Sem controle do gasto público, ciclo de corte de juros pode acabar em 2026, diz Mansueto
Sem um plano para conter as despesas do governo, o ciclo de queda da Selic pode terminar em 2026, e o custo do dinheiro volta ao centro da conta do crédito privado.

As notícias de FIDCs e crédito estruturado, direto no seu e-mail.
Imagem: ADRIANO MACHADO
O economista-chefe do BTG Pactual, Mansueto Almeida, afirmou que a continuidade da queda da Selic depende de um plano crível de controle das despesas. Para quem estrutura e investe em FIDC (Fundo de Investimento em Direitos Creditórios), o recado mexe diretamente com custo de captação, spreads e a atratividade da renda fixa.
Contexto: eleição definida e mercado em alerta
A fala ocorreu em evento do BTG Pactual em São Paulo, na semana seguinte à vitória de Luiz Inácio Lula da Silva sobre o senador Flávio Bolsonaro (PL) na eleição presidencial. Desde o resultado, a B3 operou em baixa e o real se desvalorizou. Lula assume o novo mandato em janeiro de 2027, e o mercado ainda aguarda a definição da equipe econômica e das diretrizes fiscais.
Esse pano de fundo importa porque o Banco Central vinha reduzindo a taxa básica de juros, e o rumo dessa trajetória depende da percepção de risco fiscal. Quando os investidores passam a esperar inflação maior, exigem juros mais altos para financiar o governo. Isso encarece toda a curva de crédito da economia e dificulta o trabalho da autoridade monetária.
O que mudou: sem ajuste, o ciclo de queda pode acabar
Segundo Mansueto, se o gasto público for controlado, o Banco Central poderá manter o ciclo de cortes. Se não for, a tendência é que ele termine ainda este ano. “Possivelmente, o ciclo de juros do Brasil acabou”, afirmou, ao avaliar o risco de interrupção das reduções da Selic.
O economista disse que “não há alternativa” para derrubar os juros sem conter o crescimento das despesas. Em um dos cenários apresentados, a taxa chegaria ao início de 2027 em 13,75% ao ano, patamar que ele classificou como muito alto e que levaria empresas e famílias a adiar investimentos. Ele também afirmou que o país não consegue administrar a dívida com juro real de 7% a 8% ao ano, e que a política monetária, sozinha, não compensa uma trajetória fiscal insustentável.
Mansueto citou ainda o petróleo. O preço da commodity elevou a expectativa de inflação em praticamente todos os países, de modo que o mercado reage não apenas à eleição, mas também ao cenário externo.
Análise: o que o ajuste precisa conter
Para o economista, o ponto de partida é um compromisso explícito com o arcabouço fiscal e a definição da equipe econômica e de um plano fiscal “nos próximos 30 dias”, o que poderia acalmar o mercado. Entre as medidas que citou estão o ajuste das despesas obrigatórias, a reforma administrativa com teto salarial efetivo para todas as carreiras e a revisão de incentivos tributários, que geram, nas palavras dele, “custo de ineficiência para todo mundo”. Mansueto também defendeu uma agenda robusta de concessões, com agências reguladoras fortalecidas e respeito aos contratos.
Sobre o crescimento, afirmou que o avanço de cerca de 3% em quatro anos veio da queda do desemprego, e não de ganhos de produtividade. A atividade já desacelera desde o fim do segundo trimestre e deve começar 2027 fraca, independentemente das decisões do governo. Como sinal de recuperação da confiança, ele aponta a queda do juro real: “Quando o juro real começar a cair, isso é um melhor sinal”.
Ele ressalvou que o período de 2016 a 2018, quando a Selic caiu de 14,25% para 6,5% ao ano, não se repete automaticamente, pois inflação, cenário internacional e condições fiscais são diferentes.
O que isso significa para o mercado de FIDC
A Selic é a referência de custo para a maior parte do crédito. Em FIDCs, ela pesa na remuneração das cotas sêniores, que costumam ser indexadas ao CDI, e no custo de captação dos originadores que cedem os recebíveis. Juros altos por mais tempo pressionam as taxas cobradas dos tomadores e podem elevar a inadimplência, o que afeta provisões (PDD) e a qualidade da carteira cedida.
Por outro lado, o juro elevado mantém o retorno da renda fixa atraente para o investidor e sustenta a demanda por crédito privado estruturado. A leitura da gestão de risco, porém, tende a ficar mais seletiva: spreads, subordinação e qualidade do originador ganham peso quando a perspectiva de queda da taxa básica se enfraquece.
Perspectivas: o que monitorar
O primeiro marco é a definição da equipe econômica e das diretrizes fiscais do novo governo, que Mansueto espera nos próximos 30 dias. Em seguida, vale acompanhar as próximas decisões do Comitê de Política Monetária (Copom), a evolução das expectativas de inflação para 2027 a 2029 e o comportamento da curva de juros longos, em especial dos títulos IPCA+ (NTN-B), principal termômetro do risco fiscal. Uma melhora consistente das expectativas abriria espaço para mais cortes e menor custo de capital. A ausência de um plano fiscal pode manter o juro alto e adiar a retomada do crédito.
Fontes:
Newsletter FIDC News
Não perca a próxima edição
As movimentações do mercado de FIDCs, securitização e recebíveis, com a análise do FIDC News, no seu e-mail.
Gratuita. Você cancela quando quiser. Veja a Política de Privacidade.

O .fidcnews é um veículo digital focado em notícias e análises sobre Fundos de Investimento em Direitos Creditórios (FIDC), com o propósito de tornar acessíveis os dados e tendências do mercado de crédito estruturado. Nossas matérias devem ser entendidas como boletins informativos e divulgadores de insights setoriais, não configurando recomendação de investimento.
Comentários
Ainda não há comentários. Seja o primeiro a comentar.
Deixe um comentário
Seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *








