AZ Quest levanta R$ 482 milhões em FII de data centers ligado à IA
Fundo imobiliário reúne mais de 7 mil investidores de varejo e mostra que a escassez de opções diretas de exposição à inteligência artificial no Brasil também move o mercado de renda fixa estruturada.

A gestora AZ Quest captou R$ 482 milhões com o lançamento do AZ Quest Panorama Data Centers FII (AZDC), fundo imobiliário voltado a imóveis que abrigam data centers. A oferta atraiu mais de 7 mil investidores e reproduz, para o setor de infraestrutura de dados, uma estrutura já consolidada entre os fundos de galpões logísticos.
A expansão da inteligência artificial tem elevado a demanda por data centers em todo o mundo, e o Brasil não ficou de fora desse movimento. Até então, no entanto, o investidor de varejo brasileiro tinha poucas alternativas para se expor diretamente a essa tese dentro do mercado local. Fundos de renda fixa estruturada e FIIs (Fundos de Investimento Imobiliário) costumam ser o canal preferido do investidor pessoa física para acessar ativos de infraestrutura, justamente por unirem um formato já familiar (cotas negociadas em bolsa, distribuição de rendimentos) a um lastro real.
Foi nesse contexto que a AZ Quest identificou uma oportunidade. A gestora aproveitou a experiência acumulada em fundos de galpões logísticos, segmento que o investidor de varejo já conhece bem, para estruturar um veículo equivalente voltado a um tipo de imóvel bastante distinto na função, mas semelhante na lógica contratual.
O AZDC adquiriu quatro ativos da Scala Data Centers localizados em Fortaleza (CE), Tamboré (SP) e Jundiaí (SP). A operação seguiu o modelo de sale and leaseback, mecanismo pelo qual o proprietário original vende o imóvel ao fundo e, na sequência, passa a alugá-lo de volta por meio de um contrato de longo prazo. Nesse caso, os contratos firmados com a Scala têm prazo de dez anos.
A Scala presta serviços de data center para companhias globais de tecnologia como SpaceX, Google, Amazon e Meta, o que dá ao fundo um lastro de receita atrelado a contratos com clientes de porte internacional. A cota sênior do AZDC, a fatia do fundo com prioridade no recebimento de rendimentos, oferece remuneração atrelada ao IPCA (Índice de Preços ao Consumidor Amplo, referência oficial de inflação no país) mais uma taxa de 9,5% ao ano.
A captação de R$ 482 milhões chama atenção especialmente pelo momento do mercado, marcado por reclamações recorrentes de investidores quanto à falta de liquidez em produtos de renda fixa e fundos imobiliários.
Para Walter Maciel, CEO da AZ Quest, a estrutura do fundo oferece um perfil de risco pouco comum no mercado brasileiro. "É uma diversificação de risco de crédito que o investidor não tem. A cota sênior oferece uma remuneração atrelada ao IPCA, com uma taxa de 9,5%. Trata-se de um fundo de sale and leaseback que se refere a um serviço essencial, que não pode ser desligado", afirma o executivo, ao destacar que não enxerga no país outro ativo com risco de crédito equiparável, dado que não há ação governamental capaz de comprometer o fluxo de caixa das empresas envolvidas na operação.
Maciel atribui parte do sucesso da captação ao que chama de "fenômeno XP", numa referência à capilaridade de distribuição da corretora, que teria ajudado a levar a oferta a uma base ampla de investidores. Some se a isso a escassez de alternativas de exposição direta à tese de inteligência artificial dentro do mercado brasileiro, fator que o CEO aponta como determinante para o apetite observado na oferta.
A AZ Quest já trabalha na estruturação de um novo fundo, desta vez de equities da Scala, com lançamento previsto ainda para este ano. A decisão reforça a aposta da gestora na continuidade do ciclo de investimento em inteligência artificial no país.
Walter Maciel também situa o movimento num quadro mais amplo. Segundo ele, um dos principais entraves para a expansão da inteligência artificial globalmente é o volume de financiamento necessário, que pode chegar a US$ 1 trilhão nos próximos anos. Nesse cenário, o executivo vê o Brasil em posição favorável, por ser uma das maiores referências mundiais em energia limpa, o que tende a atrair empresas multinacionais em busca de alternativas a datacenters fora dos Estados Unidos. "Se fizermos a coisa certa, em 10 anos, o País pode estar em um novo patamar de desenvolvimento", afirma.
Maciel resume a tese com uma expressão que também funciona como racional de investimento: "Desejamos o antifrágil". Para o CEO, estruturas menos sólidas tendem a ser as primeiras a quebrar em momentos de crise, o que reforça, na sua leitura, a importância de projetos bem lastreados em infraestrutura, crédito e imóveis para captar essa demanda global por capacidade computacional.
FIDC NEWS
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