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InternacionalMercado

Damodaran diz que arbitragem regulatória impulsionou ascensão do Nubank

Aswath Damodaran, professor da Universidade de Nova York e uma das maiores referências mundiais em "valuation" (técnica de atribuir preço às empresas), afirmou em entrevista ao jornal Valor que o Nubank se beneficiou de uma abordagem regulatória mais branda em relação às fintechs para crescer no mercado bancário brasileiro.

.fnFIDC NEWS 21/08/20264 min de leituraSem comentários
Damodaran diz que arbitragem regulatória impulsionou ascensão do Nubank

Para ele, o teste real do neobanco começa agora, no momento em que a empresa passa a operar com as mesmas exigências dos bancos incumbentes.

O IPO que já sinalizava a disrupção


Damodaran contou que acompanhou com grande interesse a estreia do Nubank na bolsa de Nova York, em 2021. Na ocasião, o neobanco estreou com valor de mercado de US$ 41,5 bilhões, superando Itaú (US$ 37,7 bilhões) e Bradesco (US$ 33,3 bilhões), os dois maiores bancos brasileiros e incumbentes com décadas de atuação no setor. O dado, citado pelo próprio professor, ilustra a velocidade com que uma empresa nascida como fintech conseguiu superar, em valor de mercado, instituições financeiras consolidadas e reguladas há décadas.

A tese da arbitragem regulatória


Para o especialista, o "hype" em torno do Nubank, a operação enxuta e a atualização do modelo de negócio bancário para as novas gerações explicam parte do sucesso, mas não tudo. Segundo ele, a companhia também se beneficiou da economia de custos gerada por um arcabouço regulatório menos rígido, aplicado às fintechs.

"Claramente o Nubank, como a maioria das outras fintechs brasileiras e globais, se beneficiou da arbitragem regulatória. As exigências de report de informações, compliance, capital são menos onerosas", disse Damodaran ao Valor.

O professor também atribuiu a expansão do Nubank e o ganho de fatia de mercado à exploração de produtos de baixo custo e menor margem, voltados a públicos até então desbancarizados e de maior risco, historicamente negligenciados pelos bancos tradicionais. "Quem não gosta de coisa grátis? Principalmente se for boa, como um cartão de crédito?", questionou.

Esse ponto interessa diretamente ao mercado de crédito estruturado. Fintechs que crescem oferecendo crédito a públicos de maior risco e menor histórico bancário costumam se apoiar, em algum grau, em estruturas de cessão de crédito e parcerias com fundos e investidores institucionais para financiar sua carteira. Quanto menor o custo regulatório de originação, maior o espaço para competir via preço, o que tende a pressionar margens de originadores concorrentes e a redesenhar o apetite de risco de quem compra esses recebíveis.

Fim da vantagem regulatória e o novo capítulo bancário

O cenário, no entanto, está mudando. Segundo Damodaran, o principal desafio do Nubank agora é manter o mesmo nível de desempenho no momento em que a empresa também se torna, formalmente, um banco, sujeito às mesmas exigências das demais instituições financeiras.

No final de julho, o Nubank anunciou a compra do Banco Porto Real de Investimento, incorporando ao grupo uma instituição com licença bancária. O movimento atende a uma nova regra do Banco Central (BC) que trata do uso do termo "banco" pelas instituições. Na prática, isso significa que a vantagem de custo regulatório citada por Damodaran tende a se estreitar, à medida que o Nubank passa a se enquadrar nas mesmas exigências de capital, compliance e reporte que sempre pesaram sobre Itaú, Bradesco e demais bancos incumbentes.

Análise: o que dizem os especialistas


"Quero ver o Nubank manter o mesmo desempenho como banco. Ele está ficando cada vez mais parecido com os bancos incumbentes e será difícil reinventar o negócio", avaliou Damodaran.

A fala resume o ponto central da entrevista: a vantagem competitiva que sustentou o crescimento acelerado do Nubank nos últimos anos tinha, em parte, origem regulatória, e não apenas em eficiência operacional ou inovação de produto. Trata-se de um alerta relevante para investidores que hoje precificam fintechs e neobancos com múltiplos superiores aos de bancos tradicionais, com base na premissa de que a diferença de custo regulatório é permanente.

Perspectivas: o que monitorar

Para gestores de crédito privado e estruturas de securitização, a mudança de status regulatório do Nubank é um ponto de atenção. Uma fintech que se torna banco tende a ficar sujeita a exigências de capital, provisionamento e supervisão mais próximas das de qualquer instituição financeira tradicional, o que pode alterar sua estratégia de originação, seu apetite por produtos de maior risco e, eventualmente, sua relação com veículos de securitização que hoje adquirem recebíveis originados por fintechs.

O caso do Nubank também serve como referência para o debate mais amplo sobre arbitragem regulatória no setor financeiro brasileiro: à medida que o Banco Central reduz as diferenças de tratamento entre bancos e fintechs, o custo de operação de instituições digitais tende a subir, o que pode se refletir tanto em preços ao consumidor final quanto nas condições de cessão de crédito para fundos e investidores institucionais. O mercado deve acompanhar de perto os próximos resultados do Nubank como instituição bancária plena, para avaliar se o desempenho histórico se sustenta sob as novas regras.


Fonte: Toni Sciarretta, "Quero ver o Nubank manter o mesmo desempenho como banco, diz Damodaran", Valor Econômico, 20/08/2026

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