Itaú compra 35% da Prisma Capital e mira expansão dos ativos alternativos
Itaú entra no capital da Prisma sem levar voto e reforça a aposta dos bancos em crédito estruturado.

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João Mendes, Marcelo Hallack e Lucas Canhoto, da Prisma — Foto: Divulgação
Com R$ 28 bilhões sob gestão, a Prisma Capital recebe aporte 100% primário do Itaú Unibanco para acelerar plataformas de originação de crédito. Os fundadores mantêm o controle e todo o capital votante. Para o mercado de FIDCs e de crédito estruturado, o movimento sinaliza que grandes bancos querem exposição ao segmento sem absorver a operação.
Um banco de varejo de olho nos alternativos
O Itaú Unibanco vai ficar com 35% da Prisma Capital, gestora de investimentos alternativos fundada em 2017 por Marcelo Hallack, João Mendes e Lucas Canhoto. O valor da operação não foi divulgado. O negócio ainda depende de aprovação do Cade e do Banco Central.
A Prisma tem patrimônio sob gestão de cerca de R$ 28 bilhões. A casa não divulga a divisão por estratégia, mas diz que a maior parte está em private equity, crédito privado e claims (direitos e ativos judiciais). Desde a fundação, investiu mais de R$ 14 bilhões em 120 transações e já realizou mais de R$ 13 bilhões.
A especialidade da gestora são structured equity e structured credit, operações em que pode receber participação no capital de empresas refinanciadas ou participações conversíveis em crédito via opções de venda. A própria Prisma prefere chamar essa frente de “capital solutions” em vez de “special situations”.
O desenho da operação
O formato chama atenção. O aporte é integralmente primário, feito em ações preferenciais sem direito a voto. Nenhum sócio vendeu participação, e todo o dinheiro vai para o caixa da empresa. Os três fundadores ficam com os 65% restantes e com a totalidade do capital votante.
O Itaú não terá assento no conselho de administração nem no comitê de investimentos. Segundo Mendes, a companhia segue administrada como hoje, e a transação foi desenhada justamente para preservar a independência da gestora. A Prisma continuará fazendo negócios com outros bancos, e as operações com o Itaú seguirão como “transações de mercado”.
Não houve processo competitivo nem assessor financeiro. A negociação começou há cerca de seis meses e nasceu da relação entre as duas instituições: a Prisma já havia vendido ao Itaú a corretora de seguros Avita e fez outros negócios com o banco. A assessoria jurídica da Prisma ficou com o Pinheiro Guimarães Advogados.
Para onde vai o dinheiro e o que isso diz ao mercado de crédito
Os recursos têm dois destinos principais. O primeiro é aumentar o volume que a própria gestora investe nos fundos que capta, o chamado alinhamento de capital próprio, que costuma ser bem visto por cotistas institucionais. O segundo é desenvolver e adquirir plataformas de originação de crédito.
Hoje o grupo já opera plataformas de consignado privado e público, de compra de ativos judiciais e de originação de cotas sêniores. Uma securitizadora pode estar no radar, embora Mendes não tenha citado alvos de aquisição.
Para quem acompanha o mercado de FIDC (Fundo de Investimento em Direitos Creditórios), a leitura é direta. Originação própria é o ativo mais disputado da indústria: quem controla a geração do crédito controla a qualidade da carteira cedida, o ritmo de crescimento dos fundos e a margem da operação. Consignado, precatórios e cotas sêniores são justamente lastros recorrentes em estruturas de direitos creditórios. Uma gestora com mais capital para comprar ou montar originadores tende a ganhar escala e a disputar espaço com outras casas especializadas.
A mudança na base de investidores reforça esse quadro. Antes restrita a investidores institucionais nos fundos principais, a Prisma passou a atender também fundos de previdência e seguradoras, perfis que buscam retorno acima da renda fixa tradicional com prazos longos e que costumam olhar com atenção para crédito estruturado.
O que pode vir a seguir
Segundo Mendes, para o Itaú a operação é uma aposta no crescimento dos alternativos no Brasil, em linha com o que ocorreu nos Estados Unidos, onde gestoras de crédito privado ganharam peso e passaram a disputar com bancos o financiamento de empresas.
Para o mercado, há três pontos a acompanhar. O primeiro é a aprovação do Cade e do Banco Central. O segundo são as aquisições de plataformas de originação, especialmente uma eventual securitizadora, que ampliaria a capacidade de estruturar operações. O terceiro é se outros grandes bancos vão replicar o modelo de participação minoritária sem controle, que dá ao banco exposição ao crescimento do crédito estruturado sem trazer a operação para dentro do balanço de governança.
Se o modelo se espalhar, gestoras independentes de crédito tendem a ganhar fôlego financeiro para crescer, e a competição por originação, insumo central dos FIDCs, deve ficar mais intensa.
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