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Mercado

BlackRock simplifica troca de bitcoin por cotas de ETF e atrai grandes fortunas

Um mecanismo regulatório aprovado nos Estados Unidos no meio de 2025 está mudando a forma como famílias e escritórios de grandes fortunas migram posições em criptoativos para dentro do sistema financeiro tradicional.

FIDC NEWSFIDC NEWS 5 min de leituraSem comentários

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Ao permitir que o investidor troque bitcoin diretamente por cotas de um ETF (fundo negociado em bolsa, na sigla em inglês), sem precisar vender o ativo antes, a chamada criação in-kind reduziu o atrito fiscal e operacional dessa migração e já soma bilhões de dólares em volume só no maior fundo do setor, o IBIT, da BlackRock.

O mecanismo por trás da migração


Até a aprovação das criações in-kind, um investidor que quisesse trocar sua posição direta em bitcoin por cotas de um ETF precisava primeiro vender o criptoativo no mercado à vista, o que gerava potencial cobrança imediata de imposto sobre ganho de capital, para só então usar o dinheiro na compra das cotas do fundo. Essa etapa intermediária de venda também expunha o investidor a um novo momento de risco de execução, além do custo tributário.

Com a criação in-kind, esse passo desaparece: o bitcoin é entregue diretamente à gestora do ETF em troca das cotas correspondentes, dentro de um processo que se assemelha, guardadas as proporções, ao mecanismo de resgate e emissão em ativos por transferência física usado em outros fundos negociados em bolsa. O investidor deixa de precisar administrar chaves privadas, carteiras digitais e rotinas de autocustódia, passando a contar com as proteções e a estrutura operacional de um produto financeiro convencional.

O que mudou: BlackRock reduz a barreira de entrada


O IBIT, maior ETF de bitcoin à vista dos Estados Unidos, já acumulou mais de US$ 5 bilhões em transações in-kind desde que o recurso foi liberado, patamar que supera os US$ 3 bilhões reportados em outubro de 2025. Parte desse crescimento reflete uma decisão direta da BlackRock: em julho de 2026, a gestora reduziu o valor mínimo para operar nesse formato de US$ 25 milhões para US$ 1 milhão, ampliando o público apto a usar o mecanismo.

O movimento não é exclusivo da BlackRock. A Bitwise partiu de um mínimo de US$ 100 milhões na primeira transação in-kind, passou por um patamar intermediário de US$ 50 milhões e hoje opera com um piso de US$ 3 milhões. A 21shares registrou mínimo médio de US$ 5 milhões nas transações realizadas nos últimos três meses. Já a Morgan Stanley Investment Management informou que sua estrutura MSBT, com patrimônio total de US$ 560 milhões, tem entre 5% e 7% dos ativos originados por essa via.

Os dados da Grayscale Investments mostram a rapidez da adoção: em bitcoin, a fatia de criações brutas feitas via in-kind saltou de 28% em março para 62% em junho. Em ether, o avanço foi de 57% para 63% no mesmo intervalo. "Isso vai continuar crescendo porque continuamos ampliando o acesso", afirma Robbie Mitchnick, chefe de ativos digitais da BlackRock. Segundo ele, o que leva investidores a migrar parte ou a totalidade de suas posições é o histórico de sequestros, pedidos de resgate sob coação e falhas de custódia associados à posse direta de criptoativos.

Análise: da esteira de produção ao botão único


Matt Hougan, diretor de investimentos da Bitwise, descreve a maturação operacional do processo em termos que soam familiares a quem acompanha a evolução de qualquer mercado de originação de ativos: "Agora se parece mais com uma esteira de produção e, no futuro, será mais como apertar um botão." A frase resume o caminho percorrido em pouco mais de um ano, de um procedimento manual e caro para um fluxo cada vez mais padronizado.

Nem tudo, porém, é velocidade. Ally Wallace, chefe global de ETFs da Morgan Stanley Investment Management, pondera que esse tipo de transação implica "um prazo maior até a execução", em razão do longo processo de orientação e verificação exigido antes de cada operação. Já Krista Lynch, chefe de negociação e mercados de capitais da Grayscale, resume o estágio atual do mercado: "Esse caso de uso nativo de cripto está em pleno funcionamento", e projeta que mais formadores de mercado passem a oferecer o serviço.

Para quem acompanha o mercado de crédito estruturado e de fundos de investimento no Brasil, o episódio ilustra um padrão conhecido: a redução de atrito operacional e tributário costuma ser o principal vetor de crescimento de volume em qualquer classe de ativo que migra de um formato bilateral e pouco padronizado para uma estrutura de fundo listada e regulada. O caso das criações in-kind em ETFs de bitcoin repete, em outro mercado, a lógica que também explica o apetite crescente por veículos estruturados como alternativa a exposições diretas e menos líquidas.

Perspectivas: o que ainda trava o acesso mais amplo


A infraestrutura por trás das criações in-kind ainda impõe limites. Cada transação depende de um participante autorizado ou formador de mercado disposto a lidar operacionalmente com criptomoedas, o que adiciona custos e explica por que o serviço nasceu voltado a detentores de posições grandes. É esse gargalo de capacidade operacional, e não uma limitação regulatória, que hoje distancia o mecanismo do investidor de varejo.

A expectativa entre os participantes do mercado é que os valores mínimos continuem caindo à medida que mais intermediários desenvolvam capacidade própria para processar esse tipo de operação ou passem a agrupar ordens de vários clientes em uma única transação. Se essa tendência se confirmar, o que hoje é um mecanismo restrito a grandes fortunas e famílias com escritórios dedicados pode, nos próximos trimestres, se tornar acessível a uma base bem mais ampla de investidores, repetindo em cripto o movimento de popularização que já se viu em outras classes de ativos antes restritas aos grandes players.


Fontes: Bloomberg Línea, "BlackRock facilita troca de bitcoin por ETFs e leva grandes fortunas para Wall Street" (29/08/2026) Categoria sugerida: Internacional Tags sugeridas: FIDC, bitcoin, ETF, ativos digitais, BlackRock, Wall Street, criação in-kind

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