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Ibovespa cai 15,9% e DI longo sobe quase 2 p.p. no pregão após a reeleição de Lula
Ressaca eleitoral derruba a Bolsa, dispara o dólar e muda o preço do crédito no Brasil.

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Foto: Digulvação
Artigo - Tiago Monteiro
O primeiro pregão após o segundo turno virou uma reprecificação abrupta dos ativos brasileiros. A B3 acionou o circuit breaker, o dólar chegou a R$ 5,60 e os juros futuros longos subiram com força. O Tesouro cancelou leilões da semana. Para o mercado de crédito privado, o recado chega em três frentes: custo de funding mais alto, cedentes sob pressão de caixa e mais volatilidade nos ativos de prazo longo.
O resultado que o mercado não tinha precificado
O Tribunal Superior Eleitoral (TSE) confirmou a reeleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva no segundo turno de 25 de outubro, com 51,79% dos votos válidos, contra 48,21% de Flávio Bolsonaro. O tamanho da reação desta segunda-feira (26) se explica pelo que os preços carregavam antes da votação.
Depois do primeiro turno, em 4 de outubro, o Ibovespa subiu 7,70% no pregão seguinte e o dólar recuou cerca de 4,11%. Nas semanas seguintes, parte do mercado passou a apostar em outra direção para a política econômica. Com o resultado do segundo turno, essas posições precisaram ser desmontadas de uma vez. O movimento começou antes da abertura, já nos papéis brasileiros negociados no exterior.
O relatório de conjuntura que serve de base para esta matéria aponta quatro mecanismos que ampliaram o ajuste: a surpresa em relação às expectativas, a desmontagem simultânea de posições (venda de ativos locais e compra de proteção em dólar), as chamadas de margem e a baixa liquidez dos livros de ofertas, e o prêmio de risco fiscal, com investidores discutindo a capacidade de estabilizar a dívida e a composição da equipe econômica.
Os números do pregão
Por volta das 11h, o Ibovespa caía 15,9%, aos 172.480 pontos. As negociações foram interrompidas pelo circuit breaker, mecanismo da B3 que paralisa temporariamente o pregão quando o índice cai 10%.
No câmbio, o dólar comercial saiu de R$ 4,9931 no fechamento de sexta-feira (23) para uma máxima intradiária de R$ 5,6049, alta de 12,25%. Em termos práticos, uma compra de US$ 10 mil sem proteção cambial ficaria R$ 6.118 mais cara de um pregão para o outro.
Na renda fixa, a curva de juros mostrou de onde vem o estresse. Às 9h05, o DI para janeiro de 2027 subia 0,53 ponto percentual, de 13,48% para 14,01%. Os vencimentos longos subiram muito mais: o DI janeiro de 2031 foi de 12,58% para 14,46% (alta de 1,88 p.p.) e o DI janeiro de 2033 passou de 12,65% para 14,58% (alta de 1,93 p.p.). Quando a ponta longa sobe mais que a curta, o sinal é de aumento do prêmio de risco, e não apenas de expectativa de Selic mais alta.
O Tesouro Nacional cancelou os leilões de títulos prefixados e indexados à inflação previstos para 27 e 29 de outubro e manteve apenas a oferta de papéis atrelados à Selic. O relatório trata o cancelamento como gestão da colocação de títulos em um mercado volátil, e não como sinal de incapacidade de pagamento.
O que muda para FIDCs e crédito privado
O choque atinge uma economia que já convivia com juros altos e endividamento público elevado. A Selic está em 13,75% ao ano, a dívida bruta do governo geral era de 82,9% do PIB em agosto e o déficit nominal acumulado em 12 meses somava 9,48% do PIB, segundo o Banco Central. Esses números são anteriores à eleição e não efeitos do pregão de segunda-feira.
Para os FIDCs (Fundos de Investimento em Direitos Creditórios), o primeiro efeito vem da curva longa. Juros futuros mais altos elevam o custo marginal de financiamento de empresas e governo e reduzem o preço de ativos prefixados e indexados à inflação já emitidos. Cotas e lastros com taxa prefixada ou atrelados ao IPCA ficam mais expostos à marcação a mercado. Uma alta de 1 ponto percentual na taxa exigida reduz em cerca de 6,8% o preço de um título com duration de aproximadamente 7 anos, segundo a simulação do relatório. Estruturas pós-fixadas, majoritárias na indústria, acompanham os juros de referência, mas o documento lembra que elas não ficam isentas de riscos de crédito e de liquidez.
O segundo efeito está no lastro. Crédito e capital de giro aparecem entre os pontos mais sensíveis do cenário. Importadores enfrentam aumento do custo de aquisição e de capital de giro, pequenas empresas têm menos caixa e menos alternativas de funding, e o comércio fica mais exposto a crédito e confiança. Para quem estrutura e acompanha carteiras de recebíveis, a leitura é de cedentes com margens mais apertadas, o que exige atenção redobrada à concentração, à inadimplência e ao nível de subordinação das estruturas.
O relatório também recomenda que as empresas revisem linhas de curto prazo, covenants, reservas de liquidez e necessidades de refinanciamento diante de spreads mais voláteis. É um movimento que tende a passar pela mesa de quem origina e compra recebíveis.
O que monitorar daqui em diante
O documento evita atribuir probabilidades e organiza três cenários. Na estabilização, uma política fiscal definida e menor aversão ao risco acomodariam câmbio e juros, com recuperação parcial. Na volatilidade, sinais contraditórios manteriam os mercados instáveis e o investimento em compasso de espera. Na deterioração, risco fiscal persistente e expectativas de inflação piores encareceriam o financiamento e pressionariam a atividade.
Os indicadores que vão definir o rumo são a persistência da depreciação do real, os vencimentos longos da curva DI e a retomada dos leilões do Tesouro, o Focus e o IPCA, as medidas fiscais concretas e, com defasagem, crédito, inadimplência e atividade. Para a indústria de FIDCs, os dois últimos pontos merecem atenção especial: o choque financeiro de um dia não equivale a queda do PIB, do emprego ou dos lucros, mas a duração dele vai determinar quanto chega à capacidade de pagamento dos devedores.
Fontes: relatório “Mercados sob Pressão” (Lifen Brasil, 26/10/2026), com dados de TSE, Reuters/UOL, B3, Exame, Folha de S.Paulo, Banco Central e Agência Brasil citados no documento.
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