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Agronegócio

Safrinha de milho cai 31% em Goiás e acende alerta para crédito agro

Levantamento do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) aponta recuo de 8,6% na área plantada e queda de rendimento de 24,3% na segunda safra de milho em Goiás. O resultado reduz a produção estadual de 14,5 milhões para 10 milhões de toneladas e projeta um recuo de 13,4% na produção total de grãos, leguminosas e oleaginosas do estado, um movimento que interessa diretamente a gestores de fundos com exposição ao agronegócio goiano.

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Contexto e cenário

Goiás é hoje o quarto maior produtor de grãos do país, atrás de Mato Grosso, Paraná e Rio Grande do Sul, com participação de 9,7% na safra nacional, ante 11,3% em 2025. O estado perdeu uma posição no ranking justamente no ciclo em que a segunda safra de milho, conhecida como safrinha, mostrou o desempenho mais fraco dos últimos anos.

O dado vem do Levantamento Sistemático da Produção Agrícola (LSPA), pesquisa mensal do IBGE que acompanha área plantada, produtividade e volume de colheita das principais culturas do país. Para o mercado de crédito privado, o LSPA funciona como um termômetro antecipado da capacidade de pagamento de produtores rurais que utilizam instrumentos como CPR (Cédula de Produto Rural) e CRA (Certificado de Recebíveis do Agronegócio) para antecipar receita da safra, papéis que muitas vezes acabam securitizados em FIDCs (Fundos de Investimento em Direitos Creditórios) e FIAGROs voltados ao setor.

Enquanto o milho de segunda safra concentrou a maior parte da retração, a soja goiana teve queda mais moderada, de 2,8%, com previsão de 19,7 milhões de toneladas, mesmo com leve aumento de área plantada, de 0,9%. Já o girassol foi na direção oposta: área 10,2% maior e produção estimada em 83,1 mil toneladas, mantendo Goiás como líder nacional da cultura, com 69,8% de toda a produção do país.


O que mudou


O fato central do levantamento é a combinação de dois efeitos que normalmente não aparecem juntos com essa intensidade: menos área plantada e menos produtividade por hectare ao mesmo tempo. A área da safrinha recuou 8,6%, mas o rendimento médio caiu de 6,6 mil kg por hectare para 5 mil kg por hectare, uma queda de 24,3% na produtividade.

Esse duplo recuo é o que explica a diferença de 31% na produção total, um número acima do que normalmente se observa quando a causa é isolada em área ou em clima. Em termos absolutos, Goiás deixa de colher cerca de 4,5 milhões de toneladas de milho em relação ao ciclo anterior, volume relevante o suficiente para pressionar a formação de preço local e, por consequência, o fluxo de caixa de produtores que já comprometeram parte dessa safra como garantia de operações de crédito.

No consolidado estadual, a produção de cereais, leguminosas e oleaginosas deve somar 33,7 milhões de toneladas, recuo de 13,4% frente a 2025. O contraste com o desempenho nacional chama atenção: o Brasil como um todo deve colher 347,4 milhões de toneladas, alta de 0,4% na comparação anual, puxada principalmente por Mato Grosso, que sozinho responde por 31,3% da produção de grãos do país.


Análise de mercado


Para gestores de FIDCs e CRAs com concentração em originadores goianos, o dado do IBGE funciona como sinal de alerta para revisão de PDD (Provisão para Devedores Duvidosos) e para o acompanhamento mais próximo de covenants ligados a produtividade e volume de entrega física.

"Quando produtividade e área caem ao mesmo tempo, o risco de crédito deixa de ser um evento pontual de clima e passa a exigir reprecificação estrutural da carteira", avalia um gestor de crédito privado com atuação no setor. A leitura de analistas do mercado é que fundos com forte concentração regional em Goiás tendem a monitorar de perto a evolução dos preços do milho nos próximos meses, já que a queda de oferta local pode tanto sustentar preços (o que ajudaria o fluxo de caixa dos produtores remanescentes) quanto mascarar, no curto prazo, o efeito real da quebra de safra sobre a capacidade de pagamento dos cedentes.

A dispersão de resultados entre culturas também chama atenção para quem estrutura operações de securitização. Enquanto o milho de segunda safra e o conjunto de grãos recuaram, soja teve queda mais suave e o girassol seguiu em expansão, o que reforça a importância de diversificação por cultura na composição das carteiras de direitos creditórios do agronegócio, e não apenas por originador ou por praça.


Perspectivas

O próximo movimento a ser observado pelo mercado é a divulgação dos levantamentos seguintes do LSPA, que devem confirmar ou revisar a magnitude da quebra goiana ao longo dos próximos meses de colheita. Gestores de FIDCs e CRAs com exposição ao milho de segunda safra tendem a olhar com atenção redobrada para a evolução de preços no mercado físico e para eventuais renegociações de prazo com produtores que dependiam dessa safra para honrar compromissos assumidos via CPR.

Também vale monitorar se a perda de participação de Goiás no ranking nacional de produção de grãos é um evento pontual, ligado a condições específicas do ciclo, ou o início de uma tendência que possa alterar a percepção de risco regional entre estruturadores de operações de crédito privado lastreadas no agronegócio.


Fontes: Globo Rural (globorural.globo.com), com dados do Levantamento Sistemático da Produção Agrícola (LSPA/IBGE)

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