, e a proposta colocou no centro do debate a qualidade dos ativos que dão lastro a fundos de direitos creditórios.

Contexto: da tentativa de comprar o Master à recuperação judicial

A Fictor pediu recuperação judicial em 2 de fevereiro de 2026, depois de uma crise financeira ligada à tentativa de comprar o Banco Master, liquidado pelo Banco Central em novembro de 2025. O processo corre na 3ª Vara de Falências e Recuperações Judiciais de São Paulo, teve o processamento aprovado em 17 de abril e tem a Laspro Consultores como administradora judicial.

O primeiro plano, protocolado em 23 de junho, enfrentou resistência. A proposta dava duas opções aos credores. Na primeira, eles virariam cotistas de um fundo com ativos do grupo, sem retorno mínimo nem prazo definido. Na segunda, receberiam pagamento prioritário caso a empresa captasse até R$ 150 milhões em financiamento DIP (crédito concedido a empresas em recuperação judicial). Se essa captação não saísse em 18 meses, os créditos sofreriam deságio de 95%. O plano também previa extinguir avais e fianças de sócios e terceiros. Na época, o advogado Vitor Mello, que representa um credor, chamou a proposta de “tentativa de calote legalizado”.

O fato central: assembleia suspensa e o Krispy na mesa

A assembleia de 14 de outubro reuniu 4.782 credores habilitados, com cerca de R$ 1,4 bilhão em créditos. A primeira convocação, em 6 de outubro, não teve quórum. Desta vez, 86,49% dos credores presentes aprovaram a suspensão, e a retomada ficou marcada para 4 de dezembro. Também foi aprovada, com 90% dos votos, a criação de um comitê de credores para acompanhar o processo. A empresa tem até 18 de novembro para protocolar o plano revisado.

A novidade foi a proposta apresentada pelo advogado Daniel Machado Amaral: usar valores a receber do Krispy FIDC para pagar os credores. Pela estrutura sugerida, uma sociedade de propósito específico receberia esses recebíveis e repassaria os valores aos credores conforme o dinheiro entrasse. Ao mesmo tempo, a Fictor pagaria parte das dívidas com a receita da operação, sem interromper as atividades.

Mas o ativo tem pendências. A Fictor diz que comprou e pagou as cotas do fundo, mas a transferência para o seu nome ainda não foi concluída. A participação está ligada a um negócio de R$ 500 milhões, fechado em 16 de outubro de 2025 com a Titan Capital Holding, empresa das Ilhas Cayman associada a Daniel Vorcaro. Além disso, o administrador do fundo foi liquidado pelo Banco Central em setembro, o que obriga a Fictor a negociar com os liquidantes ou buscar a Justiça. A empresa afirma que não fez operações financeiras diretamente com o Master.

Análise: o que os números do Krispy mostram

Para quem acompanha o mercado de FIDC, o caso é um exemplo claro da diferença entre carteira e patrimônio. Segundo informes enviados à CVM, a carteira do Krispy soma perto de R$ 5 bilhões, em sua maioria direitos creditórios. Já o patrimônio líquido caiu de R$ 408,2 milhões em janeiro para R$ 42,8 milhões em fevereiro, uma queda de 89,5%. A queda veio de uma provisão (PDD) de aproximadamente R$ 400,4 milhões. Em agosto, o patrimônio estava em R$ 42,6 milhões, cerca de 1% da dívida declarada da Fictor.

O lastro aumenta a incerteza. A carteira reúne pedidos de indenização de usinas de açúcar e etanol contra a União, por perdas atribuídas ao controle federal de preços nas décadas de 1980 e 1990. Esses créditos estão sob pressão: em setembro, o TRF-2 anulou uma condenação de R$ 3,35 bilhões a favor da Usina São João, uma das origens citadas na carteira, e mandou refazer os cálculos. No STF, o ministro Gilmar Mendes enviou ao plenário um caso sobre precatórios de usinas ligado ao Tema 826, e a Corte exige prova individual do prejuízo. A corregedoria do CNJ cancelou cerca de R$ 6,6 bilhões em precatórios do TRF-1 em setembro, embora não esteja confirmado que esses créditos pertençam ao Krispy.

Na leitura de analistas do mercado de crédito estruturado, um plano que depende de cotas ainda não transferidas, de um fundo com o administrador em liquidação e de créditos judiciais contestados transfere para os credores um risco jurídico difícil de precificar. Na própria assembleia, parte dos credores questionou a capacidade de pagamento da Fictor e pediu mais detalhes sobre recursos disponíveis e garantias.

Perspectivas: o que monitorar até dezembro

O calendário é apertado. As objeções ao plano protocolado vencem em 29 de outubro, o plano revisado precisa chegar até 18 de novembro e a assembleia volta em 4 de dezembro. Pela Lei 11.101/2005, a assembleia pode ser suspensa, mas precisa ser concluída em até 90 dias após a instalação.

Até lá, três pontos devem definir o caso: se a Fictor consegue concluir a transferência das cotas do Krispy junto aos liquidantes, como evoluem as decisões do STF e do CNJ sobre os créditos de usinas e se o novo plano mantém a extinção das garantias pessoais. Para gestores e investidores de FIDC, o caso reforça a importância da diligência sobre o lastro: o valor de face de uma carteira de direitos creditórios diz pouco sobre o que realmente pode virar caixa.


Fontes: Valor Econômico

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