Desenvolve SP e Möbius lançam FIDC de R$ 70 milhões para financiar data centers
Agência de fomento fica com a cota sênior, gestora absorve o primeiro risco e o crédito chega à infraestrutura digital do interior paulista.

As notícias de FIDCs e crédito estruturado, direto no seu e-mail.
A Desenvolve SP e a gestora Möbius Capital estão lançando um FIDC (Fundo de Investimento em Direitos Creditórios) de R$ 70 milhões para financiar empresas de infraestrutura digital no Estado de São Paulo. O alvo são provedores regionais de internet e operadores de data centers de pequeno porte, especialmente em cidades do interior com menor oferta de conectividade e serviços tecnológicos. A operação reúne capital público e privado em uma mesma estrutura e amplia o uso do FIDC como ferramenta de política de desenvolvimento.
Um segmento em consolidação e com pouco acesso a crédito
Provedores regionais de internet e pequenos operadores de data center formam um mercado que, segundo a reportagem do Valor Econômico, passa por um processo de consolidação. São empresas que dependem de investimento contínuo em equipamentos e expansão de rede e que, por atuarem fora dos grandes centros, nem sempre encontram linhas de crédito compatíveis com o seu porte e o seu ciclo de caixa.
É nesse espaço que o FIDC ganha função. Ao comprar direitos creditórios, o fundo transforma o fluxo de recebíveis dessas empresas em fonte de financiamento, sem depender exclusivamente do balanço do tomador. Para o mercado de crédito estruturado, a operação abre uma nova frente de originação em um setor ligado à economia digital, com lastro em contratos recorrentes de clientes de internet.
A Möbius chegou ao negócio por meio de uma chamada pública da Desenvolve SP voltada a FIDCs e FIPs (fundos de investimento em participações). A proposta passou por análise de elegibilidade, diligência e aprovação pelo comitê de investimentos da agência de fomento. Segundo Roberto Savaris, sócio e fundador da gestora, a casa já atua no financiamento de aquisições de provedores de internet e na estruturação de operações no mercado de capitais para empresas do setor.
Como o fundo foi estruturado
A agência de fomento paulista subscreverá R$ 50 milhões em cotas seniores, o equivalente a 71,4% do patrimônio previsto para o FIDC. A Möbius ficará com R$ 20 milhões em cotas subordinadas, ou 28,6% do total.
A divisão define quem assume o risco e quem recebe primeiro. As cotas subordinadas absorvem primeiro eventuais perdas da carteira e funcionam como uma camada de proteção para as cotas seniores, que têm prioridade no recebimento de amortizações e rendimentos, conforme as regras do fundo. Na prática, a gestora assume a primeira parcela do risco de crédito das operações, enquanto a Desenvolve SP ocupa a posição prioritária na distribuição dos recursos.
Uma subordinação de 28,6% é um colchão relevante para o cotista sênior. Para que a cota da agência de fomento sofra perdas, a inadimplência da carteira precisaria consumir antes toda a parcela subordinada. Ao mesmo tempo, o fato de a própria gestora ser a titular da subordinada alinha interesses: a Möbius só preserva o seu capital se originar e acompanhar bem os créditos.
No lado dos ativos, o fundo poderá antecipar recebíveis de clientes dos provedores de internet, tanto pessoas físicas quanto jurídicas, além de financiar a aquisição de equipamentos e projetos de expansão da infraestrutura tecnológica. Também estão previstas operações relacionadas à compra e à fusão de empresas.
O que a operação sinaliza para o mercado de FIDC
O principal recado é o modelo. Para Ricardo Brito, diretor-presidente da Desenvolve SP, a operação busca ampliar o acesso ao crédito para negócios inovadores por meio da combinação de capital público e privado. “Por meio do ‘blended finance’, conseguimos atrair investimento privado, potencializar o impacto do recurso público e alcançar mais empreendedores”, afirmou.
O blended finance, ou finanças combinadas, usa recursos públicos para tornar viáveis operações que o capital privado sozinho teria dificuldade de estruturar. Neste FIDC, o ente público fica com a cota protegida e o privado assume o risco de primeira perda. Para o recurso público, a estrutura reduz a exposição a perdas. Para a gestora, garante funding sênior com escala para uma tese que ela já conhece.
Para o mercado de FIDC, isso significa um novo canal de captação. Agências de fomento passam a atuar como investidoras âncora de cotas seniores, desde que a gestora tenha tese setorial, capacidade de originação e disposição para colocar o próprio capital na subordinada. Para os provedores, o benefício é o acesso a crédito estruturado em um momento em que a consolidação do setor exige capital para comprar, fundir e expandir.
O ponto de atenção está na concentração. A carteira será focada em um único setor e em empresas de pequeno porte, o que torna o monitoramento de crédito e a disciplina de originação decisivos para o desempenho do fundo.
O que acompanhar a partir de agora
Os próximos passos a monitorar são a velocidade de alocação dos R$ 70 milhões, o perfil das primeiras operações, entre antecipação de recebíveis, financiamento de equipamentos e aquisições, e o comportamento da inadimplência da carteira ao longo do tempo.
Também vale observar se a chamada pública da Desenvolve SP voltada a FIDCs e FIPs vai gerar novas estruturas semelhantes em outros setores. Se o modelo de cota sênior pública e subordinada da gestora se mostrar eficiente, ele pode se tornar uma referência para gestoras de crédito estruturado que buscam funding de longo prazo para teses setoriais fora dos grandes centros.
Newsletter FIDC News
Não perca a próxima edição
As movimentações do mercado de FIDCs, securitização e recebíveis, com a análise do FIDC News, no seu e-mail.
Gratuita. Você cancela quando quiser. Veja a Política de Privacidade.

O .fidcnews é um veículo digital focado em notícias e análises sobre Fundos de Investimento em Direitos Creditórios (FIDC), com o propósito de tornar acessíveis os dados e tendências do mercado de crédito estruturado. Nossas matérias devem ser entendidas como boletins informativos e divulgadores de insights setoriais, não configurando recomendação de investimento.
Comentários
Ainda não há comentários. Seja o primeiro a comentar.
Deixe um comentário
Seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *








