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Deságio na antecipação de recebíveis sobe a 2,92% ao mês, maior alta da série

Crédito mais caro na ponta, mesmo com a Selic em queda, acende o alerta para a originação dos FIDCs.

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O custo médio para antecipar duplicatas e recebíveis subiu de 2,74% para 2,92% ao mês em setembro. É a maior alta mensal desde o início do levantamento, em setembro de 2025. O avanço veio no mesmo período em que o Copom cortou a Selic de 14,00% para 13,75% ao ano. Para quem compra recebíveis, o recado é claro: neste momento, o preço do crédito para as empresas responde mais ao risco da economia real do que à política monetária.

Um corte de juros que não chegou à ponta

O dado é da Quick Soft, empresa de tecnologia para o mercado de crédito. Ela tem mais de 1.200 clientes institucionais e, somando as adquiridas Finanblue e RGBtec, processa mais de R$ 400 bilhões em operações por ano. O levantamento acompanha o deságio, ou seja, o desconto aplicado sobre o valor de face de um título para antecipá-lo. Também mede o volume operado por cliente e o prazo médio das operações de antecipação.

A alta de 0,18 ponto percentual em um único mês levou o deságio ao maior patamar desde dezembro de 2025. Em tese, uma Selic menor baratearia o funding de quem compra recebíveis e, por consequência, as taxas cobradas do cedente. Isso não aconteceu. A explicação está no componente de risco: quando a percepção de inadimplência sobe, o prêmio exigido pelo comprador do crédito cresce mais do que o alívio no custo do dinheiro.

Os indicadores de atividade apontam na mesma direção. Em setembro, o PMI Composto da S&P Global para o Brasil ficou em 47,4 pontos, o terceiro mês seguido abaixo da linha de 50, que separa expansão de contração. O PMI Industrial marcou 44,8 pontos e o de Serviços, 49,2. A Confiança Empresarial da FGV caiu pelo terceiro mês consecutivo, para 89,3 pontos, e seu componente de situação atual está no menor nível desde fevereiro de 2022. No comércio, a confiança chegou a 81,3 pontos, o menor patamar desde março de 2021. A produção industrial do IBGE recuou 0,6% em agosto, com queda em 16 dos 25 ramos da indústria de transformação.

Menos volume, prazos mais longos

Os números operacionais reforçam o quadro de desaceleração. O volume médio antecipado por cliente caiu 2,8% em setembro na comparação com agosto e interrompeu dois meses de crescimento: julho tinha subido 0,9% e agosto, 2,9%.

O prazo médio das operações subiu de 49,20 para 50,80 dias, um aumento de 1,6 dia. O número ainda está dentro da faixa histórica de 48 a 51 dias registrada desde setembro de 2025, mas fica longe dos 46,50 dias de julho, que foram um ponto fora da curva. Na prática, prazos mais longos indicam que as empresas estão demorando mais para receber de seus clientes e recorrem à antecipação para cobrir um ciclo de caixa mais esticado.

O Banco Central aponta na mesma direção. A pesquisa de condições de crédito da autoridade monetária indicou concessão restritiva no terceiro trimestre de 2026. O aumento do risco de inadimplência aparece como o principal obstáculo à oferta.

O que muda para os FIDCs

Para os FIDCs (Fundos de Investimento em Direitos Creditórios) lastreados em duplicatas comerciais, assim como para factorings e securitizadoras, o cenário tem dois lados. O positivo é que deságios mais altos elevam a rentabilidade bruta das carteiras compradas agora e abrem espaço para remunerar melhor as cotas, sobretudo as subordinadas, que absorvem as primeiras perdas.

O negativo pesa mais na originação. Com vendas mais fracas, as empresas geram menos recebíveis elegíveis, e o volume disponível para cessão diminui. Ao mesmo tempo, taxas acima de 2,9% ao mês ficam difíceis de absorver para fornecedores menores, que operam com margens apertadas. Esse é justamente o perfil de cedente que mais depende da antecipação. Se o custo do crédito comer a margem do sacado ou do cedente, o risco de inadimplência sobe e pode exigir provisões (PDD) maiores e critérios de elegibilidade mais rígidos.

Segundo o levantamento, executivos do mercado de securitização relatam que os investidores passaram a exigir prêmios de risco maiores. Isso tende a pressionar a estrutura de capital dos fundos e o nível de subordinação exigido nas novas emissões.

Duplicata escritural como resposta estrutural

Nesse ambiente, o registro eletrônico das duplicatas ganha peso. Executivos do setor de securitização consideram indispensável a migração para sistemas escriturais ligados a registradoras autorizadas pelo Banco Central. O registro centralizado impede que a mesma nota seja negociada mais de uma vez e garante a unicidade do ônus sobre o título, uma das principais fontes de fraude nas carteiras de recebíveis.

Para o gestor de FIDC, a duplicata escritural reduz o risco operacional da carteira e, com isso, pode ajudar a reduzir o próprio deságio. Quanto menor a incerteza sobre a existência e a exclusividade do crédito cedido, menor o prêmio que o comprador precisa cobrar.

O que monitorar

A tendência dos próximos meses vai depender de o ciclo de queda da Selic conseguir chegar ao crédito na ponta antes que a desaceleração eleve a inadimplência. Para quem opera FIDCs de recebíveis comerciais, há quatro sinais a acompanhar: a trajetória do deságio, a recuperação ou não do volume por cliente, o prazo médio das operações e os próximos PMIs. Até lá, a palavra de ordem é seletividade: as taxas mais altas pagam mais, mas exigem um olhar ainda mais atento à qualidade do cedente e do sacado.


Fontes: Portal do Fomento, “Deságio em antecipação de recebíveis atinge 2,92% ao mês e reflete desaceleração econômica” (13/10/2026), com dados da Quick Soft. https://www.portaldofomento.com.br/noticia.php?id=10150&id_ncat=3

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