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AgronegócioFidcs & FundosCrédito privado

El Niño pode cortar 9,7% da safra de soja e põe o crédito agro em alerta

Estudo da Serasa Experian aponta que quebra de safra por El Niño pode pressionar o caixa do produtor rural, e o crédito agro entra no radar.

FIDC NEWSFIDC NEWS 5 min de leituraSem comentários

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Projeção da Serasa Experian indica perda de 17,6 milhões de toneladas e R$ 33 bilhões em Valor Bruto da Produção. Para quem financia o campo, o risco está na alavancagem de cada produtor.

Contexto: clima irregular e uma safra que ainda está sendo plantada

O Brasil entra na safra 2026/27 de soja com área maior e clima incerto. A área nacional de plantio está estimada em 49,9 milhões de hectares, avanço de 1,8%, ou quase 1 milhão de hectares a mais. Cerca de 40% das lavouras já foram semeadas. O tamanho da área, porém, não garante a colheita.

O fenômeno El Niño causa instabilidade de chuvas, sobretudo no Centro-Oeste, principal região produtora do país. É nesse ponto que o setor concentra a atenção, porque o regime de chuvas entre novembro e janeiro será determinante para a produtividade. Para o financiador do agronegócio, a safra é a origem do fluxo de caixa que paga as operações de crédito do produtor. Esse fluxo é a base de recebíveis do agro, o lastro de parte relevante dos FIDCs (Fundos de Investimento em Direitos Creditórios) do setor.

O que mudou: o estudo e os números

Em estudo divulgado nesta terça-feira (27/10), a Serasa Experian estimou que o El Niño tem potencial para reduzir em 9,7% a produção brasileira de soja na safra 2026/27. A diferença equivale a cerca de 17,6 milhões de toneladas. Se confirmada, a colheita nacional seria de 163,6 milhões de toneladas.

A metodologia compara dois cenários. A safra 2023/24, influenciada por um El Niño forte, representa o fenômeno ativo. A safra 2024/25 serve de referência para clima neutro. A Serasa aplica a perda de produtividade observada naquele ciclo ao cenário atual.

Com base na cotação da soja em agosto, a diferença de produção representaria impacto de cerca de R$ 33 bilhões no Valor Bruto da Produção (VBP) da soja brasileira. O VBP estimado pelo Ministério da Agricultura é de R$ 340,6 bilhões. O estudo calculou valor médio de aproximadamente R$ 1,88 mil por tonelada, em um cenário de produção normal, que foi de 181,5 milhões de toneladas na safra 2025/26.

A própria Serasa ressalta que o cálculo é indicativo. Ele mantém constantes os preços de referência e não representa projeção de perda financeira efetiva, já que alterações na oferta podem influenciar os preços da soja e outras condições de comercialização.

O estudo também cruzou a sensibilidade de cada estado ao fenômeno com sua relevância produtiva. Mato Grosso e Rio Grande do Sul se destacam pela combinação de alta sensibilidade e alta relevância, mas com comportamentos opostos.

Em Mato Grosso, a área estimada é de 12,7 milhões de hectares, alta de 2,2%. A produtividade cairia de 4.028 kg/ha, no cenário neutro, para 3.266 kg/ha, com o El Niño ativo e forte. A produção potencial iria de 51,2 milhões para 41,5 milhões de toneladas. Segundo Daniel de Oliveira, gerente de geoprocessamento Agro da Serasa Experian, o plantio no estado já passou de 70% da área estimada, e as chuvas se regularizaram em outubro depois de alguma dificuldade no início.

No Rio Grande do Sul, a área estimada é de 7,1 milhões de hectares, crescimento de 2,9%. A produtividade passaria de 2.342 kg/ha para 3.117 kg/ha com El Niño, e a produção subiria de 16,7 milhões para 22,3 milhões de toneladas. O fenômeno elimina períodos de seca que costumam ocorrer no estado, mas o excesso de chuva também deixa o setor em alerta para doenças fúngicas.

Goiás aparece como o outro polo de risco. O estudo estima potencial de perda de cerca de 4 milhões de toneladas no estado, que poderá produzir 20,25 milhões de toneladas em 2026/27. Em regiões de sequeiro, a semeadura “ainda está muito tímida”, segundo Oliveira, e há produtores no norte do estado aguardando condições climáticas melhores para plantar.

Análise: da quebra de safra à inadimplência

A pergunta central para o mercado de crédito é se a perda de colheita vira inadimplência. A resposta da Serasa é que depende de cada produtor. “A produção está totalmente conectada com a geração de caixa do agricultor”, observou Marcelo Pimenta, head de agronegócio da Serasa Experian. O que define se a quebra vai se refletir em calote, segundo ele, é a alavancagem e a distribuição de risco de cada produtor rural.

“Se há alta alavancagem e ele tem dificuldade de renovar seus créditos, isso pode afetar a inadimplência dele e lá na frente virar uma recuperação judicial”, afirmou Pimenta. Ele também relativizou o quadro: o cenário não é generalizado, e somente um agricultor pede recuperação judicial a cada 10 mil que produzem. “E a inadimplência machuca mais que a RJ”, completou.

Para FIDCs com carteira de recebíveis do agro, a leitura é de seleção, não de pânico. Fundos expostos a produtores muito alavancados, com dificuldade de renovar crédito e concentrados nas regiões de maior risco climático, tendem a ficar mais sensíveis. Já carteiras pulverizadas, com cedentes de menor alavancagem e distribuição geográfica diversificada, ficam menos expostas. Na ponta do investidor, a diferença pode aparecer em indicadores como a inadimplência da carteira e a necessidade de PDD (Provisão para Devedores Duvidosos), conforme a evolução do clima.

Há ainda um efeito de compensação regional. Se o Rio Grande do Sul de fato produzir mais, parte da perda do Centro-Oeste pode ser amortecida no total nacional, embora os efeitos de cada produtor sigam locais. Um cedente do Mato Grosso ou de Goiás não é compensado por uma lavoura gaúcha produtiva.

Perspectivas: o que monitorar até janeiro

O primeiro ponto de atenção é a distribuição das chuvas entre novembro e janeiro, que decidirá a produtividade da soja e também a da segunda safra. Como o plantio da soja ocorreu em quase metade das áreas, por enquanto a janela do milho segunda safra estaria preservada. Mas, tomando como base o ciclo 2023/24, regiões em que o produtor não conseguiu semear adequadamente derrubaram a produtividade do milho segunda safra, e esse cenário pode se repetir na metade das áreas que ainda precisa ser plantada.

O segundo é a janela de plantio em Goiás, onde a semeadura em áreas de sequeiro segue lenta. O terceiro é a reação dos preços: como a Serasa mantém preços constantes, uma quebra efetiva pode alterar a cotação da soja, o que muda o tamanho real do impacto sobre a receita do produtor.

Para gestores de FIDCs, o momento pede atenção ao acompanhamento da carteira, à renovação de crédito dos cedentes e à concentração por região. A safra ainda está em plantio e o cenário de perda é potencial, não consumado.


Fontes: Globo Rural, “El Niño pode reduzir safra de soja em quase 10% e causar perdas de R$ 33 bilhões” (27/10/2026), com dados do estudo da Serasa Experian

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