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Notícias

Presidente do BC do Paraguai renuncia após intervenção no banco digital Ueno

Quebra de banco digital no Paraguai derruba o comando do Banco Central e testa a confiança do capital estrangeiro, em grande parte brasileiro

FIDC NEWSFIDC NEWS 5 min de leituraSem comentários

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A crise do Ueno, banco com cerca de 3 milhões de clientes e US$ 850 milhões em recursos públicos, fechou a instituição e pressiona o governo Santiago Peña. O caso expõe os riscos de crescimento acelerado sem supervisão à altura e pesa sobre a reputação do país entre investidores da região.

Contexto: do nicho fintech ao maior emissor de cartões

O Ueno começou a operar como banco em novembro de 2023, a partir da antiga Financiera Ueno, e construiu uma estratégia digital agressiva. Em junho, chegou a 2,9 milhões de clientes, segundo dados do próprio banco, num país de cerca de 6,1 milhões de habitantes. Tornou-se o maior emissor de cartões de crédito do Paraguai, em trajetória comparada pela Reuters à de Monzo e Nubank.

O banco é controlado majoritariamente pelo Grupo Vázquez. Nos últimos meses, o Banco Central do Paraguai (BCP) enfrentou questionamentos sobre supostos empréstimos excessivos a empresas ligadas ao grupo, o que pressionou os títulos em dólares do Ueno com vencimento em 2031 e os títulos soberanos paraguaios. Parlamentares chegaram a pedir a saída da cúpula do BC após rejeitarem um relatório que consideraram incompleto.

O que mudou: resolução, fechamento e renúncia

Entre 2 e 3 de novembro, o BCP decidiu por unanimidade iniciar um procedimento de resolução bancária, depois de constatar que o índice de solvência do Ueno caiu para menos de 50% do mínimo exigido. Resolução é o mecanismo pelo qual o regulador organiza ativos e passivos de uma instituição em dificuldade, protege depositantes e tenta evitar contágio ao sistema.

Na prática, o banco foi fechado. A diretora do BCP Liana Caballero, que assumiu a presidência de forma interina, afirmou que “ni la aplicación, ni las tarjetas, ni ningún servicio de la entidad está activo”. Pela lei, o prazo máximo para restituir os recursos é de 15 dias. O processo prevê interventores da Superintendência de Bancos e o acionamento do Fundo de Garantia de Depósitos (FGD), que cobre até 75 salários mínimos, cerca de 228,3 milhões de guaranis (aproximadamente US$ 38 mil), por pessoa física ou jurídica. O BC anunciou ainda um primeiro pagamento de até 10 milhões de guaranis (cerca de US$ 1,6 mil) aos depositantes.

Na terça-feira (3), o presidente do BCP, Carlos Carvallo, renunciou a pedido de Peña. Carvallo presidiu o próprio Ueno até agosto de 2023, e Peña foi sócio do grupo proprietário do banco até março de 2025, vínculos que alimentaram as críticas à supervisão. Em coletiva, Carvallo disse que sua saída “ajudará a acalmar a controvérsia em torno do BCP” e permitirá ao órgão trabalhar sem distrações políticas. Peña afirmou que se trata de “um caso particular de uma entidade, não do sistema financeiro nacional” e que os responsáveis “devem responder perante o Judiciário, sem exceções e sem privilégios”.

O Ministério Público abriu investigação criminal. Segundo a Reuters, ordenou a prisão de oito pessoas ligadas ao banco; pela EFE, o maior acionista e fundador, Miguel Vásquez, e outros sete diretores se apresentaram à Justiça. Entre as linhas de apuração estão possíveis operações de crédito com empresas do próprio grupo controlador, o que o Ueno nega.

Impacto: dinheiro público, aposentados e comércio

O efeito se espalha além dos correntistas. O Ueno administrava cerca de US$ 850 milhões em dinheiro público, segundo a Reuters. O Instituto de Previdência Social (IPS) investiu US$ 355 milhões no banco, e cerca de 32 mil aposentados têm contas ali. A estatal de energia Ande mantém cerca de US$ 46 milhões em recursos de empréstimos do BID e de Taiwan, além de 36 bilhões de guaranis próprios.

No varejo, a Associação de Importadores e Comerciantes do Paraguai (Asimcopar) alertou para uma possível “semiparalisação” do comércio, já que duas em cada três operações eletrônicas passam por contas do Ueno. Clientes foram às agências em busca de dinheiro em espécie, e a empresa de saneamento Essap informou que não cortará o serviço de quem pagava via Ueno.

Análise: o que o caso ensina ao mercado de crédito

Para quem opera crédito privado, o episódio reúne três pontos de atenção que não são exclusivos do Paraguai. O primeiro é a concentração: crédito a partes relacionadas e depósitos públicos concentrados numa única instituição elevam o risco de forma que nem sempre aparece nos indicadores. O segundo é a velocidade de crescimento: uma base de milhões de clientes em dois anos exige governança e supervisão na mesma proporção. O terceiro é a reputação: a Reuters destaca que o caso ameaça a imagem que ajudou o Paraguai a se tornar destino emergente de capital estrangeiro, grande parte vindo do Brasil.

Também chama atenção o contraste entre a mensagem oficial de caso isolado e a reação dos preços, já que os títulos soberanos do país foram afetados antes do desfecho. A leitura é deste portal: investidores tendem a reavaliar prêmio de risco e qualidade de supervisão quando o regulador é arrastado para o centro da crise.

Perspectivas: devolução dos depósitos e pressão política

O governo acertou com as lideranças do Congresso a aceleração de um projeto para usar o Fundo de Garantia no pagamento dos depositantes. O Senado aprovou, em sessão extraordinária, proposta que fixa em até 40 salários mínimos o valor a ser pago a cada depositante em 24 horas após uma resolução bancária; a Câmara analisa o texto nesta quarta-feira (4). Peña cancelou a ida à Cúpula Ibero-Americana, na Espanha, para acompanhar o caso.

No campo político, a oposição anunciou pedidos de impeachment contra Peña e o vice, Pedro Alliana, que dependem de apoio adicional num Congresso onde o Partido Colorado, do presidente, tem influência. Os pontos a monitorar são o cumprimento do prazo de 15 dias, a recuperação dos recursos do IPS e da Ande, o avanço das investigações e o comportamento dos títulos paraguaios.

Fonte: G1

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