Autofalência de fabricante de motores em SC reacende alerta para carteiras de recebíveis
Quando a indústria quebra, o risco chega às carteiras de recebíveis.

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Foto: Nova Motores e Fios
Fábrica de Schroeder pediu a própria falência e dispensou todos os funcionários. O caso ocorre num momento de recuperações judiciais em patamar elevado e de atrasos crescentes nos FIDCs (Fundos de Investimento em Direitos Creditórios).
Contexto: crise corporativa em patamar elevado
A Nova Motores e Fios Ltda., conhecida como Morita Motors, anunciou o encerramento definitivo das atividades em Schroeder, no Norte de Santa Catarina. A empresa foi fundada em 2008 e fabrica motores elétricos, alternadores síncronos, fios esmaltados e fundidos em ferro cinzento. A decisão foi divulgada em 29 de outubro de 2026, segundo o ND Mais.
O caso não é isolado no cenário macro. Em maio de 2026, a Serasa Experian registrou 65 pedidos de recuperação judicial, envolvendo 237 CNPJs. Desses, 39 eram da indústria, atrás de serviços (103), agropecuária (53) e comércio (42).
Para o mercado de crédito privado, o dado importa porque a indústria é uma das principais originadoras de direitos creditórios. Duplicatas, contratos de fornecimento e recebíveis de vendas a prazo alimentam carteiras de fundos que compram crédito de múltiplos cedentes e sacados.
O que mudou: da crise à autofalência
A empresa pediu autofalência à Justiça e comunicou a dispensa de todos os funcionários, com aviso-prévio indenizado. Em nota, alegou crise financeira e disse que, mesmo após adotar medidas para contornar o cenário, não reuniu condições para manter as operações. O número de empregados, o valor das dívidas e o montante dos ativos não foram informados. A reportagem do ND Mais não obteve retorno da empresa até a publicação.
A Nova Motores afirmou que a opção pela autofalência considerou a possibilidade de continuidade das atividades, a critério do juízo. O objetivo seria preservar ativos e concluir contratos que gerem recursos. Os valores das rescisões e os demais direitos dos trabalhadores serão definidos conforme a legislação trabalhista. O pedido ainda será analisado pela Justiça.
Vale a distinção jurídica. Na recuperação judicial, a empresa busca se reorganizar com os credores. Na autofalência, prevista na Lei 11.101/2005, o devedor reconhece que não tem condições de seguir e pede ao juízo a liquidação ordenada do patrimônio. Esse é um sinal mais severo de deterioração.
Análise: onde o risco pode tocar os FIDCs
A reportagem original não menciona exposição de fundos ao caso, e este texto não afirma que haja. A discussão é sobre o que o episódio ensina a quem gere crédito. Em tese, o efeito depende do papel da empresa na estrutura. Se era cedente, a gestora precisa checar lastro, eventual coobrigação e o risco de diluição, como devoluções e abatimentos. Se era sacada, ou seja, compradora, os recebíveis contra ela passam a ter risco de pagamento. Se era fornecedora de uma cadeia, o problema pode se propagar aos clientes que dependiam dela.
O ambiente já pede atenção. Segundo levantamento do InvestNews com dados enviados à CVM, de uma amostra de 1.860 FIDCs, 279 fundos (15%) tinham atraso acima de 10% do patrimônio líquido em agosto. A Uqbar aponta que o atraso normalizado nos FIDCs multicedente e multissacado subiu a 11,30% em março de 2026, ante 9,7% um ano antes. A indústria de FIDCs, por sua vez, já ultrapassou R$ 1 trilhão em patrimônio.
Para Camila Abdelmalack, economista-chefe da Serasa Experian, “os pedidos de recuperação judicial continuam refletindo as dificuldades acumuladas pelas empresas”. Segundo ela, o resultado “reflete uma combinação entre fatores macroeconômicos e desafios específicos de cada atividade”.
Perspectivas: o que monitorar
O primeiro passo será a decisão do juízo sobre o pedido, incluindo a eventual continuidade provisória das atividades. A lista de credores e o valor do passivo, quando vierem a público, mostrarão quem está exposto e em qual classe.
Para gestores de FIDC, a recomendação é revisitar as carteiras com exposição a cedentes e sacados do setor industrial no Sul do país. Vale checar concentração, garantias e histórico de pagamentos. Em ciclos de crédito mais apertado, casos como o de Schroeder funcionam como termômetro: nem toda falência chega ao fundo, mas toda carteira precisa saber se está no caminho.
Fontes: ND Mais, “Tradicional fábrica de motores anuncia falência após crise financeira e demite funcionários em SC” (29/10/2026); Serasa Experian, pedidos de recuperação judicial em maio; InvestNews, FIDCs enfrentam aumento da inadimplência (30/09/2026)
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