Aeris pede recuperação extrajudicial para renegociar R$ 1,52 bilhão em dívidas
Fabricante de pás eólicas com R$ 1,2 bilhão em debêntures vai à Justiça para renegociar dívida pela segunda vez em 18 meses

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Crédito: Samuel Setubal
A fabricante de pás para aerogeradores protocolou o pedido na Justiça de São Paulo com adesão de credores que representam 42,18% dos créditos. É o segundo capítulo de uma reestruturação que, em 2025, não resolveu o problema.
Contexto: uma crise que não se resolveu em 2025
A Aeris abriu capital na B3 em novembro de 2020, no auge da expansão da energia eólica no Brasil. Na época, detinha cerca de 69% do mercado nacional de pás, considerando a carteira de projetos prevista. De lá para cá, o cenário mudou: a demanda por equipamentos para parques eólicos recuou com juros elevados, excesso de oferta de energia no sistema e aumento do curtailment, como é chamado o corte de geração determinado pelo Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS) por limitação na rede ou excesso de oferta. A geração solar distribuída também passou a disputar espaço. Segundo dados citados pelo setor, os investimentos em geração eólica caíram quase 70% entre 2023 e 2026, de R$ 35 bilhões para cerca de R$ 10 bilhões.
Em 2025, a companhia renegociou debêntures e empréstimos com Banco do Brasil, BV e Santander, em operação de cerca de R$ 1,4 bilhão que alcançou aproximadamente 90% do endividamento. A Fitch, porém, rebaixou a nota da empresa para RD(bra), patamar de default restrito, por considerar a troca de dívida uma reestruturação feita em condições de estresse.
O fato central: o pedido e os números
Na quarta-feira (4), a Aeris protocolou o pedido de recuperação extrajudicial na 3ª Vara de Falências e Recuperações Judiciais de São Paulo. O instrumento abrange R$ 1,524 bilhão, com base em 31 de outubro de 2026, e alcança apenas créditos quirografários não correntes, isto é, dívidas sem garantia real ou fiduciária e sem relação com o fornecimento habitual necessário à operação. Ficam de fora dívidas tributárias, trabalhistas e decorrentes de acidentes de trabalho.
Credores que somam 42,18% dos créditos abrangidos já aderiram ao plano. A empresa se comprometeu a alcançar mais da metade em até 90 dias, percentual necessário para a homologação judicial. O pedido foi aprovado pelo conselho de administração e ainda será ratificado pelos acionistas em assembleia geral extraordinária. Com o protocolo, os créditos abrangidos ficam sujeitos à suspensão prevista na legislação. Os novos prazos e condições de pagamento ainda serão definidos em uma versão atualizada do plano.
A Aeris afirma que manterá a fabricação, os empregos e as linhas de fornecimento necessárias à operação.
Análise: o que o caso diz sobre o crédito privado
O pedido não surgiu do nada. Em agosto, a companhia obteve medida cautelar, em segredo de Justiça, para suspender execuções por até 60 dias e abriu mediação no CMAASP. Na ocasião, a dívida líquida era de R$ 1,94 bilhão no segundo trimestre, com cerca de R$ 1,2 bilhão em debêntures, e o prejuízo trimestral chegou a R$ 152 milhões, segundo o Seu Dinheiro. A receita líquida caiu 46,6% na comparação anual.
Para quem atua com crédito estruturado, o caso mostra o risco de reperfilamentos que adiam o vencimento sem corrigir a geração de caixa. A diferença entre os R$ 1,94 bilhão de dívida líquida e os R$ 1,52 bilhão do plano indica que o universo de credores alcançado é seletivo, e a posição de cada tipo de credor dependerá do que for definido na versão atualizada do plano. O balanço do trimestre também registra ajuste a valor justo de cotas de FIDC, segundo o Seu Dinheiro, um lembrete de como a exposição a fundos aparece nos números de emissores em estresse.
Perspectivas: o que monitorar
Os próximos marcos são a assembleia dos acionistas, a divulgação do plano atualizado com prazos, deságio e eventuais conversões, e a corrida pelos 50% de adesão dentro de 90 dias. Para debenturistas e cotistas de fundos com exposição ao setor, vale acompanhar se o plano diferencia classes de credores e se a Fitch revisa a classificação. A empresa disse que seguirá informando o mercado sobre os desdobramentos relevantes.
Fontes: InvestNews, 4/11/2026
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