Focus eleva projeção de dólar e IPCA de 2027 e trava Selic em 13,75% este ano
O Boletim Focus divulgado nesta segunda-feira, 24 de agosto de 2026, pelo Banco Central mostrou um mercado financeiro mais cauteloso com o horizonte de médio prazo.

Enquanto a inflação de 2026 segue estável em 5,02%, pela segunda semana consecutiva, os economistas consultados voltaram a elevar a projeção de IPCA para 2027, agora em 4,25%, além do câmbio esperado para o mesmo ano, que subiu para R$ 5,30. Para gestores de FIDC (Fundo de Investimento em Direitos Creditórios, veículo que compra carteiras de recebíveis de empresas e as transforma em cotas negociadas por investidores), o recado é claro: o custo de capital deve permanecer elevado por mais tempo do que muitos previam há poucos meses.
Contexto: o que é o Boletim Focus e por que ele orienta o mercado de crédito
O Boletim Focus é a pesquisa semanal do Banco Central que consolida as expectativas de instituições financeiras, gestoras e consultorias para os principais indicadores macroeconômicos do país, entre eles IPCA, Selic, PIB, câmbio e IGP-M. Ele funciona como uma bússola de consenso: não define a política monetária, mas antecipa como o mercado está lendo os próximos movimentos do Banco Central e, por consequência, como devem se comportar as taxas de juros que remuneram ativos de crédito privado.
Para o mercado de FIDC, o Focus tem peso direto. A maior parte das cotas seniores desses fundos é remunerada por um percentual do CDI, que acompanha de perto a Selic. Já a taxa de desconto aplicada na cessão de crédito (a compra dos recebíveis pelo fundo, com um deságio sobre o valor de face) também é calibrada com base nessas mesmas projeções. Quando a expectativa de juros muda, muda também o apetite dos originadores para cederem suas carteiras e o retorno exigido pelos cotistas.
O que mudou: as novas projeções e os números que merecem atenção
Segundo o Focus desta semana, a Selic para 2026 permanece em 13,75% ao ano, mantida pela terceira semana seguida após a última redução, de 14% para o nível atual. Para 2027, a taxa segue em 12% ao ano, estável pela décima semana consecutiva, e para 2028 e 2029 os economistas mantêm as estimativas em 10,50% e 10% ao ano, respectivamente.
O ponto de maior atenção ficou por conta da inflação e do câmbio para 2027. O IPCA do próximo ano subiu de 4,24% para 4,25%, um ajuste pequeno em magnitude, mas que interrompe a leitura de estabilidade que vinha sendo construída nas semanas anteriores. Já a projeção de dólar para 2027 avançou de R$ 5,29 para R$ 5,30, com o câmbio de 2026 mantido em R$ 5,20 pela décima semana seguida.
Do lado positivo, o IGP-M (índice que costuma ter maior correlação com contratos de aluguel e reajustes de preços administrados) recuou em todos os horizontes projetados: de 4,71% para 4,55% em 2026 e de 4,10% para 4,09% em 2027. Os preços administrados também cederam em 2026 e 2027, para 4,69% e 3,86%, respectivamente, ainda que tenham subido ligeiramente em 2028, para 3,60%. Já o PIB de 2026 foi revisado para baixo, de 1,98% para 1,95%, enquanto a estimativa para 2028 melhorou, de 1,89% para 1,98%.
Análise: o que o mercado de FIDC deve observar nesses números
A manutenção da Selic em 13,75% neste ano, combinada com a alta da inflação e do dólar projetados para 2027, sinaliza que o ciclo de queda de juros iniciado pelo Banco Central pode ter menos espaço para continuar no ritmo esperado anteriormente pelo mercado. "A estabilidade da Selic em patamar elevado favorece as cotas seniores de FIDCs indexadas ao CDI no curto prazo, mas encarece o funding para os originadores que dependem de crédito para capital de giro", avaliam analistas de mercado que acompanham o setor de securitização de recebíveis.
Esse cenário tende a reforçar a seletividade dos gestores na análise de PDD (Provisão para Devedores Duvidosos), já que juros mais altos por mais tempo aumentam a pressão sobre a inadimplência de pequenas e médias empresas, justamente o público mais dependente da cessão de crédito via FIDC como alternativa ao crédito bancário tradicional. Ao mesmo tempo, a leve melhora nas projeções de PIB para 2028 pode ser lida como um sinal de que o mercado não vê recessão no horizonte, o que sustenta o apetite por novas estruturas de securitização mesmo em um ambiente de juros restritivos.
Perspectivas: o que monitorar nas próximas semanas
O mercado deve seguir de olho na trajetória do IPCA de 2027, já que uma segunda alta consecutiva reforçaria a leitura de que a inflação está mais resistente do que o Banco Central gostaria. Gestores de FIDC também devem monitorar o comportamento do câmbio, especialmente porque um dólar mais caro pressiona o custo de insumos importados e pode elevar o risco de crédito de originadores expostos a moeda estrangeira.
Para o setor de crédito privado, o principal desdobramento esperado é a manutenção de spreads elevados na cessão de recebíveis enquanto a Selic não recuar de forma mais consistente. Enquanto isso, a estabilidade das projeções de longo prazo, com IPCA em 3,50% e Selic em 10% para 2029, ainda que mantida pela mesma leitura das semanas anteriores, continua servindo como âncora para os fundos que estruturam operações com prazos mais longos.
Fontes: Boletim Focus, Banco Central do Brasil, divulgado em 24/08/2026, via InfoMoney (Felipe Moreira)
FIDC NEWS
O .fidcnews é um veículo digital focado em notícias e análises sobre Fundos de Investimento em Direitos Creditórios (FIDCs), com o propósito de tornar acessíveis os dados e tendências do mercado de crédito estruturado.
Ler todas as notíciasComentários
Ainda não há comentários. Seja o primeiro a comentar.
Deixe um comentário
Seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *








