Banco do Brasil pressiona capital com inadimplência do agro e põe BB Seguridade em foco
Maior financiador do agro, o Banco do Brasil enfrenta calote no campo, queda de lucro e pressão sobre o capital, e o mercado já olha para a BB Seguridade como primeira saída.

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Crédito: Fernando Bizerra/Agência Senado
A taxa de pagamentos em dia do maior financiador do agronegócio do país parou em 75%, abaixo dos 90% projetados para o segundo semestre. A combinação de lucro menor, ações em queda e ativos fiscais crescentes no patrimônio reabre o debate sobre como o banco vai reforçar o capital.
Contexto: o maior crédito rural do país sob estresse
O Banco do Brasil é o segundo maior banco da América Latina em ativos e o maior financiador do agronegócio brasileiro. Isso o torna um termômetro direto da saúde financeira do campo, setor que segue como um dos motores da economia, mas convive com margens comprimidas e alta da inadimplência.
Para quem atua no mercado de crédito privado, o dado vai além do balanço de um banco. A deterioração do crédito rural afeta toda a cadeia que financia o produtor, incluindo recebíveis do agro que lastreiam FIDCs (Fundos de Investimento em Direitos Creditórios) e operações de securitização. Quando o principal credor do setor sente o aperto, os demais originadores tendem a rever apetite, garantias e preço.
O lucro líquido ajustado do banco no primeiro semestre de 2026 foi de R$ 7,34 bilhões, queda de 34% sobre o mesmo período de 2025. As ações acumulam queda de 24,8% no ano, o pior desempenho entre os maiores bancos do país. No dia seguinte à eleição presidencial, os papéis recuaram 29%, a maior queda em pelo menos 32 anos, por receio de que a política fiscal do governo prejudique a perspectiva de corte de juros. O Citi então rebaixou a recomendação para venda.
O que mudou: capital sob pressão e opções limitadas
Segundo a Bloomberg, a estimativa de lucro dos analistas para o terceiro trimestre caiu cerca de 23% nas últimas semanas, para R$ 3,3 bilhões. A taxa de pagamentos em dia, de 75%, levanta a possibilidade de aumento do custo do crédito, conforme nota do BTG Pactual.
O índice de capital principal (CET1) segue acima do patamar de 11% que o banco diz pretender manter. A preocupação está na qualidade desse capital: de acordo com relatório do Goldman Sachs, os créditos fiscais, ativos de qualidade inferior por não estarem imediatamente disponíveis, subiram para 53% do patrimônio no segundo trimestre, ante 37% quatro anos antes. A tendência é de mais ativos desse tipo, já que eles vêm em grande parte de provisões para perdas com empréstimos.
Em junho, o banco renegociou um instrumento híbrido de capital e dívida de R$ 4,2 bilhões devido ao governo, adiando a maior parte do pagamento para 2029. A medida preservaria cerca de sete pontos-base de capital em 2026 e 2027. Já o programa federal de alívio de dívidas rurais teve adesão menor que a esperada, o que, segundo relatório do BTG de outubro, alimenta a especulação de que o banco precisará captar capital em breve.
Análise: por que a BB Seguridade virou o centro das atenções
A BB Seguridade é a holding de capital aberto cujas subsidiárias vendem seguros pela rede de distribuição do banco. Os contratos de compartilhamento de receitas vencem entre 2031 e 2033, e investidores avaliam uma renegociação antecipada em condições mais favoráveis ao BB. Os negócios da seguradora não carregam risco de crédito, e suas ações sobem 4,4% no ano.
“Há soluções antes de o governo fazer qualquer aporte”, disse à Bloomberg News Gustavo Schroden, analista do Citi, que enxerga a BB Seguridade como o primeiro recurso do banco, seja pela venda de parte da participação, seja pela revisão dos contratos. Ele também afirmou que a qualidade do patrimônio vem caindo e que há, em sua leitura, um problema de capital pela frente.
Alexandre Albuquerque, da Moody’s, disse que o adiamento do instrumento híbrido “dá ao banco um pouco de fôlego”. Ele lembrou que o governo detém pouco mais de 50% do banco e que as dificuldades fiscais tornam mais difícil uma nova injeção de capital, e que a administração já sinalizou não descartar a venda de ativos. A participação majoritária por margem estreita deixa pouco espaço para diluição sem pôr o controle em risco.
Perspectivas: governança e o teste do agro
Segundo pessoas familiarizadas com o tema, nenhuma negociação está em andamento, e conversas envolvendo a BB Seguridade dificilmente começarão antes de o presidente Lula decidir se mudará a gestão do banco. O jornal O Globo informou que a presidente Tarciana Medeiros deve ser substituída, o que pode significar mudança de estratégia. A prioridade imediata, segundo uma dessas fontes, é enfrentar a inadimplência na carteira do agro.
Para o gestor de crédito privado, três pontos merecem monitoramento: a trajetória da taxa de pagamentos em dia nos próximos balanços, a definição da liderança do banco e qualquer movimento sobre os contratos da BB Seguridade. Cada um deles pode redefinir a oferta de crédito rural e, por tabela, o espaço para originadores privados e estruturas de recebíveis do agro.
Fontes: Bloomberg Línea (Bloomberg News)
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