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Recuperações judiciais em alta exigem do gestor de FIDC atenção redobrada à operação da cedente
Crescimento de empresas em crise em meio à expansão dos fundos de crédito torna a rotina operacional da originadora o termômetro decisivo para a proteção das carteiras.

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Foto: Divulgação
SÃO PAULO — Conceder crédito no Brasil impõe desafios crescentes de gestão e liquidez. O indicador de recuperações judiciais da Serasa Experian registrou 65 pedidos em maio, alcançando 237 CNPJs, ante 160 no mês anterior, alta de 48,1% no volume de empresas atingidas. Os processos tornam-se mais complexos e abrangem grupos econômicos inteiros, muitos deles cedentes habituais de Fundos de Investimento em Direitos Creditórios (FIDCs).
Em paralelo, a indústria de crédito estruturado avança em ritmo acelerado. Dados da ANBIMA apontam captação líquida de R$ 57,6 bilhões pelos FIDCs em 2025 e outros R$ 56 bilhões entre janeiro e setembro de 2026, com patrimônio líquido total acima de R$ 900 bilhões. O volume recorde de recursos e cotistas contrasta com a pressão financeira que afeta as empresas no campo.
Nesse ambiente, a estrutura do fundo resguarda o estoque, mas não substitui a vigilância cotidiana. O lastro futuro depende da capacidade da cedente de manter compras de matéria-prima, produção ativa, faturamento e entregas pontuais aos sacados. Os primeiros sintomas de estresse financeiro raramente despontam com clareza nos relatórios contábeis de curto prazo.
"Nas operações em que atuamos na reestruturação, os sinais de alerta surgem na rotina fabril e logística muito antes do pedido formal de recuperação judicial. O estresse aparece no atraso com fornecedores estratégicos, na redução dos estoques de insumos e na multiplicação de antecipações apenas para cobrir despesas imediatas de folha e caixa. Quem avalia apenas o balanço descobre o problema tarde demais", afirma Marlon Korbes, sócio-fundador e CEO da Force Partners, consultoria especializada em reestruturação empresarial e turnaround.
Para o comitê e o gestor do fundo, o monitoramento preventivo exige foco em três frentes complementares:
Movimentação da carteira cedida: aumento de prorrogações, pedidos frequentes de recompra e concentração de recebíveis em poucos sacados;
Comportamento dos indicadores operacionais: taxa de ocupação da capacidade produtiva, prazos médios de pagamento a fornecedores e nível de insumos em estoque;
Transparência e rotina de governança: regularidade, detalhamento e pontualidade nos reportes de evolução dos planos de reestruturação em curso.
"Em companhias em processo de reestruturação, a postura da administração sinaliza mais do que os números brutos. Quando os relatórios periódicos sofrem atrasos injustificados, as explicações operacionais perdem clareza ou as metas mudam sem fundamento técnico, o gestor do fundo deve acionar o sinal de alerta. Uma empresa focada na execução de um plano consistente entrega previsibilidade e não teme expor sua rotina operacional" , pontua Korbes.
O conhecimento do chão de fábrica e das cadeias de suprimento apoia decisões mais precisas de crédito. Ele permite diferenciar a organização que atravessa uma compressão transitória de liquidez, amparada por plano crível de ajuste, daquela que apenas rola passivos sem perspectiva de retomada. No primeiro caso, repactuações estruturadas preservam o valor da carteira; no segundo, qualquer postergação de prazo apenas eleva o prejuízo do fundo.
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