BrasilAgro volta a vender terras e fecha negócio de R$ 96,4 milhões pago em soja
Venda inclui área que voltou ao balanço depois que o comprador anterior entrou em recuperação judicial.

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A BrasilAgro passou a safra
2025/2026 inteira sem vender terras no Brasil e fechou o ciclo com prejuízo de
R$ 90 milhões. Agora voltou a vender: são 1.752 hectares úteis da Fazenda Rio
do Meio, no oeste da Bahia, a 425 sacas de soja por hectare. O pagamento é em
grãos e vai até o quinto ano. O negócio mostra como o crédito caro está mudando
a forma de pagar terras agrícolas e os recebíveis que nascem dessas vendas.
Contexto: uma safra sem vendas por causa dos juros altos
O modelo da BrasilAgro tem duas
pontas. A companhia compra terras, transforma essas áreas em fazendas
produtivas e depois vende, realizando o ganho. Na safra 2025/2026, essa segunda
ponta parou no mercado interno. A única venda foi no Paraguai: a Fazenda
Moroti, de 921 hectares, saiu em março por US$ 3.062 por hectare. A empresa
havia pago US$ 1.761 por hectare na compra.
Sem vendas no Brasil, o resultado pesou. O prejuízo do ciclo foi de R$ 90 milhões. Só no último trimestre, o déficit chegou perto de R$ 14 milhões, contra lucro de R$ 61 milhões no mesmo período de 2024/2025.
O CEO André Guillaumon explica a
parada pelo cenário econômico. "Os juros altos têm impactado demais, está
difícil viabilizar crédito", disse. Com a Selic alta, o comprador de
terras tem dificuldade para conseguir financiamento. Por isso o pagamento
parcelado em sacas de soja virou o padrão: quem paga é a própria produção da
fazenda.
O negócio: 425 sacas por hectare útil e ganho de R$ 51,5 milhões
A venda, informada em fato
relevante em 29 de setembro, cobre 2.592,97 hectares da Fazenda Rio do Meio, em
Correntina (BA). Desse total, 1.752,66 hectares são úteis. A 425 sacas por
hectare útil, o valor nominal é de R$ 96,4 milhões, cerca de R$ 55 mil por
hectare útil. Trazido a valor presente, o negócio vale R$ 78,8 milhões, ou R$
45 mil por hectare útil. A taxa interna de retorno esperada é de 26,2% em reais
e 20,9% em dólares.
A área está registrada no balanço por R$ 27,3 milhões. Esse valor soma R$ 22,6 milhões do custo de aquisição e R$ 4,7 milhões em investimentos, já descontada a depreciação. Assim, o valor presente da venda é cerca de 2,9 vezes o valor contábil. A companhia espera reconhecer um ganho de R$ 51,5 milhões, antes dos impostos, no primeiro trimestre do exercício 2026/2027.
O comprador já pagou a primeira
parcela: 181,5 mil sacas, cerca de 24% do volume contratado, o equivalente a R$
21,1 milhões. As 563,3 mil sacas restantes serão pagas em quatro parcelas
anuais. A BrasilAgro também arrendou outros 383,44 hectares úteis da mesma
fazenda até junho de 2030. O arrendatário pode comprar essa área até março de
2028, pelo mesmo preço de 425 sacas por hectare útil. O documento não
identifica o comprador nem o arrendatário.
A área "resgatada" e o risco de contraparte
Parte da área vendida agora já
tinha sido vendida antes. Ela voltou ao balanço em abril de 2026, quando a
BrasilAgro e o comprador anterior desfizeram o contrato de forma consensual.
Esse comprador, que nunca foi identificado, entrou em recuperação judicial e
parou de pagar. O contrato previa a venda de 4.559 hectares (3,2 mil úteis) por
746.579 sacas de soja, cerca de 232 sacas por hectare útil.
Com o fim do contrato, a companhia deixou de ter R$ 47,1 milhões a receber, em valor presente na posição de 31 de dezembro de 2025. Em troca, 2,2 mil hectares úteis voltaram ao portfólio. Do contrato original, 366 hectares úteis já estavam pagos e escriturados. Outros 628 hectares úteis ainda podem ser escriturados, se as condições previstas no contrato forem cumpridas.
O caso é uma lição para quem
analisa crédito no agro. Um recebível de venda de terra, pago em grãos ao longo
de vários anos, depende da saúde financeira do comprador durante todo esse
prazo. Desta vez, a garantia funcionou: a terra voltou para a vendedora e foi
revendida por quase o dobro de sacas por hectare.
Análise: o preço sobe em sacas, mas fica estável em reais
O histórico da Fazenda Rio do
Meio ajuda a entender o mercado. A propriedade foi comprada em janeiro de 2020,
com 12.288 hectares, e vendida em etapas:
- Em 2021, cerca de 2,8 mil hectares saíram por R$ 130,1 milhões, a 250 sacas por hectare útil (cerca de R$ 45,5 mil).
- Em 2022, mais 1,4 mil hectares úteis foram vendidos por R$ 62,4 milhões, a 291 sacas por hectare útil (cerca de R$ 43,9 mil).
- Em março de 2024, uma área da Fazenda Chaparral, também em Correntina, foi vendida a 350 sacas, ou R$ 41,4 mil por hectare útil.
Medido em sacas, o preço da terra subiu muito: de 250 para 425 sacas em cinco anos, alta de 21% só desde 2024. Em reais, porém, o valor presente de R$ 45 mil por hectare fica dentro da faixa de R$ 41,4 mil a R$ 45,5 mil praticada na região desde 2021. A soja ficou mais barata em reais, e por isso o comprador precisa entregar mais sacas pelo mesmo valor.
Para o mercado de crédito, isso importa. Quando a venda é fechada em sacas, o recebível fica exposto ao preço da soja e ao câmbio, não só ao risco do comprador. Esse tipo de fluxo, longo e atrelado a commodity, é o que costuma ser analisado em estruturas de FIDC (Fundo de Investimento em Direitos Creditórios) e CRA (Certificado de Recebíveis do Agronegócio) voltadas ao agro. Nessas análises, pesam o preço travado, a garantia real e o histórico de pagamento do devedor.
Guillaumon diz que a empresa tem
fôlego para escolher com calma. "Nós ainda temos muitos recebíveis de
fazendas já vendidas e nosso nível de endividamento está saudável. Podemos ter
mais seletividade para fechar transações", afirmou.
Perspectivas: o que observar na safra 2026/2027
O CEO está otimista com a safra
2026/2027 e quer que a companhia volte a projetar vendas de terras ao longo do
ciclo. O ritmo vai depender dos juros: se a Selic cair, o comprador volta a ter
crédito e a necessidade de pagar em grãos diminui.
Para investidores e gestores de crédito agro, há três pontos para acompanhar:
- se as quatro parcelas anuais em soja serão pagas em dia;
- se o arrendatário vai usar a opção de compra até 2028;
- se o mercado mantém a referência de 425 sacas por hectare útil nas próximas vendas no oeste baiano.
O caso Rio do Meio já mostrou que, no agro, o risco de quem compra pesa tanto quanto o preço da terra.
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