JPMorgan corta preço-alvo do Bradesco de R$ 26 para R$ 18 e vê crédito mais fraco em 2027
Dois rebaixamentos em sequência no Bradesco expõem a cautela do mercado com o crédito bancário em 2027, e o ciclo pode reposicionar o crédito privado.

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O Bradesco (BBDC4) recebeu dois rebaixamentos de recomendação em sequência, do Itaú BBA e do JPMorgan. Os analistas projetam juros altos, crédito mais lento e inadimplência em alta no próximo ano, um cenário que reordena o mapa de oferta de crédito no país.
Contexto: cautela com bancos após as eleições
A visão dos analistas sobre os grandes bancos brasileiros ficou mais conservadora depois do período eleitoral. A expectativa é de um ambiente macroeconômico mais duro em 2027, com atividade econômica mais fraca, taxa de juros em patamar elevado e piora da qualidade dos ativos, isto é, mais clientes com dificuldade de pagar o que devem.
Na véspera do corte do JPMorgan, o Itaú BBA já havia alertado que essa combinação, somada a maiores provisões para perdas com crédito, deve limitar os avanços de rentabilidade vistos nos últimos trimestres. Provisão é o dinheiro que o banco separa para cobrir calotes esperados. Quando ela sobe, o lucro cai.
Esse é o pano de fundo que importa para quem atua com crédito privado. Os bancos são, ao mesmo tempo, concorrentes e originadores do mercado de FIDCs (Fundos de Investimento em Direitos Creditórios). Uma mudança de postura deles na concessão de crédito costuma ter reflexo direto na oferta de recebíveis e no apetite por risco.
O que mudou: dois cortes e um novo preço-alvo
O Itaú BBA rebaixou a recomendação das ações do Bradesco de compra para neutra (market perform). O JPMorgan fez o mesmo movimento, de overweight, equivalente a compra, para neutra. O banco americano também reduziu o preço-alvo para dezembro de 2027 de R$ 26 para R$ 18, uma queda de cerca de 31%.
As projeções do JPMorgan ajudam a entender o corte. O retorno sobre patrimônio (ROE) do Bradesco deve cair de cerca de 15% em 2026 para 14% em 2027. O lucro líquido deve crescer apenas 2% no ano que vem, para aproximadamente R$ 27,9 bilhões. A carteira de crédito, por sua vez, deve desacelerar para algo próximo de 6% nos próximos trimestres.
O relatório incorpora ainda uma redução de 10 pontos-base na margem financeira com clientes (NII), a diferença entre o que o banco ganha ao emprestar e o que paga para captar. Na gestão de ativos e passivos, a própria administração do Bradesco indica que cada alta de 100 pontos-base nos juros pode gerar perdas próximas de R$ 900 milhões.
Análise: onde o JPMorgan enxerga os riscos
O primeiro ponto de atenção é a desaceleração em linhas que hoje sustentam a expansão da carteira: consignado privado, crédito a pequenas e médias empresas apoiado por programas governamentais (FGI e FGO), financiamento de veículos e empréstimos a grandes companhias. Uma política de crédito mais conservadora deve comprimir spreads e limitar o crescimento dos volumes.
O segundo é a qualidade dos ativos. A inadimplência de pessoas físicas segue em alta, mesmo após ajustes pelas mudanças recentes nas políticas de baixa contábil de créditos vencidos. O JPMorgan espera deterioração mais acentuada em 2027, tanto em pessoas físicas quanto em empresas, o que eleva o custo do risco e as despesas com provisões.
O terceiro é a curva de juros. Uma curva mais inclinada pode prejudicar as receitas financeiras de tesouraria e afetar patrimônio e capital regulatório. O banco americano vê ainda o risco de interrupção na melhora gradual de rentabilidade que o Bradesco vinha entregando.
As ações negociam perto de 0,9 vez o valor patrimonial, nível considerado barato historicamente. Para o JPMorgan, porém, o desconto não basta para sustentar uma recomendação mais positiva sem sinais claros de retomada da rentabilidade. Entre os grandes bancos, a preferência do banco americano é o Itaú Unibanco (ITUB4), visto como mais bem preparado para um cenário difícil e com potencial de ganhar participação de mercado.
Perspectivas: o que monitorar
Para o mercado de crédito privado, o movimento merece acompanhamento em três frentes. A primeira é a política de concessão dos grandes bancos nos segmentos de PMEs e consumo, que pode abrir espaço para originadores não bancários e, por consequência, para estruturas de FIDC. A segunda é a inadimplência de pessoas físicas, que tende a pressionar também carteiras cedidas a fundos. A terceira é a trajetória dos juros, que define o custo de captação e a atratividade relativa entre títulos públicos e crédito estruturado.
Vale a ressalva de que esse é um desdobramento possível e não um efeito confirmado nos números do setor de FIDCs. Os resultados do terceiro trimestre dos bancos e os próximos dados de inadimplência devem indicar se a cautela dos analistas se converte em restrição efetiva de crédito.
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