Clima extremo eleva risco de crédito e seguro no agronegócio brasileiro
Secas mais longas, chuvas excessivas e alterações persistentes nos padrões de temperatura estão deixando o crédito rural mais caro e mais seletivo no Brasil. Na outra ponta, a oferta limitada de seguros adequados retroalimenta a turbulência no fluxo de caixa dos produtores, um cenário que também acende um alerta para gestores de FIDC (Fundo de Investimento em Direitos Creditórios) e fundos de crédito privado com exposição ao agronegócio.

Contexto: um risco que já está precificado
O sistema financeiro brasileiro começa a lidar com uma nova camada de risco na análise de crédito rural: a climática. Segundo Pedro Loyola, coordenador do Observatório do Seguro Rural da FGV (Fundação Getulio Vargas), "a intensificação dos eventos climáticos extremos mudou a natureza do debate. Hoje, discutir seguro rural significa discutir estabilidade econômica, segurança alimentar e capacidade de adaptação do agro brasileiro". Na avaliação do especialista, "crédito sem seguro é quase algo irresponsável".
O tema ganhou dimensão concreta em uma análise do Banco Central que cruzou dados do Sistema de Operações do Crédito Rural e do Proagro (Sicor) com informações climáticas históricas e projeções. O resultado: 4.300 dos 5.572 municípios brasileiros registraram aumento de temperatura entre os períodos 2000 a 2004 e 2019 a 2023, enquanto 4.326 municípios tiveram redução no volume de chuvas.
Em um dos recortes mais relevantes para quem monitora carteiras de crédito, os 558 municípios com as maiores quedas de chuva concentram R$ 122,5 bilhões em crédito rural ativo (posição de junho de 2024), pouco mais de 17% de toda a carteira do país, então em R$ 717 bilhões. O levantamento não estima perdas futuras nem quantifica o volume de crédito que será efetivamente afetado, mas evidencia onde estão localizadas as exposições que podem se transformar em risco financeiro, informação relevante para a due diligence de operações estruturadas com lastro em recebíveis do agronegócio.
O que mudou: o zoneamento de risco também se move
O impacto das mudanças climáticas aparece de forma direta no Zoneamento Agrícola de Risco Climático (Zarc), ferramenta que há três décadas organiza parte da relação entre clima, produção e financiamento no país. A atualização das séries históricas utilizadas pelo zoneamento, agora com dados de 1992 a 2022, mostrou alterações nas janelas de plantio em 3.285 dos 5.569 municípios brasileiros, o equivalente a 58,9% do total. Em 1.474 cidades, houve redução da janela de plantio.
O Zarc é referência para políticas de financiamento do Plano Safra e para instrumentos como o Programa de Seguro Rural (PSR) e o Proagro. Nas regiões em que o período adequado para plantar diminuiu, a consequência é direta: menos espaço para acomodar uma segunda safra e maior dificuldade para o produtor cumprir as condições de produção consideradas na concessão de crédito e na contratação do seguro. Na prática, quem planta fora da janela imposta pelo Zarc perde acesso ao crédito.
Em paralelo, a maior frequência de eventos extremos pressiona a sinistralidade das seguradoras, o que tende a elevar o custo dos prêmios e a restringir ainda mais a oferta de proteção. Estudos do Climate Policy Initiative (CPI), instituição ligada à PUC-Rio, identificam essa combinação como um dos principais gargalos da gestão de risco agropecuário no país. A oferta de seguro é limitada, a ocorrência de eventos extremos aumenta a pressão sobre os custos, e instrumentos como PSR, Proagro e Garantia-Safra permanecem fortemente dependentes de políticas públicas.
Análise: o desafio não é só volume de crédito
Segundo o CPI, o crédito rural é o principal instrumento de financiamento climático para uso da terra no Brasil. Entre 2021 e 2023, foram mapeados R$ 50,8 bilhões por ano em recursos alinhados a objetivos climáticos, equivalentes a 58% do financiamento climático identificado para uso da terra no período. Já os instrumentos de gestão de risco agropecuário mobilizaram R$ 13,4 bilhões anuais.
Há, no entanto, uma contradição relevante para o mercado de crédito privado: apesar do volume crescente, ainda é pequena a parcela do crédito rural diretamente alinhada a objetivos climáticos. No levantamento anterior do CPI, referente ao período de 2015 a 2020, apenas 8% dos R$ 158 bilhões anuais de crédito rural destinados a custeio, investimento e industrialização foram classificados como alinhados ao clima.
"O desafio não é simplesmente colocar mais dinheiro no crédito rural. É fazer com que o dinheiro chegue ao produtor acompanhado de uma arquitetura de gestão de risco capaz de tornar esse crédito sustentável", avaliam os autores do relatório "Panorama de Financiamento Climático para Uso da Terra no Brasil", do CPI. O documento defende que o Plano Safra seja utilizado de forma mais explícita para induzir práticas de mitigação e adaptação, com condições diferenciadas para sistemas de baixo carbono e critérios que impeçam a concessão de crédito para áreas com desmatamento ilegal.
Priscila Souza, gerente sênior de avaliação de política pública do CPI/PUC-Rio, resume a lacuna estrutural: "na prática, o país ainda não dispõe de um mecanismo nacional em que a intensidade do apoio e da cobertura aumente sistematicamente com a vulnerabilidade climática". Segundo a pesquisadora, a experiência internacional mostra que o seguro paramétrico pode preencher parte dessas lacunas. "Em vez de depender da verificação individual de cada produtor, esse tipo de seguro realiza o pagamento quando um índice objetivo, como precipitação, temperatura ou condição da vegetação observada por satélite, ultrapassa um valor previamente definido. Isso reduz os custos de vistoria e permite pagamentos mais rápidos", explica Souza, citando o Quênia, a Índia, a African Risk Capacity e o CCRIF, no Caribe, como exemplos de modelos paramétricos em operação.
Perspectivas: 97% da área agrícola está descoberta
O tamanho do desafio brasileiro fica claro em um dado citado por Loyola: 97% da área agrícola do país está descoberta por seguro, à mercê do clima. "O Brasil tem de fazer o que os outros países já fizeram", afirma o coordenador do Observatório do Seguro Rural da FGV, citando Estados Unidos, Espanha, Turquia, Japão, China e Índia como concorrentes agrícolas que colocaram o seguro e as práticas de mitigação de riscos no centro de suas políticas agrícolas.
Para o especialista, como até o crédito privado já está sendo afetado pela exposição climática, é preciso que o Brasil avance em políticas de gestão de riscos agropecuários que combinem a ampliação do seguro rural com a adoção de boas práticas agrícolas capazes de reduzir a vulnerabilidade das lavouras. "O seguro, nesse contexto, não apenas protege a produção: ao garantir recursos para o produtor honrar dívidas e manter o fluxo de caixa após uma quebra de safra, ele ajuda a preservar a capacidade de acessar crédito e financiar o próximo ciclo produtivo", diz Loyola.
Entre as alternativas apontadas pelos especialistas está o escalonamento do plantio, evitando concentrar toda a área em uma única janela do Zarc, o que reduz o risco de um evento climático atingir simultaneamente toda a produção. A atualização constante do próprio zoneamento, à medida que as séries climáticas revelam mudanças nos padrões de temperatura e chuva, também é apontada como essencial, assim como a melhoria da padronização dos dados financeiros e climáticos, de forma que bancos, seguradoras e governo consigam identificar com maior precisão onde estão os riscos e quais investimentos reduzem a vulnerabilidade.
O tema será debatido na segunda edição do Sustainable Finance Summit, evento sobre economia "verde" e estratégias de financiamento, que acontece em Goiânia no dia 3 de setembro. Para o mercado de FIDC e crédito privado com exposição a recebíveis do agronegócio, o recado dos especialistas é direto: a análise de risco climático deixou de ser um item acessório e passou a integrar, cada vez mais, a própria precificação do crédito rural.
Fonte: Eduardo Geraque, colaboração para o UOL, "Clima extremo ameaça crédito e seguro no agronegócio", publicado em 26/08/2026
FIDC NEWS
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