Recuperações judiciais no agro caem 20,7% no 2º tri e aliviam carteiras de crédito rural
Menos pedidos de recuperação judicial no campo trazem alívio a quem financia o agro, mas o próprio levantamento diz que o ambiente continua difícil.

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Os pedidos de recuperação judicial (RJ) no agronegócio caíram de 565 para 448 entre o segundo trimestre de 2025 e o de 2026, segundo a Serasa Experian. A queda vem depois de três anos seguidos de alta. Para FIDCs com recebíveis do agro, é o primeiro sinal concreto de que a pressão sobre as carteiras pode estar diminuindo. Ainda é cedo, porém, para dizer que o risco mudou de patamar.
Contexto: três anos de alta e carteiras sob pressão
Os dados foram divulgados pela Serasa Experian na segunda-feira, 19 de outubro. Eles cobrem os pedidos de RJ feitos entre abril e junho de 2026. O resultado interrompe a sequência de alta registrada no segundo trimestre de 2023, 2024 e 2025. Nesse período, o pedido de recuperação judicial deixou de ser raro no campo e passou a fazer parte da rotina de quem empresta ao setor.
Para os FIDCs (Fundos de Investimento em Direitos Creditórios), essa rotina custa caro. Nos fundos que compram recebíveis de produtores, revendas de insumos, tradings e agroindústrias, um pedido de RJ costuma suspender as cobranças. Ele também trava a execução de garantias e obriga a reforçar a PDD (provisão para devedores duvidosos). Quando o devedor é relevante na carteira, o efeito chega às cotas subordinadas, que absorvem as primeiras perdas e protegem a cota sênior.
Na comparação com o trimestre imediatamente anterior, o movimento também é de queda. O primeiro trimestre de 2026 somou 474 pedidos, e o segundo ficou 5,5% abaixo.
O que mudou: produtor rural PJ puxa a queda
A maior redução aconteceu entre os produtores rurais pessoa jurídica (PJ). Foram 160 pedidos no segundo trimestre, contra 243 um ano antes, uma queda de 34,2%. No primeiro trimestre de 2026, eram 196. A soja segue no topo, com 70 pedidos, seguida por pecuária bovina (28), cana-de-açúcar (15), café (13) e cereais (12).
Entre os produtores rurais pessoa física (PF), o recuo foi menor. Foram 197 pedidos, contra 220 no mesmo período de 2025, uma queda de 10,5%. Na comparação com o primeiro trimestre, porém, houve alta de 8,2%, já que eram 182. Por categoria, os produtores sem propriedades lideram, com 70 pedidos. Em seguida vêm os grandes proprietários (51), os pequenos (39) e os médios (37).
As demais empresas da cadeia pediram 91 recuperações judiciais, contra 102 um ano antes, um recuo de 10,8%. Os serviços de apoio à agricultura lideram, com 26 pedidos. Depois aparecem o processamento agroindustrial primário (20), o atacado de produtos agrícolas primários (18) e as revendas de insumos, exceto máquinas agrícolas (10).
Os pedidos continuam concentrados geograficamente. Mato Grosso teve 107 pedidos, ou 23,9% do total. Goiás vem em seguida, com 84 (18,8%), à frente de São Paulo (72), Minas Gerais (54) e Paraná (42). Os cinco estados somam 359 pedidos, cerca de 80% do País. Mato Grosso lidera tanto entre os produtores PF (49, à frente dos 46 de Goiás) quanto entre os PJ (54, à frente de São Paulo, com 28, e Goiás, com 22).
Análise: alívio, mas sem euforia
Marcelo Pimenta, head de agronegócio da Serasa Experian, recomenda cautela. Segundo ele, a queda pode estar ligada à sazonalidade e às renegociações com credores, e não indica necessariamente uma melhora na saúde financeira dos produtores. Pimenta afirma que o ambiente de negócios “segue desafiador” e que a recuperação judicial “deve permanecer como último recurso”.
Para o investidor de FIDC, a leitura é dupla. O lado positivo é que menos pedidos de RJ significam menos cobranças suspensas e menos necessidade de reforçar provisões. Também tende a haver menos disputa judicial sobre garantias, como penhor de safra e alienação fiduciária de imóveis rurais. O lado de atenção é que parte da queda pode vir de dívidas renegociadas, e não de dívidas quitadas. Nesse caso, o risco foi adiado, e não eliminado. Isso exige que o investidor acompanhe de perto as renegociações dentro das carteiras.
A alta de 8,2% nos pedidos de produtores PF em relação ao primeiro trimestre também merece atenção. Mostra que a melhora não alcançou todos os perfis de devedor. A concentração em Mato Grosso e Goiás, por sua vez, reforça a importância de diversificar a carteira por região e por cultura, principalmente nos fundos com exposição relevante à soja.
Perspectivas: o que monitorar
O próximo passo é ver se a queda se mantém no terceiro trimestre. Se o recuo continuar, a melhora deixa de parecer sazonal e passa a sugerir uma mudança real de tendência. Se o número voltar a subir, o segundo trimestre terá refletido apenas renegociações e um calendário de pagamentos mais favorável.
Até lá, a recomendação para quem estrutura ou investe em FIDCs do agro é manter a análise de crédito rigorosa e acompanhar com atenção o índice de subordinação dos fundos. Também vale monitorar de perto as carteiras renegociadas. A curva pode estar começando a virar, mas o próprio levantamento mostra que o setor ainda não saiu do período de pressão.
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