Kalshi contrata Daniel Mangabeira, ex-Binance e Circle, como VP de Políticas na América Latina
Cinco meses depois do bloqueio no Brasil, a Kalshi contrata alguém para tratar diretamente com os reguladores.

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A Kalshi, plataforma americana de
mercados de previsão fundada pela brasileira Luana Lopes Lara, nomeou Daniel
Mangabeira como vice-presidente de Políticas para a América Latina. Ele chega
cerca de cinco meses depois de o governo federal bloquear 27 plataformas do
setor no país. A contratação mostra que a empresa quer voltar ao Brasil pela
via regulatória, num momento em que as fronteiras entre derivativo, aposta e
instrumento financeiro ainda estão sendo definidas.
Um mercado entre o derivativo e a aposta
A Kalshi opera mercados de
previsão, ambientes em que os participantes compram e vendem contratos ligados
a eventos futuros. Entre esses eventos estão decisões de juros, índices de
inflação e fenômenos climáticos. O preço de cada contrato mostra quanto o
mercado acredita que o evento vai acontecer. Por isso a empresa apresenta esses
contratos como fontes de informação para decisões de negócios e de
investimento, e não como entretenimento.
Para o investidor institucional, a lógica é parecida com a dos derivativos tradicionais. Um contrato que paga se a Selic subir em determinada reunião funciona, na prática, como um instrumento de hedge ou de exposição direcional à política monetária. A diferença está no formato: em vez de taxas, vencimentos e ajustes diários, o contrato é binário, sim ou não, e o preço vai de zero a um.
Foi esse formato híbrido que
levou o setor ao centro do debate regulatório no Brasil. Os mesmos ambientes
que oferecem contratos sobre inflação também ofereciam, em outros mercados,
contratos sobre eleições, esportes e cultura pop. Para o regulador, essa
mistura aproxima as plataformas das apostas.
O bloqueio de abril e a nova moldura regulatória
No fim de abril de 2026, o
governo federal bloqueou 27 plataformas de previsão que operavam no país, entre
elas a Kalshi e a Polymarket. Junto com o bloqueio veio uma regulamentação do
Conselho Monetário Nacional (CMN) que limita os contratos de previsão a
variáveis econômico-financeiras: índices de preços, taxas de juros, câmbio,
commodities e valores mobiliários.
Os contratos ligados a eleições, entretenimento e cultura passaram a ser enquadrados como jogo de azar ilegal. A linha divisória ficou clara. O que tem natureza econômica e pode ser estruturado como derivativo é tolerado. O que depende de acontecimentos sem lastro financeiro, não.
Continuam permitidos os derivativos registrados na Comissão de Valores Mobiliários (CVM). É o caso dos contratos de eventos da B3 e da plataforma BTG Trends, do BTG Pactual. Na prática, o mercado de previsão sobre variáveis econômicas segue existindo no Brasil, mas dentro da infraestrutura regulada e sob supervisão de instituições já autorizadas.
Quem é Daniel Mangabeira
O executivo tem trajetória ligada à entrada de modelos de negócio novos em mercados regulados. Ele liderou a chegada e a consolidação da Uber no Brasil, um processo marcado por disputas com reguladores municipais e pela construção de uma regulamentação que antes não existia.
Depois, foi vice-presidente regional da Binance, uma das maiores corretoras de criptoativos do mundo, numa fase de definição do marco legal dos ativos virtuais no país. Também passou dois anos na Circle, emissora da stablecoin USDC, uma empresa que busca se posicionar como infraestrutura financeira regulada.
O padrão se repete nos três casos: empresas cujo produto chegou antes da regra e que precisaram negociar o próprio espaço com autoridades. É exatamente o desafio que a Kalshi enfrenta agora na América Latina.
O que a contratação sinaliza
O cargo diz muito. Mangabeira não chega como responsável comercial ou de expansão. Chega como VP de Políticas, função voltada à relação com governos, reguladores e formuladores de políticas públicas. A leitura é que a Kalshi não pretende contornar o bloqueio, e sim discutir as condições para operar dentro das regras.
O movimento também ganha peso por causa da origem da fundadora. Luana Lopes Lara é brasileira, e o Brasil é um dos mercados mais relevantes da região em volume financeiro e em adesão a produtos digitais de investimento.
Para o mercado de capitais, o
caso mostra uma tendência mais ampla: produtos financeiros alternativos que se
aproximam da infraestrutura tradicional, seja por registro na CVM, seja por
parceria com instituições autorizadas. É o mesmo caminho que boa parte do
ecossistema de criptoativos e de tokenização percorreu nos últimos anos.
Perspectivas: o que monitorar
Daqui para frente, vale
acompanhar três frentes. A primeira é se a Kalshi vai buscar registro na CVM ou
parceria com uma instituição local para oferecer contratos dentro do escopo
permitido pelo CMN. A segunda é como os reguladores vão tratar plataformas
estrangeiras que queiram operar apenas com variáveis econômico-financeiras, já
que o bloqueio de abril atingiu os sites de forma geral. A terceira é a
concorrência com os produtos que já operam legalmente no país, como os
contratos de eventos da B3 e o BTG Trends.
Para gestores e investidores de
crédito privado, o tema interessa de forma indireta, mas concreta. Contratos de
previsão sobre Selic, inflação e câmbio podem virar uma fonte adicional de
leitura das expectativas de mercado e, no futuro, até uma ferramenta
complementar de proteção. O ponto central é que esse mercado, se crescer no
Brasil, vai crescer dentro do perímetro regulado.
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