Lula ouve Mantega e economistas de esquerda, e o risco fiscal volta ao radar do crédito
Primeira reunião sobre a política econômica do próximo mandato reúne nomes da ala desenvolvimentista e reacende, entre investidores, a dúvida sobre a trajetória da dívida pública.

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Crédito: Ministerio da Fazenda (Adri Felden)
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva deu início, na quinta-feira (5), às discussões sobre a política econômica do próximo mandato. Para o mercado de crédito privado e para os FIDCs (Fundos de Investimento em Direitos Creditórios), o ponto central não é quem sentou à mesa, e sim o que o encontro sinaliza sobre juros, dívida pública e custo de capital nos próximos anos.
Contexto: ativos em queda desde o segundo turno
Os ativos brasileiros acumulam perdas desde o segundo turno das eleições, movimento associado ao receio de que a política fiscal deteriore o quadro orçamentário. Em linguagem direta, o mercado teme que o governo gaste mais do que arrecada sem um plano claro para estabilizar a dívida. Esse tipo de dúvida costuma se refletir na curva de juros, ou seja, nas taxas cobradas para prazos mais longos, e é na curva que a maior parte do crédito privado é precificada.
Para um FIDC, o efeito é prático. Fundos que captam por meio de cotas sênior (as de menor risco, com remuneração geralmente atrelada ao CDI mais um spread) dependem de um ambiente em que o investidor aceite carregar risco de crédito sem exigir um prêmio excessivo. Quando a incerteza fiscal sobe, o prêmio exigido tende a subir junto, o que encarece a captação e pressiona a taxa que o originador consegue cobrar do tomador final.
O que mudou: a reunião e os participantes
Segundo a Bloomberg News, o encontro reuniu economistas de esquerda, entre eles Guido Mantega, que foi ministro da Fazenda de 2006 até o fim de 2014. Também participou Luciano Coutinho, ex-presidente do BNDES. Pelo governo, estiveram presentes o ministro da Fazenda, Dario Durigan, o ministro do Planejamento, Bruno Moretti, a chefe de gabinete Miriam Belchior, o presidente do BNDES, Aloizio Mercadante, e o vice-presidente Geraldo Alckmin. A lista foi divulgada por um porta-voz da Presidência.
A reportagem destaca que esse é o primeiro de uma série de encontros, e que os próximos devem incluir economistas de todo o espectro político. Ainda assim, a escolha de começar por um grupo ligado ao Partido dos Trabalhadores pode aprofundar as preocupações de investidores, que cobram clareza sobre como o governo pretende conter a dívida pública e os déficits.
Durigan afirmou, segundo a publicação, que não houve discussão de medidas específicas. De acordo com o ministro, o foco foi o desafio da economia e a forma de entregar resultados dentro do arcabouço fiscal atual, a regra que limita o crescimento das despesas públicas. Ele e Moretti devem apresentar a Lula propostas para melhorar as contas públicas depois da viagem do presidente à Turquia e às Filipinas. Lula ainda não definiu a política econômica do novo mandato nem os principais cargos da equipe.
Análise: o que isso significa para FIDCs e para o mercado
Há dois movimentos que o mercado de crédito precisa separar. O primeiro é o de sinalização: a composição do primeiro encontro foi lida como um indicativo de viés mais desenvolvimentista, e enquanto o governo não detalhar sua âncora fiscal, o prêmio de risco tende a permanecer elevado. Para gestores de FIDC, isso significa atenção redobrada à marcação a mercado das carteiras, à demanda por cotas sênior e ao apetite de investidores institucionais por prazos mais longos.
O segundo é o de dados concretos, e aqui há elementos de alívio. O Banco Central manteve a Selic em 13,75%, patamar que, embora alto, preserva a atratividade de produtos indexados ao CDI. Além disso, o pronunciamento de TV previsto para domingo, com cerca de 10 minutos, deve enfatizar a responsabilidade fiscal, segundo trechos de rascunho analisados pela Bloomberg News. O texto também deve tratar da redução dos juros sem criticar o Banco Central e reafirmar o compromisso com superávit primário (receitas maiores que despesas, antes do pagamento de juros da dívida), sem cortar ou congelar programas sociais, mas sem anunciar medidas concretas de corte de gastos.
É justamente essa combinação, compromisso declarado sem medida específica, que mantém o mercado em compasso de espera. Para quem origina crédito, uma eventual queda de juros ao longo do tempo seria benéfica, pois amplia a demanda por financiamento e reduz o custo de captação dos fundos. O risco é o caminho inverso: se a dúvida fiscal persistir, a curva pode seguir pressionada e travar esse ciclo.
Perspectivas: o que monitorar
Três pontos merecem acompanhamento nos próximos dias. O primeiro é o pronunciamento de domingo, que deve mostrar se o discurso de responsabilidade fiscal virá acompanhado de algum parâmetro mensurável. O segundo é a apresentação das propostas de Durigan e Moretti, prevista para depois da viagem presidencial, que será o primeiro teste concreto da agenda de contas públicas. O terceiro é a definição dos principais cargos da área econômica, ainda em aberto, que costuma ser lida pelo mercado como indicador da direção da política.
Para o mercado de FIDCs, a leitura é de cautela. A indústria segue dependente de um ambiente de juros previsível, e cada sinal sobre a trajetória da dívida tende a se refletir na precificação de cotas, nos spreads exigidos e no apetite por novos fundos.
Fontes: Bloomberg Línea (Bloomberg News), “Lula consulta Mantega e economistas de esquerda sobre os planos para o novo mandato”, 05/11/2026: https://www.bloomberglinea.com.br/brasil/lula-consulta-mantega-e-economistas-de-esquerda-sobre-os-planos-para-o-novo-mandato/
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