Chilli Beans negocia capital com fundos de special situations
Gestoras especializadas em ativos estressados entram na negociação de uma das maiores redes de varejo de óculos e acessórios do país.

A varejista de óculos e acessórios Chilli Beans está em conversas com gestoras de special situations para reforçar seu capital de giro, em meio à renegociação de uma dívida financeira estimada em R$ 500 milhões. O movimento expõe como fundos especializados em crédito estressado vêm ganhando espaço nas mesas de negociação de empresas brasileiras endividadas, um território que também interessa de perto o investidor de FIDC e crédito privado.
A pressão financeira da Chilli Beans tem origem na pandemia, quando a companhia precisou sustentar financeiramente a operação de seus franqueados para evitar o fechamento da rede. A conta, somada ao ciclo de juros elevados dos últimos anos, azedou a estrutura de capital da empresa.
Hoje a Chilli Beans opera cerca de 1.300 pontos de venda em 20 países, um modelo de negócio baseado fortemente em franquias, o que ajuda a explicar por que a empresa optou por socorrer parceiros durante a crise sanitária em vez de deixá-los quebrar. A companhia também ampliou o portfólio ao longo dos anos, com destaque para a linha de óculos de grau lançada em 2019.
Do total de R$ 500 milhões em dívida, cerca de R$ 90 milhões estão em debêntures e o restante concentrado em instituições financeiras, entre elas Banco do Brasil, Caixa Econômica Federal e Santander. Duas gestoras especializadas em special situations, a Akron e a Vega, compraram parte dessas debêntures no mercado secundário e passaram a integrar as negociações com a companhia.
Segundo o Pipeline, as tratativas giram em torno de alongamento de prazos e redução de juros, sem previsão de deságio sobre o valor principal devido, num processo descrito como amigável. Desde maio, os investidores já vêm concedendo waivers sobre pagamentos das debêntures e liberando garantias, entre elas recebíveis da companhia.
Para dar musculatura ao processo, a Chilli Beans contratou em agosto André Dela Togna, ex-Galeazzi & Associados, para a vice-presidência, com a missão de apoiar diretamente a reestruturação financeira. Em nota, a empresa afirmou manter "negociações construtivas com seus credores bancários" e disse estar implementando iniciativas operacionais, incluindo parcerias estratégicas no setor de moda.
A entrada de Akron e Vega no capital de dívida da Chilli Beans ilustra um movimento que analistas do setor de crédito privado vêm acompanhando com atenção nos últimos trimestres, o avanço de gestoras de special situations na compra secundária de papéis de empresas em dificuldade, muitas vezes antes mesmo de um pedido formal de recuperação judicial.
"Quando um fundo especializado compra debêntures no mercado secundário com desconto e senta à mesa de negociação, ele está apostando que consegue extrair valor de uma estrutura de capital ainda recuperável", avalia um analista do setor de crédito privado. Para o gestor de FIDC, o episódio reforça a importância de monitorar de perto a qualidade dos direitos creditórios lastreados em papéis corporativos de varejo, setor historicamente sensível a ciclos de juros e crédito ao consumidor.
O fato de os bancos públicos e privados credores (Banco do Brasil, Caixa e Santander) permanecerem na mesa, ao lado dos fundos especializados, também sinaliza que a estratégia adotada é de alongamento consensual, e não de disputa judicial imediata, o que tende a preservar valor para todos os credores envolvidos.
O desfecho da negociação entre a Chilli Beans, os bancos credores e as gestoras de special situations deve servir de termômetro para outros casos de reestruturação no varejo brasileiro, especialmente entre redes de franquia que absorveram passivos de parceiros durante a pandemia.
Investidores e gestores de FIDC que carregam exposição a debêntures ou recebíveis ligados a companhias de varejo devem acompanhar três frentes: o ritmo da concessão de novos waivers, a evolução das garantias oferecidas em troca do alongamento de prazos e eventuais sinais de mudança de postura por parte dos credores caso as negociações amigáveis não avancem. Um desfecho positivo tende a reforçar o apetite de special situations por crédito corporativo brasileiro, enquanto um imbróglio prolongado pode reacender o debate sobre o risco de recuperação judicial no setor.
Fontes: Pipeline (Valor Econômico); cobertura complementar via Times Brasil | CNBC
FIDC NEWS
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