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Itaú pede previsibilidade fiscal e defende volta do grau de investimento

Em coletiva sobre o 3º trimestre, o CEO do Itaú diz que a definição da equipe econômica é o que falta para reduzir a volatilidade e permitir juros estruturalmente menores, pauta central para quem capta e aloca em crédito privado.

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Foto: Tuane Fernandes/Bloomberg

O CEO do Itaú Unibanco, Milton Maluhy Filho, afirmou que a definição do próximo ministro da Fazenda e de suas diretrizes é decisiva para reduzir a volatilidade do mercado e abrir espaço para uma queda sustentável da taxa básica de juros. Para o mercado de FIDC (Fundo de Investimento em Direitos Creditórios), que depende do custo de funding e do apetite por risco de crédito, o recado importa tanto quanto o balanço.

Contexto: um governo reeleito e um mercado à espera de sinais

Após a reeleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, o mercado aguarda indicações sobre a condução da política fiscal. É nesse cenário que o maior banco privado do país trouxe a pauta para o centro da entrevista coletiva sobre os resultados do terceiro trimestre de 2026, realizada na quarta-feira, 4 de novembro.

Maluhy evitou comentar as especulações sobre possíveis mudanças na política fiscal, em especial as discussões sobre o peso dos juros na dívida pública. O tema voltou à tona com a proposta de reforma monetária e fiscal apresentada pelo economista André Lara Resende. Na avaliação do executivo, ainda não há propostas concretas que permitam uma análise mais aprofundada. “Acho que não tem ainda uma discussão, acho que tem especulação”, disse.

O CEO fez questão de separar o debate político da leitura de mercado. “O mercado, por definição, não tem partido. O mercado olha para propostas concretas”, afirmou.

O fato central: grau de investimento como objetivo

Maluhy lembrou que o Brasil viveu um período favorável para os mercados durante os primeiros mandatos de Lula, quando o país conquistou o grau de investimento, selo de qualidade de crédito concedido pelas agências de classificação de risco. O título foi perdido há mais de uma década, em meio à deterioração das contas públicas. Para o executivo, recuperá-lo deveria ser objetivo do governo, ainda mais porque boa parte dos países da região já o tem.

“Perdemos o título de investment grade e eu acho que esse é um bom objetivo para o País, voltar a ter o selo de grau de investimento”, afirmou. Segundo ele, a perda “afeta a capacidade de financiamento do País, seja do ponto de vista de volume de recursos, seja do ponto de vista de preço e capacidade de financiamento”.

Sobre quem comandará a Fazenda, o CEO foi direto: “Todos aguardam uma definição. Definição em qualquer governo é importante, a definição de quem será o ministro da Fazenda e de que forma ele vai atuar”.

Juros: o alerta contra a queda “na força bruta”

A preocupação do Itaú nasce da deterioração das perspectivas para 2027, com revisões nas projeções de crescimento, desemprego, inflação e juros. O cenário combina atividade mais fraca, maior comprometimento da renda das famílias e condições de financiamento mais restritivas para as empresas.

Com juros restritivos por um período prolongado no horizonte, Maluhy alertou para o risco de acelerar a redução das taxas sem condições macroeconômicas para isso. Na avaliação dele, uma queda forçada dos juros de curto prazo poderia produzir efeito contrário nos juros longos, elevando o custo de financiamento de empresas e famílias por causa do aumento da percepção de risco.

“É do interesse de todos trabalhar com juros estruturalmente mais baixos, mas, para isso, a gente precisa criar as condições. O risco que a gente corre é imaginar que a queda de juros de curto prazo pode ser feita na força bruta”, disse.

Os números do Itaú e o que eles indicam para o crédito

O banco apresentou lucro recorrente gerencial de R$ 12,6 bilhões no terceiro trimestre, alta de 6,7% sobre o mesmo período do ano anterior e resultado em linha com as projeções da Bloomberg. O retorno sobre o patrimônio (ROE) foi de 23,6% no consolidado e de 24,5% nas operações brasileiras. A carteira de crédito chegou a R$ 1,5 trilhão, com expansão de 10,9% em 12 meses.

Maluhy atribuiu o desempenho a uma estratégia de longo prazo, baseada em clientes mais resilientes aos ciclos econômicos, produtos com maior participação de garantias, tecnologia e eficiência operacional. Apesar do tom cauteloso, afirmou que o banco está preparado para um ambiente mais adverso em 2027: “Nunca estivemos tão preparados para enfrentar qualquer que seja o cenário”. Ele reconheceu, porém, que o Itaú não está imune a uma piora da economia, sobretudo com juros elevados e menor crescimento. “Não somos imunes, naturalmente”, disse.

Na bolsa, por volta das 11h07, as ações preferenciais do Itaú (ITUB4) subiam 2,73%, a R$ 39,54. No ano, os papéis acumulam alta de 1%, e o valor de mercado está em R$ 465,5 bilhões.

O que isso significa para FIDCs e o mercado de crédito privado

O ponto de contato com os FIDCs está no custo do dinheiro. Fundos que captam via cotas sênior e compram recebíveis competem por investidores com a renda fixa tradicional, e a taxa básica e a inclinação da curva de juros longos ajudam a definir quanto a cota sênior precisa pagar e qual spread sobra para a carteira. Um cenário de juros altos por mais tempo tende a pressionar esse custo de funding e a elevar o risco de crédito dos cedentes, o que exige atenção à qualidade dos originadores e às garantias, justamente os fatores que o Itaú cita como sustentação do seu próprio resultado.

O alerta sobre o risco de uma queda de juros “na força bruta” também interessa a quem aloca em prazos mais longos: se a percepção de risco fiscal subir, o custo de financiamento de empresas e famílias pode subir, e não cair, afetando a originação e a precificação de carteiras. Por outro lado, uma sinalização fiscal crível, que aproxime o país da recuperação do grau de investimento, tende a ampliar a capacidade de financiamento e a reduzir prêmios de risco, o que beneficiaria todo o mercado de capitais, FIDCs incluídos.

Perspectivas: o que monitorar

O primeiro ponto de atenção é a escolha do ministro da Fazenda e as diretrizes que a nova equipe apresentar, que o próprio CEO do Itaú trata como a definição mais aguardada pelo mercado. O segundo é a evolução das projeções para 2027, de crescimento, desemprego, inflação e juros, que determinarão o ritmo de qualquer corte da taxa básica. Para gestores e investidores de FIDC, o acompanhamento passa por três frentes: custo de funding, qualidade e garantias das carteiras e sinais de desaceleração da renda das famílias.


Fontes: NeoFeed, “Maluhy, do Itaú, pede previsibilidade fiscal a Lula e defende volta do grau de investimento” (04/11/2026), neofeed.com.br/negocios/maluhy-do-itau-pede-previsibilidade-fiscal-a-lula-e-defende-volta-do-grau-de-investimento

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