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Zera destrava R$ 2 bilhões para o agro e mira gestão de FIDCs e Fiagros em 2027
Em menos de dois anos, a casa de crédito estruturado fundada por Octaciano Neto já levou mais de R$ 2 bilhões do mercado de capitais ao campo e agora quer passar a gerir os fundos que estrutura.

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O crédito rural brasileiro, que por décadas dependeu sobretudo de recursos públicos, está mudando de dono. A Zera, que estrutura operações para cooperativas, indústrias e revendas do agronegócio, ajuda a explicar como o capital privado entra no campo por meio de FIDCs e Fiagros, e por que governança e análise de risco por cultura se tornaram decisivas para quem compra esses ativos.
Do Tesouro à Faria Lima: a nova fonte do crédito rural
Durante décadas, o financiamento do agronegócio no Brasil dependeu basicamente do dinheiro público. Hoje uma parte cada vez maior desse crédito vem do capital privado, por meio de instrumentos como o FIDC (Fundo de Investimento em Direitos Creditórios) e o Fiagro (fundo de investimento nas cadeias produtivas agroindustriais).
Essa migração cria uma demanda nova: alguém precisa traduzir a realidade financeira de uma cooperativa ou de uma indústria do campo para a linguagem que gestoras e fundos conseguem analisar e comprar. É nesse ponto que atua a Zera, casa de crédito estruturado que, em menos de dois anos de operação, já viabilizou mais de R$ 2 bilhões para cooperativas, indústrias e revendas do agronegócio.
A empresa tem três sócios-fundadores: Octaciano Neto, Amanda Coura e Francisco Jardim, da SP Ventures. Octaciano foi secretário de Agricultura do Espírito Santo entre 2015 e 2018 e, no período, presidiu o Conselho Nacional de Secretários de Agricultura. Depois foi para o mercado: dirigiu a área de agronegócio da EloGroup entre 2020 e 2022 e liderou a vertical de agro do Grupo Suno entre 2022 e 2024. Ele conhece os dois lados do balcão, o do produtor que pede recurso e o do investidor que precisa precificar o risco.
O fato central: R$ 2 bilhões e uma carteira de nomes de peso
O número mais recente da Zera se apoia em operações que o mercado já conhece. Em 2025, a casa liquidou FIDCs para C.Vale, Primato, Seara e BRF, que somam mais de R$ 1,2 bilhão, em parceria com as gestoras Suno e XP.
Outra vitrine é o programa de Fiagro estatal do Paraná, estruturado com o governo paranaense e a Fomento Paraná ao longo de mais de dois anos. O modelo combina recursos públicos e privados e limita a exposição a 3% por devedor em cada fundo, um desenho de concentração que interessa diretamente a quem avalia o risco de carteiras pulverizadas no agro.
No Espírito Santo, a Zera prestou consultoria para a Cooabriel, cooperativa de café conilon de São Gabriel da Palha que fatura R$ 3 bilhões, e para a Lasa, de Linhares.
O método também foge do padrão. Para gestoras e fundos, a Zera troca o modelo de crédito corporativo genérico por uma análise feita cultura a cultura, com três variáveis: o calendário da safra, a exposição ao clima e a correlação com o preço da commodity. A equipe ainda visita todos os clientes antes de levar uma operação adiante.
“O agro é um setor de olho no olho. Muita coisa que define o risco não aparece numa planilha”, disse Amanda Coura, sócia-fundadora da Zera.
Análise: governança como passaporte para o mercado de capitais
Para o mercado de FIDC, a principal lição do caso está no diagnóstico que a Zera faz antes de cada operação: o gargalo do agro, quando ele busca o mercado de capitais, nem sempre é a capacidade de produzir. Muitas vezes é a falta de informação organizada para o investidor.
“O setor cresceu e virou referência em produtividade olhando para dentro da porteira, mas faltou repertório de números, processos e comitês. Quando chega a hora de acessar o mercado de capitais, essa governança faz toda a diferença”, afirmou Octaciano.
Por isso a casa faz um diagnóstico financeiro e de governança antes de cada operação. Para o investidor de FIDC, isso significa direitos creditórios com originação mais documentada e riscos específicos de cada cultura mapeados antes da cessão, que estão entre os pontos mais sensíveis na precificação de cotas de fundos do agronegócio.
O fundador também chama a atenção para quem está do outro lado da mesa. “Muitos dos que investem no agro nunca pisaram em uma fazenda. É nosso papel mostrar com objetividade a esse público o risco e o retorno de uma operação no campo, com a mesma clareza com que se avalia qualquer outro investimento”, disse Octaciano Neto.
A frente educacional segue a mesma lógica. Em parceria com a Agroadvance, a Zera promove o Dinheiro no Agro, imersão sobre mercado de capitais para produtores, executivos e sucessores, que chegou à terceira edição em 2026. Formar o tomador também ajuda a ampliar a base de originação de crédito estruturado no setor.
Perspectivas: de estruturadora a gestora
O próximo passo da Zera é mudar de posição na mesa. A partir de 2027, a casa pretende também gerir os FIDCs e Fiagros que estrutura, acompanhando cada operação até a liquidação.
Para o mercado, o movimento aponta para uma integração maior entre estruturação, análise de risco e gestão em um mesmo agente, modelo em que quem conhece o tomador no campo acompanha o ativo ao longo de toda a vida do fundo. Vale observar como essa transição vai se refletir em governança, política de concentração e transparência das carteiras.
A aposta dos fundadores é ambiciosa. “Nos próximos cinco anos, o mercado de capitais será o principal financiador do agronegócio brasileiro”, disse Octaciano. Se a previsão se confirmar, FIDCs e Fiagros do agro devem ganhar cada vez mais espaço nas carteiras de investidores institucionais e qualificados.
Fontes: Economia Capixaba, “Casa de crédito fundada por capixaba destrava R$ 2 bilhões no agronegócio”, por Ricardo Frizera, 19/10/2026 (economiacapixaba.com/noticia/zera-octaciano-neto-r-2-bilhoes-credito-agronegocio.html)
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