Boulos rejeita ajuste fiscal e põe crédito privado sob pressão de juros altos
Governo sinaliza que ajuste não virá por cortes sociais, enquanto o mercado já precifica juros mais altos por mais tempo

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Crédito: Fabio Rodrigues-Pozzebom/ Agência Brasil
O ministro-chefe da Secretaria-Geral da Presidência afirmou que a agenda econômica será a “que venceu as eleições”. Os mercados de juros, câmbio e crédito vêm reprecificando o risco fiscal desde a reeleição de Lula, e os gestores de FIDC acompanham o desdobramento de perto.
Contexto: um mercado que apostava em outro resultado
Antes do segundo turno, o mercado havia precificado a vitória de Flávio Bolsonaro (PL), que as casas de apostas davam com cerca de 80% de chance. Com a reeleição de Lula na noite de domingo (25), o pregão de segunda (26) teve queda de 13,88% do Ibovespa, aos 176.608 pontos, e acionou o circuit breaker pela primeira vez desde 2020. O dólar comercial subiu 8,21%, a R$ 5,40, a maior alta diária desde janeiro de 1999.
A curva de juros mudou de formato. O DI para janeiro de 2029 saiu de 12,64% para 15,22%, e a curva, que era invertida na sexta-feira, passou a ter inclinação positiva. O mercado, nas palavras da coluna de Guilherme Carter no Times Brasil, “deixou de esperar cortes e passou a embutir alta dos juros nos próximos dois anos”. A Selic está em 13,75%, e a próxima reunião do Copom é em 4 de novembro.
O fato central: “o Tesouraço foi derrotado nas urnas”
Em publicação no X, o ministro Guilherme Boulos reagiu às falas de que Lula precisaria fazer ajuste fiscal com cortes em políticas sociais. Segundo ele, quem defende isso “não entendeu nada do que foi essa eleição”. Boulos se referiu ao “Tesouraço”, proposta de Flávio Bolsonaro de cortar R$ 200 bilhões em gastos. “O Tesouraço foi derrotado nas urnas e pela mobilização popular. O candidato da Faria Lima perdeu e fugiu para os EUA”, escreveu. E completou: “A agenda econômica do Brasil será a que venceu as eleições, não a que perdeu!”
A ex-ministra do Planejamento Simone Tebet (PSB) defende uma posição intermediária. Em entrevista à CNN Brasil na quarta-feira (28), disse apoiar o ajuste, mas sem cortes em programas sociais, e apontou “gordura” em renúncias fiscais. Ela também defendeu uma PEC de contenção de gastos ainda nesta legislatura, porque “a janela de oportunidade é agora”. O novo mandato de Lula começa em 5 de janeiro de 2027.
Os números do ponto de partida são duros. A dívida bruta estava em 82,9% do PIB em agosto, e a mediana do Focus para 2030 subiu de 92% para 95,1%. O projeto de orçamento de 2027 prevê superávit primário de R$ 18,6 bilhões (0,13% do PIB), contra a meta de 0,5% do PIB. A IFI projeta déficit de R$ 86,1 bilhões. A Kinea estima que seria preciso um superávit imediato de cerca de 2% do PIB para estabilizar a dívida.
Na terça-feira, o ministro da Fazenda, Dario Durigan, disse que o governo pretende elevar o superávit de 2027 e mirar o centro da banda da meta, e que parte do crédito subsidiado de 2026 pode não ser renovada.
O que dizem os especialistas
O impacto sobre o crédito privado aparece de forma indireta e defasada. Em nota de 28 de outubro, o Safra avalia que “o choque imediato não altera a solvência dos emissores, mas encarece o serviço da dívida”. Na simulação do banco, uma empresa com dívida líquida de 3x o Ebitda vê a cobertura de juros cair de 2,3x para 2,1x. Para quem está entre 3,5x e 4x, a cobertura fica entre 1,5x e 1,8x, no limite do piso de 1,5x comum em debêntures. O Safra ainda observa que spreads atrelados ao CDI podem se abrir meses depois de um choque soberano.
Alexandre Muller, CIO da Leto Capital, gestora de crédito privado, disse ao InfoMoney que o ajuste “já estava contratado” para 2027, mas agora será feito “com preços de mercado menos favoráveis”. Para ele, “a reprecificação foi muito dura e sinaliza que o mercado vai cobrar entregas efetivas”. Muller espera Selic média de dois dígitos nos próximos quatro anos e um “boca de jacaré” entre emissores de alta e de baixa qualidade, com empresas revendo planos de investimento para 2027.
Os spreads de crédito privado oscilaram pouco até agora, em parte porque as debêntures são majoritariamente pós-fixadas.
Atenção para o FIDC: a cota não é marcada a mercado
Levantamento preliminar do NeoFeed com dados da CVM mostra que a indústria de fundos perdeu R$ 118,7 bilhões na segunda-feira, sendo R$ 74,8 bilhões em ações, R$ 23,2 bilhões em renda fixa e R$ 7,2 bilhões em crédito privado com duração livre. Os FIDCs ficaram fora da conta, porque não constam do informe diário da CVM, então não há número oficial do efeito sobre esses fundos.
Muller faz um alerta que interessa diretamente ao gestor e ao cotista de FIDC: as cotas não sofrem marcação a mercado. “Pode até ter havido deterioração em algumas operações, mas a cota acaba não refletindo”, disse. A ausência de oscilação no preço não significa ausência de risco, e o efeito tende a chegar pela via do custo de originação, da inadimplência e da capacidade de pagamento dos cedentes.
Perspectivas: o que monitorar
O primeiro teste é o Copom de 4 de novembro. Depois, três indicadores: as taxas que o Tesouro aceitará quando os leilões forem retomados (os leilões de prefixados e NTN-B da semana foram cancelados), a inclinação da curva DI entre 2027 e 2029 e a velocidade de repasse do custo de capital às taxas de crédito. O Safra aponta DI de janeiro de 2029 abaixo de 13,90% como sinal de redução do prêmio fiscal, e acima de 14,80% com CDS de 5 anos acima de 165 pontos-base como sinal de estresse prolongado. Em 27/10, o DI estava em 14,76%.
A Kinea fala em uma janela de 18 meses, até meados de 2028, para ajustar antes das eleições municipais. Muller cita ainda a possível volta da discussão sobre tributação de títulos isentos, o que afetaria a competitividade dos instrumentos incentivados frente a estruturas como o FIDC. Para o gestor de FIDC, o cenário pede atenção à qualidade dos cedentes e à cobertura de juros dos devedores. A mensagem do governo até aqui é de ajuste sem cortes sociais, enquanto o mercado pede entrega concreta.
Fontes:
CNN Brasil: Boulos: quem defende que Lula faça ajuste fiscal não entendeu eleição
Times Brasil: A reação da bolsa, do câmbio, dos juros e do crédito à reeleição de Lula
Gazeta do Povo: Lula começa novo mandato sob forte pressão por ajuste fiscal
Safra: Cenário pós-eleição eleva custo da dívida e pressiona crédito privado
NeoFeed: Indústria de fundos perde mais de R$ 100 bilhões no dia seguinte à reeleição de Lula
InfoMoney: Recado duro do mercado pode acelerar ajuste fiscal de Lula, diz Leto Capital
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