Fim da escala 6x1 pressiona margens e muda a conta do capital de giro
Fim da escala 6x1 encarece a folha, comprime margens e pode aumentar a procura por antecipação de recebíveis.

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Com a PEC que extingue a escala 6x1 já promulgada, a jornada semanal cai de 44 para 40 horas até dezembro de 2027. Varejo, saúde, alimentação e terceirização refazem as contas de folha, Ebitda e operação. Para os FIDCs (Fundos de Investimento em Direitos Creditórios), a mudança afeta diretamente a saúde financeira de cedentes e sacados em alguns dos setores que mais originam recebíveis no país.
Uma mudança que atinge 14,9 milhões de trabalhadores
A emenda constitucional reduz a carga semanal de 44 para 40 horas e garante dois dias de descanso. A transição é gradual, e a jornada de 40 horas deve valer até dezembro de 2027. Pela estimativa do Ministério do Trabalho e Emprego, cerca de 14,9 milhões de trabalhadores estão hoje na escala 6x1.
O impacto não se distribui de forma igual. Segundo estudo da FGV-Ibre citado pelo NeoFeed, a jornada média semanal já é de 43 horas no comércio e de 43,4 horas nos transportes. Por estarem perto do limite atual, esses setores têm pouca margem de manobra. No cenário mais severo, o estudo projeta alta de até 20% no custo da mão de obra e retração de até 2,9% do PIB, além de perdas de produtividade.
O Banco Safra, em relatório publicado em 19 de outubro, aponta pressão sobre os custos trabalhistas no setor de saúde a partir do fim de 2026, com alta acumulada de 10% em relação à força de trabalho originalmente exposta ao regime depois que a jornada de 40 horas entrar em vigor. Hospitais, clínicas e operadoras dependem de equipes contínuas e de operação 24 horas.
O que as empresas já estão calculando
Na Pague Menos, que tem 1.700 lojas e 28 mil funcionários, a conta começa pela regulação: a drogaria precisa ter farmacêutico presente durante todo o horário de funcionamento, o que exige cerca de quatro profissionais por dia em cada loja. A rede testa novas escalas e pode reduzir o número de unidades 24 horas. “Tenho necessidade de arrumar as escalas e de contratar mais pessoas”, afirmou o CEO Jonas Marques. “Há lugares em que vou precisar ter mais gente. Mas hoje ninguém está com isso fechado.”
O Giraffas, com 400 lojas, estima alta de cerca de 12% na folha, o equivalente a aproximadamente 5% dos custos totais. A rede avalia a escala 12x36, que já é usada em cerca de 20% da operação. “Seria necessário mais um acordo coletivo”, disse o CEO Carlos Guerra.
Na terceirização, a pressão recai sobre os contratos. A Resolv, empresa de facilities com cerca de 10 mil funcionários, projeta aumento de 7% a 10% no quadro e impacto de cerca de 7% nos custos, sem intenção de repassar a alta aos contratos. A empresa negocia alternativas, inclusive automação, com mais de 500 clientes. “Não tem como fazer isso, claro, sem criar parcerias com os clientes”, afirmou Douglas Imforzato, diretor de gente e gestão. A mesma lógica vale para grandes contratantes: a Petrobras tem cerca de 50 mil empregados diretos, mas perto de 130 mil terceirizados, o grupo mais exposto à mudança.
No varejo de moda, uma rede que não quis se identificar projeta impacto negativo de 6% a 7% no Ebitda caso não adote nenhuma medida, e planeja levar o self-checkout a 60% a 70% das lojas. Outra varejista, com mais de 100 lojas, pretende reorganizar escalas sem demitir nem contratar.
O que isso significa para os FIDCs
Os números ajudam a ver o efeito sobre o crédito estruturado. Varejo, saúde, alimentação e serviços terceirizados estão entre os segmentos que mais originam duplicatas, recebíveis de cartão e contratos de prestação de serviço, lastros comuns nas carteiras de FIDC. Quando a folha sobe 12% em uma rede de alimentação ou o Ebitda de uma varejista pode recuar até 7%, a capacidade de pagamento de cedentes e sacados muda.
O efeito tem dois lados. Empresas com folha mais cara e margem menor tendem a precisar de mais capital de giro durante a transição, o que pode aumentar a procura por antecipação de recebíveis e por estruturas de cessão de crédito. Para as casas de crédito, isso significa mais originação potencial em setores intensivos em mão de obra.
Por outro lado, o mesmo movimento pode pressionar a qualidade das carteiras. Prestadores de serviço que absorvem a alta de custos sem repassá-la aos contratos, como sinalizou a Resolv, ficam com margens mais apertadas. Em fundos com concentração em cedentes de facilities, varejo ou saúde, isso exige mais atenção à análise de crédito, à PDD (provisão para devedores duvidosos) e ao colchão das cotas subordinadas.
O que monitorar até 2027
O ritmo da adaptação vai depender de acordos coletivos, da adoção de automação e da capacidade de repasse a preços e contratos. Escalas alternativas como a 12x36, o self-checkout e a redução de horários de funcionamento devem aparecer nos resultados das empresas nos próximos trimestres.
Para gestores e investidores de FIDC, os pontos de atenção são a evolução das margens dos cedentes nos setores mais expostos, a renegociação de contratos de terceirização e qualquer mudança no perfil de inadimplência das carteiras com lastro em varejo, saúde e serviços. A transição até dezembro de 2027 deve separar as empresas que conseguem reorganizar a operação daquelas que vão financiar a diferença com crédito.
Fontes: NeoFeed, “O xadrez dos CEOs para equilibrar as contas com o fim da escala 6x1” (20/10/2026), https://neofeed.com.br/negocios/o-xadrez-dos-ceos-para-equilibrar-as-contas-com-o-fim-da-escala-6x1/
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