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Mercado Livre acelera entrega em 60 minutos e entra em medicamentos com receita

Com entregas em até uma hora e remédios controlados no catálogo, o Mercado Livre muda a escala de recebíveis que circulam no varejo digital.

FIDC NEWSFIDC NEWS 25/09/20265 min de leituraSem comentários
Mercado Livre acelera entrega em 60 minutos e entra em medicamentos com receita

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O Mercado Livre anunciou duas frentes de expansão: um serviço de entrega ultrarrápida e a venda de medicamentos que exigem prescrição médica. Os dois movimentos atacam mercados de alta frequência de compra, como conveniência, supermercado e farmácia, e ampliam o volume de transações dentro de um ecossistema que já concentra milhares de vendedores. Para quem acompanha crédito privado, o interesse está no que vem junto com esse volume: mais recebíveis, mais lojistas precisando de capital de giro e uma cadeia de pagamentos cada vez mais concentrada em poucas plataformas.

Contexto: o varejo digital disputa minutos


A corrida por prazos de entrega mais curtos deixou de ser exclusividade dos aplicativos de delivery. Com o novo serviço, o Mercado Livre se aproxima de modelos como iFood, 99Food, Rappi e Daki, que construíram sua proposta de valor em torno da conveniência imediata. A companhia, liderada pelo argentino Ariel Szarfsztejn, passa a competir não só por preço e sortimento, mas também por tempo.

A estratégia se apoia no modelo de marketplace conhecido como 3P (em que terceiros vendem pela plataforma), responsável por 95% das vendas da empresa. Na prática, o Mercado Livre organiza a vitrine, a logística e o pagamento, enquanto a maior parte do estoque e da operação comercial fica com os vendedores parceiros.

Esse desenho tem consequência direta para o mercado de crédito. Cada venda feita por um lojista na plataforma gera um fluxo futuro a receber, e é exatamente esse tipo de ativo que alimenta operações de antecipação e estruturas de FIDC (Fundo de Investimento em Direitos Creditórios) lastreadas em recebíveis de varejo e de meios de pagamento.

O fato central: Envios Agora e farmácias no marketplace


A principal novidade é o Envios Agora, serviço que promete entregar produtos de até 15 quilos em até 60 minutos por meio de uma rede de entregadores parceiros. A infraestrutura ainda está em construção. "Nós ainda não temos, mas vamos criar, começando por São Paulo", afirmou Fernando Yunes, VP Executivo de Commerce Latam do Mercado Livre.

A modalidade vai permitir compras variadas, de smartphones a itens de supermercado, combinando produtos para gerar a escala necessária à operação. O projeto está em fase piloto em bairros selecionados da capital paulista, com expansão prevista para toda a cidade e depois para outras regiões do país.

A segunda frente é a farmácia. A vertical começou a ser testada no último ano, quando a empresa adquiriu uma pequena farmácia de bairro na zona sul de São Paulo para servir de laboratório. Agora, o Mercado Livre avança para medicamentos sob prescrição e com retenção de receita, como antibióticos e tratamentos injetáveis, com validação presencial e digital feita por profissionais de farmácia antes do envio.

A companhia dimensiona o mercado farmacêutico brasileiro em R$ 200 bilhões por ano, com penetração online de 10%, o que representa cerca de R$ 20 bilhões em comércio eletrônico. Seguindo a lógica 3P, a plataforma abriu seu ecossistema para redes de farmácias e projeta encerrar o ano com pelo menos 20 redes integradas na Região Metropolitana de São Paulo.

Segundo Yunes, o número de transações do piloto "surpreendeu", e ele classificou a iniciativa como um "experimento de sucesso". "A demanda está ali", disse o executivo, destacando que o próximo passo é organizar a seção, ampliar o sortimento e conectar a oferta à entrega rápida.

Análise: o que muda para o crédito estruturado


Do ponto de vista de crédito, os dois anúncios convergem para o mesmo efeito: aumento de frequência transacional. Farmácia e conveniência são categorias de compra recorrente e tíquete relativamente previsível, características valorizadas na análise de carteiras pulverizadas. Quanto maior e mais estável o fluxo de vendas de um lojista, mais previsível tende a ser o recebível gerado, o que favorece a precificação e a definição de subordinação em estruturas de FIDC.

A entrada das redes de farmácia no marketplace também merece atenção. O varejo farmacêutico é, historicamente, um originador relevante de recebíveis no Brasil, tanto nas vendas ao consumidor quanto na relação com distribuidores. Ao migrar parte dessas vendas para uma plataforma de terceiros, as redes passam a ter o marketplace como intermediário do fluxo de caixa, o que pode alterar a forma como esses recebíveis são registrados, cedidos e monitorados.

Há ainda um ponto de risco operacional. Um serviço de entrega em 60 minutos depende de uma rede de entregadores que, nas palavras do próprio executivo, ainda precisa ser criada. Para investidores que analisam empresas da cadeia logística ou cedentes que dependem da plataforma, a velocidade de execução desse piloto será um indicador importante de sustentabilidade do modelo.

Perspectivas: o que monitorar


Os próximos meses devem mostrar se o Envios Agora ganha escala para além dos bairros piloto de São Paulo e em quanto tempo chega a outras capitais. Na frente farmacêutica, o marco a acompanhar é a meta de 20 redes integradas até o fim do ano e a evolução da participação online em um mercado que, pelas estimativas da própria empresa, ainda tem 90% das vendas fora do digital.

Para gestores de FIDC, o movimento reforça uma tendência: a originação de recebíveis de varejo está cada vez mais concentrada em grandes plataformas. Isso abre espaço para novas estruturas lastreadas em vendas de marketplace, mas também exige atenção redobrada à dependência de um único intermediário, à qualidade dos dados de performance dos cedentes e aos mecanismos de registro dos direitos creditórios.


Fonte: Bloomberg Línea, "Mercado Livre terá entrega em até 60 minutos e venda de medicamentos com receita", por Marcos Bonfim (24/09/2026).

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